Arquivo mensal: junho de 2018

A excelência tem que ser um objetivo!

Cibele Racy é diretora da EMEI Nelson Mandela, pré-escola da cidade de São Paulo. Ela faz um trabalho revolucionário, transformando a instituição em exemplo de educação inclusiva e competente. Cibele deu um depoimento sensível e contundente para o programa Conversa com Bial que precisa ser compartilhado com outros educadores e ficar registrado no Tempo de Creche.

Apesar das diversas postagens publicadas sobre a diretora, abordar mais um pouco da sua história traz inspiração.

EMEI Nelson Mandela Cultura

 

Cibele conta que assumiu o cargo há mais de 12 anos na Nelson Mandela, quando a escola era vista como instituição de educação para quem não tinha outra opção. Desde o início de sua gestão, Cibele ouviu… ouviu as crianças, ouviu os professores, ouviu as famílias e ouviu a comunidade!

A escuta atenta não ficou no “acolhimento de lamúrias”! A diretora refletiu sobre as críticas e os desejos, priorizou as solicitações, planejou os encaminhamentos e começou pelos banheiros!

Sim, é isso mesmo: pelos banheiros!

Ao ouvir as crianças e suas famílias, descobriu que a escola era feia, mal conservada e que os banheiros poderiam ser iguais aos dos “shoppings centers”!

Banheiros

A nova diretora buscou recursos e reformou os banheiros que ficam no refeitório, próximos à entrada da escola. Colocou tampo de mármore nas pias, torneiras automáticas, degrau para as crianças lavarem as mãos confortavelmente, ladrilhos decorados e portas de alumínio.

O local virou a sensação da comunidade escolar! Nunca se fez tanto xixi!

As crianças visitavam o banheiro com frequência e os familiares, que traziam e buscavam os pequenos, estavam sempre “apertados”!

A comunidade escolar começou a frequentar a escola e a dialogar com a Cibele que pode fazer mais descobertas: quais realidades precisavam ser transformadas? Quais mitos precisavam ser quebrados? O que era preciso fazer para estabelecer uma imagem de polo de educação e cultura aberta à comunidade?

Pesquisa EMEI Nelson Manela

Ao longo dos anos, questões de preconceito racial foram enfrentadas e trabalhadas, a cultura do entorno foi estudada e integrada aos projetos, e o time de professores ganhou voz, formação e espírito de comprometimento com o projeto da diretora.

Hoje a EMEI Nelson Mandela é frequentada pelos moradores da comunidade, pelas famílias das crianças e é buscada pelos professores da rede que se consideram privilegiados por integrar sua equipe pedagógica. Mas o trabalho é árduo e incessante! Os tempos e as crianças mudam, e o trabalho pedagógico acompanha. Ninguém descansa, mas o clima de realização está no ar!

Transcrevemos o depoimento da Cibele Racy e aconselhamos assistir ao vídeo do programa – Conversa com Bial – clique aqui.

Por uma infância sem preconceito e racismo

“Em 2004 quando eu cheguei a EMEI Nelson Mandela, ela não era reconhecida pela comunidade como um território de aprendizagem e de troca. Exatamente por este motivo construímos novos espaços e projetos. Quando resolvemos fazer a primeira festa afro-brasileira no lugar da festa junina, que é a celebração mais comum do mês de junho, finalmente sentimos vínculos afetivos sendo criados com os pais e as crianças. Todos se sentiram representados e reconhecidos aqui dentro.

Família Abayomi

Aí mudou a relação com a escola. E ao mudar essa relação, a participação das famílias começou a acontecer.

O trabalho com a diversidade vais além das festas. Trabalhar com a diversidade significa também compartilhar poderes. Poderes pequenos, mas ainda assim, poderes!

Na Nelson Mandela temos o projeto “Diretor por um dia”, em que uma criança por turma assume o papel de diretora por um dia. Elas têm a liberdade de circular por toda a escola para observar, anotar/desenhar os problemas e as coisas legais que observam. Depois, fazemos uma reunião, conversamos e pensamos em como solucionar os problemas. Elas aprendem a elaborar suas questões, coloca-las no grupo, ser ouvidas e ouvir o outro.

Um dia, se eu pudesse realizar um grande desejo profissional, seria acabar com a crença de que criança pequena não tem competências e habilidades. O desempenho delas nesta função [de “diretor”] prova o contrário.

diretor por um dia

A experiência se dá em quatro passos: primeiro, as crianças não sabem o que fazer. No segundo momento, elas começam a se organizar e a tomar decisões. No terceiro passo, elas participam da vida da escola além da sala de aula. Finalmente, esta experiência é comentada em casa e contagia a família!

