Arquivo mensal: maio 2018

Coordenador pedagógico e formação de professores: tudo a ver!

O papel do coordenador pedagógico ainda é nebuloso para muitos educadores e instituições. Seja por falta de clareza das atribuições deste profissional, seja pelas condições de trabalho pouco favoráveis, frequentemente  a função de formador atribuída ao coordenador é atropelada pelo “bombeirismo pedagógico” (Madalena Freire). Cobrir a falta do professor, atender o familiar que chegou de repente, sair correndo para comprar material e atender o telefone, são alguns dos incêndios que o coordenador se sente obrigado a apagar no seu dia a dia que, infelizmente, rouba suas atenções e o afasta da formação continuada da equipe.

A realidade das creches públicas brasileiras está caminhando cada vez mais para o modelo conveniado. As prefeituras tem estabelecido convênios com instituições particulares (Associações, ONGs e OSCIPs) para compor uma parceria em torno da educação das crianças de 0 a 3 anos e 11 meses.

O problema dessa iniciativa é que os valores repassados pelas prefeituras aos parceiros não sustentam o pagamento de horários rotineiros e exclusivos de formação, estudo, pesquisa e planejamento dos profissionais. Assim, a formação da equipe e o acompanhamento individual do trabalho docente é raramente implementado.

Ah, mas existem as paradas pedagógicas mensais!
O encontro mensal que reúne toda a equipe é utilizado para discutir assuntos administrativos, implementar a avaliação anual (indicadores de qualidade), organizar os espaços e materiais planejados para as atividades e preparar eventos e celebrações. Sobra pouco tempo para trabalhar questões formativas que, quando abordadas, acabam por se perder no longo intervalo entre uma parada e outra.

Na nossa trajetória como formadoras de educadores de creches, identificamos algumas estratégias que cavam brechas na rotina para que os coordenadores possam organizar encontros com os professores. As situações abaixo têm apresentado bons resultados:

  1. Mini reuniões de 40 minutos

É possível organizar um calendário de pequenos encontros com o(s) professor(es) de cada turma, rodiziando a atuação em sala dos volantes, auxiliares ou berçaristas. Estabelecer alguns dias por mês para este fim, permite que professores e coordenadores se reúnam exclusivamente para refletir sobre as práticas, pensar sobre as conquistas, interesses e necessidades das crianças, e identificar pistas para os futuros planejamentos.

  1. Ocupação Creche

Algumas instituições promovem momentos de atividades coletivas, que reúnem todas as crianças e parte dos professores. Em situações como essas, o coordenador pode se reunir com pequenos grupos de professores para trabalhar o acompanhamento da prática docente e desenvolver a formação.

Como isso é feito?
No CEI Shangri-lá, SP, diariamente, crianças e famílias chegam à creche e encontram um espaço coletivo de brincadeiras organizado na quadra. Uma dupla de professores por semana planeja cantos de atividades diversificadas, organiza o espaço e, juntamente com o resto da equipe, recebe os pequenos e os familiares com brincadeiras.
Nesse momento, o coordenador pedagógico pode se encontrar com grupos de professores.

Atividade coletiva CEI Shangri-lá

No CEI Santa Marina, SP, acontece a “ocupação creche” com a organização de salas ambiente, em algumas tardes da semana. Cada sala se transforma numa proposta de atividade voltada a todas as crianças, independente da turma à qual pertençam. As crianças podem escolher onde brincar e o tempo que dedicarão a cada brincadeira. Cada sala tem um professor responsável por observar, cuidar e intervir nas brincadeiras e pesquisas. Além de oportunizar às crianças que se relacionem e brinquem com outras crianças e adultos, a coordenadora pode se reunir com um grupo de professoras, em dias alternados.

atividade coletiva CEI Santa Marina

Nas sugestões acima, um planejamento bem elaborado e o esforço coletivo favorecem o trabalho formativo do coordenador com a equipe e os avanços na prática pedagógica da instituição. Mas é primordial que o coordenador priorize essa ação e sustente o seu papel de líder do processo. Intercorrências e “bombeirismos pedagógicos” não podem desviar a presença e o foco do profissional.

