Arquivo mensal: setembro de 2017

Educação Infantil: negócio lucrativo ou iniciativa emancipadora?

Será que a primeira infância está se tornando um negócio para o mundo, antes mesmo de ser reconhecida como etapa fundamental da educação do ser humano?
Como a sociedade brasileira está lendo a Educação Infantil?
Na mesma semana tivemos uma entrevista com a prêmio Nobel, James Heckman, economista e agora estudioso dos impactos econômicos da educação infantil. A TV paga apresentou um programa dedicado aos negócios lucrativos voltados à primeira infância (Mundo SA, Globo News) .
O que pensar de tudo isso?

Captura de Tela 2017-09-24 às 17.02.07O programa de TV até apresentou produtos interessantes. Mostrou um fabricante de brinquedos para parquinhos, reconhecido pela ONU, que propõe inovações para desafiar as crianças a experimentar novos movimentos, equilíbrio e estratégias para interagir. Outro fabricante desenvolveu jogos que possibilitam adequações para atender crianças especiais.

Mas o que destoou foram os negócios dedicados à “educação” dos pequenos. Sim, educação entre aspas!

Educação, antes de tudo, é uma questão de emancipação, desenvolvimento social e melhoria de qualidade de vida da sociedade. É um assunto sério e complexo para ser transformado em investimentos que gerem lucro para poucos e clientes “satisfeitos”.

O âmbito da Educação pertence às políticas de estado, se constituem em pilar da sociedade e da cultura. É fruto de pesquisas e estudos que atravessam séculos. Avança-se com muita dedicação, ciência e trabalho compartilhado globalmente.

O programa Mundo S/A apresentou escolas, espaços para brincar e até um SPA para bebês. Falava-se, fundamentalmente, em estimular as crianças. Não foram pronunciadas palavras como curiosidade, experiência, cultura e natureza, estruturantes dos processos de aprendizagem e construção de conhecimentos.

Curiosidade e vivências significativas acontecem com crianças motivadas, isto é, quando têm desejo (interno) de aderir às propostas, de brincar, pesquisar e viver experiências para aprender.

Já o estímulo é externo.

Representa a ação de quem estimula e, portanto, pode estar descolada da criança, seus desejos e encantamentos. Uma educação baseada em estímulos está mais centrada no professor e nas metodologias do que nas crianças e suas características e culturas.

Então, o que está acontecendo com a visão de primeira infância?

Estamos vivendo tempos delicados…

Por um lado, temos a entrevista com o Nobel James Heckman que destaca seus métodos científicos criados para avaliar a eficácia de programas sociais e, mais recentemente, os programas voltadas à primeira infância. Para ele, até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e uma educação qualificada nessa fase será valiosa para toda a vida:

(…) faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer. (James Heckman)

imagem Veja James Heckman

As nações que valorizam iniciativas de educação voltadas à primeira infância o fazem na qualidade de políticas públicas e não como nichos de mercado e de negócios! Públicas ou particulares, as escolas devem seguir diretrizes nacionais criteriosamente pensadas e elaboradas.

Captura de Tela 2017-09-24 às 17.07.59Por outro lado, temos a 3a versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que disciplinariza a Educação Infantil, contradizendo a forma de ser e estar no mundo das crianças pequenas.

O currículo proposto pela Base conduz professores a pensar mais enfaticamente sobre objetivos de aprendizagem do que a construir uma postura voltada à escuta e interação, elaboração de propostas desafiadoras e provocativas, apoiadas na observação das crianças e na reflexão sistemática da própria prática.

A BNCC atual procura indicar o que se espera que a criança aprenda, elencando um número limitado de objetivos que subestima as possibilidades de aprendizagem das crianças e de ensino de professores sensíveis e estudiosos, que articulem cuidado e educação e entendam as crianças como seres holísticos e capazes de fazer escolhas.

Finalmente, caminhando em direção à valorização da educação da primeira infância, pela primeira vez o MEC lança o Programa Nacional para o Livro Didático, PNLD 2019, voltado aos professores de Educação Infantil. Porém, o edital corre o risco de derrapar na oferta de livros voltados à manualização de práticas descoladas dos contextos de cada escola e, especialmente, de cada grupo de crianças.

Entre metodologias, lucros, receitas prontas e educação infantil de qualidade, quais caminhos escolhemos trilhar?

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Fontes:

capa-2549 Revista VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549

Programa Mundo S/A, canal Globo News https://globosatplay.globo.com/globonews/v/6157564/

3a versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), disponível em http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_publicacao.pdf

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O registro das crianças pequenas é o desenho

Para Madalena Freire o registro ajuda a sistematizar o pensamento. Mas isso também se aplica às crianças pequenas?
Sim!
Então, como ajudá-las a registrar e elaborar aquilo que estão experimentando?