A tendência dos adultos de subestimar a competência das crianças tem influência na autoestima e, consequentemente, nos resultados que ela atingirá no futuro. Por isso, não há como o currículo para uma criança de escola pública ser diferente do currículo para uma criança de escola particular. O que está em jogo não é se ela vai aprender ou não, é como a escola vê a criança: capaz ou não capaz. Nossa luta é que a escola pública tem o dever de ser igual ou melhor do que qualquer outra escola do país.

Por que melhor?

Manifestação cultural

Talvez porque estas crianças vivam em ambientes não tão provocativos quanto os demais. A excelência aqui tem que ser um objetivo. A excelência na escola pública tem que ser um objetivo!”

Para saber mais sobre a EMEI Nelson Mandela,  leia no Blog Tempo de Creche:

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10 sugestões de materiais e brincadeiras para a hora do parque

Existem brincadeiras de parque e BRINCADEIRAS DE PARQUE!
Quem não lembra do prazer e da alegria de brincar na praça e no parquinho da escola? Só de tocar no assunto nosso corpo é preenchido por um conjunto de sensações: liberdade, exploração, desafio, criação, encontro com colegas, sol, vento…  e descobertas. Sim, esse último ingrediente apimentava as brincadeiras e as nossas lembranças. As novidades e a interação com os colegas nos faziam pensar em outras possibilidades e mudavam o curso das brincadeiras da hora do parque. Nestes momentos, a brincadeira desafia o raciocínio, a criatividade e as relações.

Por isso, quando dizemos com tranquilidade “as crianças saíram para o parque e estão brincando e aprendendo”, é preciso entender a qualidade dessas brincadeiras e, consequentemente, das aprendizagens.

Novos elementos e intervenções conferem complexidade à brincadeira. Por isso, a hora do parque, assim como todas as outras horas “rotineiras” de brincadeira, precisam ser observadas e pensadas pelo professor.

Imagine o seguinte: como reage uma criança quando apresentada a um novo material? Ela explora, pesquisa, inventa possibilidades, mostra para os colegas e brinca. Se fizermos isso todo dia com o mesmo material, certamente o tempo de envolvimento e as invenções vão diminuir, até que a criança se desinteresse por completo.

Por mais que o parque seja em si um ambiente grande e repleto de possibilidades, novas provocações representam combustível para as brincadeiras.

Isso não quer dizer que é preciso dirigir o brincar! Mas é preciso intervir com provocações. As crianças são movidas por novos desafios, mas têm a liberdade de aceitar ou recusar o “convite” deixado sutilmente pelo professor.

Preparamos um repertório de sugestões para apimentar a hora do parque. No momento em que o professor compreender os interesses e as demandas de sua turma, o céu é o limite para inventar outras possibilidades!

                   

INTERVENÇÕES PARA A HORA DO PARQUE

1- Espaço transformado

Um tecido estendido no trepa-trepa, uma corda amarrada para dividir o espaço, uma cabana, algumas caixas e caixotes. A simples introdução de um destes elementos transformadores já é suficiente para modificar o espaço e as narrativas das brincadeiras.

cabanas de tecido no parque

2- Circuitos e labirintos

Preparar circuitos ou construí-los com a ajuda da turma. Pneus, bambolês, caixas firmes, cadeiras, bancos, cordas e garrafas pet cheias de água ou areia, podem marcar os espaços e desafiar o corpo a “pensar” para se deslocar. Em muitas instituições, existe um verdadeiro arsenal de objetos construídos pelos professores e pelas famílias para compor os circuitos: pontes, escadinhas, rampas, tuneis, cubos vazios feitos com canos de PVC ou com madeira. Este material vale o investimento e o cuidado para armazenar.

cordas no parque

3- Grandes construções

Materiais volumosos e robustos podem provocar construções grandes e complexas: caixas de leite e de molho de tomate, recheadas com jornal amassado e revestidas com papel kraft, se transformam em tijolos. Pedaços de tábuas e chapas de madeira enriquecem as construções. Caixotes e caixas rígidas, embalagens cilíndricas de papelão utilizadas na indústria e grandes carreteis ampliam as possibilidades. O simples manuseio destes objetos convoca conjuntos musculares e percepção espacial raramente exercitados nas atividades realizadas em sala. Também desperta para a colaboração, uma vez que, para mover e transportar os objetos grandes, é preciso contar com a ajuda dos colegas.

construções no parque

4- Trilhas no chão

Usar o giz de lousa para riscar “ruas” e percursos no chão é uma alternativa à transformação do espaço. As linhas induzem os pequenos a usarem o espaço de diferentes maneiras, criando novos caminhos e aventuras. A fita crepe também pode ser usada para demarcar o chão.

brincadeira de pista

segurador de placaPode-se desenhar diferentes circuitos e deixar que as crianças brinquem somente com o corpo. Em outra ocasião, se a escola tiver as motocas, carrinhos ou bicicletas, introduzi-las na brincadeira. Para os maiores, as “ruas e construções da cidade” podem ter nomes. É interessante criar placas para as ruas e locais que podem ser afixadas em cabos de vassoura ou galhos enfiados em garrafas pet cheias de areia. As placas podem ter desenhos, letras e até palavras, escritas pelo professor ou pelas crianças. Uma ótima oportunidade para trabalhar o letramento.