Organização dos encontros de formação

Imbuído de compromisso e dedicação, o coordenador pedagógico deve preparar os encontros com os professores levando em conta os seguintes aspectos:

  • A frequência das reuniões – não existe vínculo e nem formação que se resista à inconstância e à distância entre os encontros.
  • O planejamento do encontro – com a definição do tema a ser discutido, dos textos teóricos e a preparação de leituras e registros das práticas (pelos professores).
  • A elaboração de uma pauta – importante para definir o tempo dedicado a cada assunto, garantir que o planejamento não seja “guloso” (maior que o tempo disponível) e colocar o grupo a par dos acontecimentos: sem surpresas e sem ansiedades!
  • A preparação de um espaço acolhedor e carregado de marcas – uma toalha diferente na mesa, uma vela perfumada acesa, uma vasinho de flores, uma bandeja com água, café, chá, suco, frutas ou bolachinhas. Um ambiente caracterizado para colocar os professores numa atmosfera de estudo.
  • A avaliação – no final é preciso avaliar a reunião com perguntas que favoreçam o levantamento dos sentimentos aflorados no encontro, do que ficou mais claro, das dúvidas e dos assuntos que ainda precisam ser aprofundados. Com base na avaliação, podem ser estabelecidos com os professores, alguns dos itens da pauta do próximo encontro. Uma avaliação sintética (condensada) ajuda os professores a se perceberem no percurso da própria formação, e também o coordenador, que se posiciona para planejar o próximo encontro. Sugerimos algumas perguntas para inspirar o coordenador a criar o seu próprio modo de avaliar:
    • Que palavra você leva desse encontro?
    • Que sabor esse encontrou deixou?
    • Qual conteúdo trouxe luz? Qual conteúdo escureceu?
    • Qual conteúdo trouxe desejo de experimentar?
    • Qual conteúdo trouxe desejo de saber mais?

Reunião de formação creche

Assim, além de atender as famílias, alinhar a prática ao Projeto Político Pedagógico da escola e implementar uma cultura de formação continuada, cabe ao coordenador pedagógico:

  • construir vínculo e espírito de grupo entre os docentes e se colocar ao lado do professor como apoiador do trabalho pedagógico;
  • estudar a teoria para promover a formação dos professores;
  • assumir o papel de autoridade diante da equipe, sem exercer o autoritarismo;
  • provocar reflexões a respeito da prática pedagógica e co-responsabilizar-se pelo trabalho desenvolvido com as crianças;
  • articular o coletivo da escola em torno de uma educação de qualidade.

Segundo o professor de Pedagogia da Universidade de Barcelona, Francisco Imbernón, “a formação em serviço requer um clima de real colaboração entre os pares” porque não acontece formação num clima de isolamento ou de solidão pedagógica. Para o espanhol, “quem não se dispõe a mudar não transforma a prática. E quem acha que já faz tudo certo, não questiona as próprias ações” e, consequentemente não avança.

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PARA SABER MAIS…

  Recomendamos a leitura de dois autores essenciais para a formação do coordenador pedagógico:

Madalena Freire – Educador, educa a dor. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

Vera Maria Nigro de Souza Placco – diversas publicações:
O coordenador pedagógico e a legitimidade de sua ação, 2017
O coordenador pedagógico e a formação centrada na escola, 2013
O coordenador pedagógico e questões da contemporaneidade, 2012
O coordenador pedagógico e o espaço de mudança, 2010
Todas da Editora Loyola.

  Artigo no site Gestão Escolar: Francisco Imbernón fala sobre caminhos para melhorar a formação continuada de professores

  Algumas postagens também abordam esse tema:

 

 

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Uma creche com muito a ensinar: NEIM Albert Sabin

Ao conhecer outras instituições podemos pensar sobre novas ideias, comparar modos de ser e agir e somar saberes. Observamos que existem situações e problemas comuns e descobrimos soluções. Percebemos também que existem contextos e problemas diferentes dos nossos que, ainda assim, alargam o nosso olhar.