Bebês a partir de 6 meses podem aprender a segurar riscadores e experimentar fazer as primeiras marcas no suporte. Riscando, rabiscando e brincando, os pequenos vão desenvolvendo o desenho e percebendo que o modo como movimentam os dedos, a mão, o punho, o cotovelo o ombro e o corpo todo, determina a forma das marcas.

Nesse ponto os desafios de brincar de desenhar vão ficando mais complexos e interessantes. Buscar controlar os traços, repeti-los e modificá-los, instiga as crianças a buscarem soluções.

O desenho assim, conquista mais detalhamento.

Os resultados desse desenvolvimento não ficam marcados somente no papel. Aspectos cognitivos são trabalhados e o cérebro aprende a controlar o corpo e usar o desenho como expressão dos pensamentos, emoções e memórias.

É justamente aí que reside o recurso do registro infantil. Como o registro feito por nós, adultos, conquista qualidade à medida em que é praticado.

Registro em desenho Projeto Amiguinha Santa MarinaNo CEI Santa Marina, em São Paulo, as crianças de 3 a 4 anos desenham todos os dias. Nas ocasiões em que as professoras percebem que experiências significativas precisam ser elaboradas e repensadas, toca desenhar!

Experimentaram algo novo?
Entusiasmaram-se com uma história?
Estão trabalhando num projeto?
Precisam pensar sobre um acontecimento?

Mãos no riscador!

É incrível notar a qualidade do desenho dos pequenos do Santa Marina! Crianças que facilmente expressam suas ideias no papel e também oralmente.

Numa das pré-escolas que visitei na Suécia, crianças na faixa de 2 a 3 anos tinham pequenos cadernos de campo para registrar as observações que faziam ao pesquisar os girassóis que haviam plantado no jardim da escola.

Registros das crianças Suécia

Na Escola do Bairro, SP, as crianças registram por meio de desenhos o que pesquisam na natureza e também o que encontram nos livros sobre o assunto. O processo de levantar elementos, selecionar o que deve ser desenhado e elaborar o desenho, convoca o cérebro a pensar sobre as experiências, organizar informações, relacioná-las àquilo que já é conhecido e criar novas conexões. Isso é desenvolver conhecimentos!

Registro de pesquisa Escola do Bairro

Na EMEI Nelson Mandela, SP, os desenho andam de mãos dadas com o letramento. Uma intimidade que conecta a escrita aos símbolos desenhados pelas crianças a partir de 4 anos.

Registros das crianças Nelson Mandela

É fácil notar os caminhos expressivos dos pequenos quando vemos os registros realizados pela criança escolhida para ser o “diretor por um dia”.

Nesse projeto interessante, que merece uma postagem exclusiva, no final de um dia de visitas e levantamentos, a criança-diretora registra na sua prancheta as necessidades e problemas da EMEI e faz sugestões. Alguns registros possuem mais desenhos. Em outros, observa-se a escrita espontânea. Em alguns podemos ver uma mistura de letras, palavras e símbolos. Depois de elaborá-los, a criança se reúne com a diretora Cibele Racy, para ler os registros, discutir sobre os achados e encaminhar providências.

Registros Diretor por um Dia Nelson Mandela

Crianças podem registrar sistematicamente suas experiências, emoções e aprendizados. É só ajudá-las oportunizando o exercício frequente do desenho e desenvolvendo o trabalho a partir dessa documentação.

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre o desenho na infância nas postagens:

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Um guia para a jornada do relatório individual

janela vitralA hora do relatório individual! Nessa época, escolas, professores e coordenadores se encontram numa temporada de muito trabalho. É o momento de colocar em teste os registros do professor e a seleção de materiais produzidos pelas crianças. Mais do que isso, é a hora de pensar sobre todas as reflexões realizadas no período. É o momento de compor uma narrativa que expresse a trajetória de cada criança, com suas singularidades e conquistas. É também a hora de dar a devolutiva para as famílias, estreitar as relações e chegar ao próximo semestre com uma parceria solidificada e comprometida.
Se você já fez e entregou seus relatórios, pode utilizar os roteiros que propomos nesta postagem para acompanhar suas observações e registros e facilitar o trabalho do final do próximo semestre.

brincando no canteiro• Quais registros foram feitos?
• Quais reflexões apontaram as jornadas de aprendizagem das crianças?
• Quais questões quero responder por meio dos relatórios?
• Quais foram os meus principais desafios no semestre e quais os desafios encarados pelas crianças?
• Quais narrativas importantes tornam visíveis as aprendizagens?
• Como traduzir as experiências em palavras? Dá para traduzir as emoções? Continue lendo..

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