5- Brincadeiras que desafiam controle e equilíbrio

Atravessar o parque com cuidado para não derramar a água de um copo, caminhar segurando um prato com uma bolinha ou um livro na cabeça, são brincadeiras divertidas que convocam o controle do corpo e da mente. É possível combinar as brincadeiras de equilíbrio com as trilhas riscadas no chão.

6- Brincadeiras de caça ao tesouro e de encontrar objetos

As crianças se acostumam aos elementos do parque e, quando algo novo surge, percebem o que é diferente ou o que está “fora de lugar”. Que tal esconder objetos que não pertençam ao contexto do parque e pedir que os encontrem? Uma camiseta velha, um brinquedo da sala, uma revista, um desenho feito pelos pequenos, fotografias, sandalinhas, pelúcias, embalagens de xampu e outros cosméticos, vassouras, cobertas… pense no contexto da escola e invente suas próprias alternativas. Preparar algumas perguntas amplia o desafio: quem será que escondeu tudo isso? Por que esse material não deveria estar aqui? Por que deixaram esse objeto aqui? Onde esse objeto deve ser guardado?

7- Brincadeiras para os dias de sol e calor…

…para cuidar do espaço e brincar de faxinar: lavar os brinquedos do parque (balanços, escorregador, trepa-trepa, chão, paredes) e os brinquedos utilizados no tanque de areia.

8- Para os dias de chuva…

…que tal colocar alguns recipientes na área externa para coletar a água da chuva? Vamos ver quanta água caiu do céu na bacia? Será que encheu o copinho? Que tal marcar o volume de água com uma caneta e comparar com outros dias de chuva? Este pode ser o início de uma pesquisa sobre o clima!

9- Ciências e brincadeira

balança improvisadaPesquisar o peso de diferentes objetos com cordas ou com uma balança improvisada. Investigar o que flutua e o que afunda em bacias e baldes com água. Descobrir a anatomia de flores, folhas, caules, frutos e sementes. A área externa, em especial os jardins, podem despertar investigações científicas. É só uma questão de intenção do professor para estar atento às novidades que a natureza oferece, chamar a atenção das crianças e convida-las a pesquisar: uma nova flor, uma semente encontrada no chão, a chegada de um inseto, uma lagartixa e a visita de um sapo. O professor pode despertar o interesse com perguntas e permitir que os pequenos continuem a investigação com autonomia.

 

10- Sons

megafone de papelAlgumas escolas têm parques sonoros instalados nas áreas externas. As crianças sempre dão uma passadinha para brincar e produzir sons. Mas é possível ampliar essa pesquisa buscando outras possiblidades sonoras. Qual o som dos tubos da estrutura do trepa-trepa? E do balaço? E do tronco da árvore? Colheres de pau e pedaços de cabo de vassoura podem fazer as vezes das baquetas.

A própria voz também promove investigação sonora. Que tal construir megafones com cartolina e sair gritando por aí? Os velhos “telefones” feitos com barbantes, mangueiras, copinhos e latinhas favorecem brincadeiras divertidas e interessantes.

TelefoneLata-300x225

Estas 10 sugestões demandam do professor diferentes níveis de intervenção e envolvimento na condução da proposta. É só uma questão de refletir sobre as informações colhidas nas próprias brincadeiras das crianças e pensar em estratégias para contribuir.

Em geral, simples atitudes transformam e apimentam as brincadeiras. Uma boneca levada para a área externa pode atender os anseios da brincadeira de casinha. No CEI Aníbal Difrancia, SP, uma menina descobriu um pequeno buraco no chão de terra do parque. Intrigada, começou a cavar e inspirou outros colegas a aumentarem o buraco com as próprias mãos. No dia seguinte, a professora levou pazinhas e colheres para ajudar na escavação. Depois, notou que a brincadeira tomou novos rumos e o desafio passou a ser o transporte da terra arenosa para o tanque de areia que se encontrava vazio. Assim, a professora providenciou potinhos e baldinhos para ajudar na coleta. Hoje o buraco está imenso e é um novo “brinquedo” do parque.

O importante é compreender que as crianças aprendem brincando, mas a qualidade das brincadeiras tem influência direta na qualidade das aprendizagens.

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre o brincar e a hora do parque nas postagens:

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