Visitamos uma creche que tem muito a contar.

Fomos convidadas para fazer o lançamento do livro Educação Infantil: um mundo de janelas abertasno NEIM* Albert Sabin, localizado no Guarujá, cidade do litoral de São Paulo, coordenado por Vanessa Menezes dos Santos e Alexandra Nunes Oliveira e dirigido pela Ivoneide Francisca de Araújo.

Já na chegada fomos surpreendidas. Junto conosco, chegou um pai representante da associação de pais, que, numa conversa rápida com a Vanessa, combinou os próximos passos para cuidar “daquele probleminha no telhado”.

Quando o simpático pai foi embora, Vanessa comentou que a comunidade escolar da creche era composta por famílias interessadas e envolvidas nos projetos da instituição. Para entender esse contexto, nos levou para conhecer um espaço recém reformado pelas comunidade e pela equipe da creche. Uma área em desuso abrigou um projeto coletivo: a construção de um pedacinho de natureza e brincadeiras.

Projeto VENSER Albert Sabin Guarujá

Vanessa relatou que depois de discutir o projeto nas reuniões de pais, ouvir as sugestões, dar tempo para cada família interessada amadurecer as possibilidades de contribuição e muito zum zum zum nos momentos de entrada e saída, foi marcado um final de semana para o trabalho coletivo: famílias, equipe pedagógica e comunidade do entorno.

Familiares e equipe preparam os materiais planejados e chegaram à escola com energia. Assentaram o chão de terra batida e pedriscos; plantaram mudas e plantas; instalaram cercas, uma casinha e obstáculos; reuniram cestos com tocos de madeira, cascas de coco e cabaças; amarraram cordas nas árvores e pintaram uma pista cheia de curvas no chão.

Projeto VENSER construção

O resultado positivo da ação não se restringiu à frequência das crianças, que adoram brincar no novo pátio. O projeto reuniu um time de ouro em torno da comunidade escolar, que continua levando plantas e materiais para enriquecer o canto de natureza. Apesar do verde ainda não ser uma marca, ele está lá, se desenvolvendo e gerando os frutos de um trabalho coletivo que pensa no futuro.

Projeto VENSER uso pelas crianças

Ao retornar para a entrada principal da creche, pudemos entender como a parceria escola-famílias-comunidade se constitui. A creche dedica uma área da entrada aos pais e responsáveis que, enquanto aguardam a hora de entrar nas salas para entregar ou buscar as crianças (sim, nas salas!), podem apreciar uma vasta e bem montada documentação pedagógica, reveladora das atividades e projetos das turmas. São totens, cartazes e painéis colocados nas paredes, no chão e pendurados por toda a parte.

espaço de acolhimento das familias albert sabin

Além das produções das crianças, são preparados cantinhos para as famílias desfrutarem e compreenderem como se pensa brincadeira e educação na Albert Sabin. Tem canto de praia, de natureza, de desenho, de literatura infantil e também de literatura adulta. Tem cadeiras, bancos, um aparelho de TV e bandeja com café e água. Tem diretora que passa e cumprimenta todo mundo. Tem coordenadora que sabe o nome dos familiares e dos ex-alunos que vêm buscar os irmãozinhos. Tem carinho. Tem respeito. Tem acolhida. Tem diálogo. Tem construção de parceria e envolvimento…

cantinhos para familias Albert Sabin Guarujá

 

Documentação Pedagógica Albert Sabin GuarujáEssa atitude não para aí!

Os corredores e pátios internos também revelam que essa creche não está aprisionada pelas paredes. Cantinhos nos corredores e passagens são considerados espaços educativos. É um deleite passear e descobrir! Tem canto de livro, de casinha, de brincadeira de médico, de música, de fantasia, dos indígenas, de pesquisa de arte brasileira. Tem até bebês passeando em um trenzinho feito com contêineres pela comunidade: duas professoras dão conta de sair com 7 bebês que ainda não andam!

cantinhos para crianças Albert Sabin Guarujá

trenzinho de contêineres creche albert sabin

Conhecer e refletir sobre outras experiências é um modo de se desenvolver profissionalmente e avançar na conquista de saberes da docência. É conhecendo o outro que a gente se conhece e vira “gente grande”. O especialista português em Ciências da Educação, António Nóvoa, afirma que é por meio da partilha de saberes que podemos disparar reflexões e, com isso, a experiência de cada um se transforma em conhecimento ao analisar as próprias práticas.

Parabéns à comunidade da NEIM Albert Sabin, empenhada em promover a educação das crianças. Parabéns à equipe da creche pelo trabalho inspirador. E parabéns a todos por compartilharem seus saberes com os leitores do Tempo de Creche.

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Resumo das dicas da NEIM* Albert Sabin:

  • Na entrada e na saída, a recepção dos familiares é valorizada pela presença da diretora e/ou da coordenadora.
  • O espaço reservado para os familiares é pensado e elaborado com intenção pedagógica: tem documentação pedagógica dos trabalhos desenvolvidos com as crianças, tem cantos preparados com estética e conteúdos para sensibilizar e provocar o olhar, tem literatura para levar para casa e acolhimento com cadeiras, água, café e televisão.
  • Os familiares e responsáveis entregam e buscam as crianças na sala.
  • Existe uma associação de pais (APM) atuante, que frequenta a creche, conversa com a gestão, discute projetos e convoca a comunidade para participar de eventos culturais, celebrações e também de mutirões.
  • Corredores podem ser espaços pedagógicos com cantinhos organizados para brincadeiras e faz de conta: casinha, música, médico, mercado, leitura, fantasia, entre outros.
  • Um trenzinho feito com contêineres e almofadas pode ajudar no deslocamento dos bebês que ainda não andam
  • Áreas em desuso podem se transformar em parques com elementos da natureza: chão de terra batida; plantas; cordas, tábuas e pedaços de tronco viram brinquedos.

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PARA SABER MAIS…

*NEIM = Núcleo de Educação Infantil Municipal

Citação de António Nóvoa: Professores: Imagens do futuro presentes. Lisboa, 2009

Leia mais sobre outras escolas que tem muito a ensinar nas postagens:

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Repensando o velho caixote de brinquedos…

Crianças aprendem brincando, mas não nascem fazendo isso sozinhas.
É pelas primeiras brincadeiras com a mãe que os bebês aprendem uma linguagem que dominarão com maestria: o brincar.
Aí você olha para a prateleira da sala, avista o caixote de brinquedos… e pensa: minhas crianças brincam todos os dias!
Será? Quais brincadeiras o caixote de brinquedos pode proporcionar? Vamos refletir sobre isto!

O lúdico é um estado de graça para a criança. Nós, adultos, perdemos a conexão com a brincadeira porque a sociedade dos “crescidos” rotulou o brincar como perda de tempo para quem tem responsabilidades e atribuições!

Mas hoje a brincadeira das crianças é garantida por lei, ao menos na primeira infância.
Por que será?

Por que as crianças ficam felizes quando brincam?
Por que gostam?
Por que inventam?
Por que descobrem?
Por que aprendem?

Sim!

canto de atividadesPor tudo isso. E porque o lúdico é uma linguagem que permite interagir com os adultos, as outras crianças, a cultura, a natureza, os espaços e os materiais. É por meio do diálogo brincante com o mundo que a criança vive experiências intensas e pode ser transformada por elas.

 

Para o pesquisador francês, Gilles Brougère, “o que justifica a brincadeira, além de todo o mito, é que ela oferece a possibilidade de a criança fazer experiências variadas e, mais que produzi-las, escolhê-las e controla-las”.

Bom, até aí parece que não tem muita novidade. Os profissionais da Educação Infantil percebem quando as crianças mergulham numa brincadeira e o quanto esses momentos deixam marcas significativas. Então porque estamos retomando este assunto?

Por que, infelizmente, ainda existe a crença de que é só dar um brinquedo que brincadeiras e aprendizagens acontecem.

É fato que o brinquedo nasceu para a brincadeira. Mas nem sempre a brincadeira nasce dos brinquedos! Especialmente aqueles que estão no velho caixote da sala, amontoados, meio quebrados, meio misturados e incompletos. Aquele monte de plástico que é visitado todos os dias, sem nenhuma intervenção do adulto a não ser dá-los aos pequenos.

Ué? Mas as crianças não brincam com eles?

Sim. Até brincam.

Mas escola é espaço formal de ensino e aprendizagem. Como dissemos logo acima, a brincadeira é um ato social e, por isso, é cultural e aprendida.

Sem a intervenção do adulto, o velho caixotão pré-dispõe os pequenos às velhas brincadeiras, exercitadas um milhão de vezes!

Nestes momentos, o que os professores estão fazendo para provocar novas brincadeiras e experiências?

Estão inspirando a criatividade? Desafiando os pequenos a pensar em novos usos e possibilidades para os velhos brinquedos?

Gilles Brougère nos fala que “a importância da brincadeira, ao lado de outras atividades humanas, permite a produção de novas experiências”. Não há imaginação que chegue à criança com velhos brinquedos frequentemente utilizados, se eles não receberem um empurrão do professor com planejamento e intencionalidade pedagógica.

Que tal então repensar o velho caixote? Existem muitas possibilidades para trabalhar com os brinquedos que chegam no meio do semestre intensamente explorados, desconjuntados e quebrados. Propomos pensar em novas combinações.

1- Reunir parte dos brinquedos com intenção de provocar brincadeiras diferentes:

  • materiais-organizadosPeças pequenas de montar com panelinhas, potinhos e colherinhas (será que se transformarão em uma comidinha diferente?);
  • Carrinhos com bonequinhos (será que os bonecos vão se tornar passageiros? Quais narrativas vão surgir?);
  • Apresentar só os brinquedos grandões;
  • Apresentar só os brinquedos pequeninos;
  • Unir dois tipos de brinquedos de montar que podem se complementar;
  • Colocar os carrinhos e/ou bonequinhos próximos a um brinquedo de montar que propicie a construção de “túneis”, “garagens” etc..

2- Reunir alguns brinquedos com outros materiais:

  • Bonecos e retalhos de tecido de diferentes cores e texturas (será que vira roupa? Cobertor?);
  • Carrinhos com caixas e tiras de cartolina ou papelão (podem se transformar em túneis, garagens, pontes e ruas?);
  • Tratores, caminhões e trens com pedras de diferentes tamanhos;
  • Panelinhas com plantinhas, gravetos e sementes (vira comidinha?);
  • Brinquedos de montar e lãs e barbantes coloridos (vão tentar amarrar? Enrolar? O que vai dar?).

canto de carrinhos

É só colocar a criatividade em ação e fazer uma escuta atenta das brincadeiras que as próprias crianças estão criando, para pensar em possibilidades de ampliação.

Mas é importante não esquecer que, ao utilizar as brincadeiras somente como um meio didático, deixamos de lado as principais contribuições do brincar para o desenvolvimento infantil. Como lembra a professora Gisela Wajskop: “situações que evidenciam apenas objetivos instrucionais” não se constituem em brincadeira, “pois o tema, os papéis e as ações das crianças foram definidas a priori em função de objetivos prévios” do adulto.

Outro ponto fundamental para despertar o desejo de brincar diferente é organizar um espaço de brincadeira diferente. Em outras postagens já abordamos a importância do “espaço propositor” para inspirar as crianças e garantir experiências interessantes.

Canto 1

Quando brinca, a criança vai além da realidade: imagina, inventa, experimenta novas situações, testa modos de se relacionar e vivencia o mundo adulto que ainda não lhe pertence a não ser na brincadeira. Por isso ela aprende e cresce enquanto brinca. Por isso brincadeira também é coisa de escola!

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre a brincadeira para as crianças pequenas no livro: O Brincar – 0 aos 6 anos, da Gisela Wajskop. As citações desta postagem estão neste livro.

O livro do Tempo de Creche dedica muita atenção à questão da brincadeira na infância, apresentando fundamentação, tabelas com conteúdos organizadores e muitas sugestões de atividades. Adquira um exemplar acessando a loja da Editora Edelbra.

Leia mais sobre espaço propositor e brincadeira na Educação Infantil nas postagens:

 

 

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Atividades para criança criativa: o que significa isto?

Um grande número de atividades de creches e pré-escolas apresentadas nas redes sociais nos fazem pensar sobre a qualidade da educação praticada com as crianças pequenas. Ainda é possível observar que muitos educadores valorizam as “atividades” e esquecem do personagem principal de todo e qualquer planejamento pedagógico: a criança criativa, seus interesses, necessidades e percursos de aprendizagem e desenvolvimento.

Muitos dos conteúdos pedagógicos da Educação Infantil postados nas redes sociais pertencem a um universo ultrapassado da Educação Infantil.

paredes com imagens de qualidade fb

Um número significativo de experiências pedagógicas compartilhadas mostra crianças “enquadradas”, com pouco espaço para o exercício da criatividade, a resolução de problemas e o desenvolvimento da autonomia.

O que quero dizer com isso?

São diversas indicações de atividades centradas em professores que assumem postura diretiva e retratam propostas baseadas em folhinhas impressas para colorir, pobreza estética e a valorização da mão do professor na elaboração de materiais com imagens estereotipadas de EVA. Pouco se nota da escuta, das descobertas e das contribuições das crianças nos processos de aprendizagem. Em resumo, divulgam-se atividades que não valorizam a identidade, a singularidade e a aprendizagem por meio de experiências e construção de conhecimentos.

brinquedinho ou desafio

A criança pequena, cuja curiosidade e iniciativa é valorizada, pode se colocar nas situações que vivencia. Ela tem espaço para “se interessar/não se interessar”; “perguntar/ouvir”; “saber/ainda não saber”; “entender/não entender”; “pensar igual/pensar diferente”; “querer repetir/querer inventar/ querer descobrir”… enfim, são crianças que têm posicionamento e certamente participam do próprio processo de aprender e se desenvolver.

artesanato do professor

Para o teólogo, filósofo e pesquisador da Educação, Cipriano Carlos Luckesi, as aprendizagens complexas dão base para aprofundamentos e criatividade: “só cria quem entende”. O ser humano é ativo. É um ser de movimentos, mesmo que esteja aparentemente quieto. Na sua quietude, certamente os neurônios estão em movimento. O ensino mecânico não considera os movimentos internos e externos das crianças e, com isso, não constrói uma aprendizagem baseada no “querer saber os porquês”, para entender, aplicar e recriar (LUCKESI, 2011). Só nesse estágio é que a criança se transforma, conquista autonomia e pode transformar o mundo.

documentação pedagógica da criança

Já crianças que foram formatadas em comportamentos condicionados, perdem a curiosidade, o desejo de pesquisa, a criatividade, o encantamento pela descoberta e a certeza de que podem aprender, inventar e participar do que acontece ao seu redor. Essas são as bases para formar crianças pensantes, inteligentes, críticas e que conhecem os próprios jeitos de se organizar para aprender.

Muitas das propostas divulgadas na internet atropelam o potencial das crianças e, como diz Madalena Freire, no lugar de oferecer “FÓRMAS”, as colocam em “FÔRMAS”.

atividade formatada

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PARA SABER MAIS…

→ Cipriano Carlos Luckesi é teólogo, filósofo, doutor em Educação: Filosofia e História da Educação e especialista em Avaliação. Hoje é professor aposentado, orientador de pós-graduandos e integrante do Grupo de Pesquisa em Educação e Ludicidade da Universidade Federal da Bahia. O livro consultado nesse artigo é Avaliação da aprendizagem. São Paulo: Cortez, 2011.

→ Madalena Freire é uma das inspirações do Tempo de Creche. É pedagoga e arte- educadora. Dedica-se desde 1981 à formação de educadores com grupos de reflexão e estudo. Foi fundadora do Espaço Pedagógico em São Paulo e presta assessoria a instituições públicas e particulares em todo o território nacional.

Leia mais sobre Madalena Freire e o tema desta postagem em:

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