Arquivo mensal: julho de 2018

Férias: um tempo para pensar no respeito ao TEMPO do educador

Diversas creches e escolas de educação infantil estarão de férias ou em recesso por alguns dias no mês de julho. Após seis meses de trabalho focado na educação e no cuidado de crianças pequenas – energéticas, criativas e preciosas – estamos cansados!
Nos horários de trabalho, os professores são polvos com 8 braços, atletas maratonistas e camaleões, com olhos que enxergam até atrás da cabeça!
Mas não é só isso. Como é o tempo do educador na escola?

Professor atleta polvo camaleão

Esses profissionais são escritores da própria prática, documentaristas das histórias que vivem com as crianças e arquitetos que planejam a estrutura educativa oferecida nas instituições de educação.

É muito esforço e dedicação que, bem da verdade, nos enche o coração todos os dias.

Assim, o descanso é merecido mas traz consigo um tempo e uma oportunidade para refletir justamente sobre o TEMPO!

Nem todos os professores da educação infantil têm as mesmas condições de trabalho nas escolas e creches espalhadas pelo país. Algumas instituições de ensino ainda contratam professores declarando-os na carteira de trabalho como “auxiliar de desenvolvimento infantil” ou “professor de educação infantil”. Ora, professor é professor! Sai da faculdade de pedagogia com esse título! E o aperfeiçoa com o estudo continuado e a experiência.

No contexto dessa função, os profissionais de algumas escolas particulares e creches municipais conveniadas, enfrentam uma jornada de trabalho de 8 horas por dia, 5 dias por semana COM AS CRIANÇAS!

Se você que nos lê não conhece essa realidade, deve estar assustado.

Imagine que um “professor de educação infantil” de um CEI paulistano (Centro de Educação Infantil), chega ao trabalho por volta das 7 ou 8 horas, e sai às 16 ou 17h. Descontada a hora do almoço, os professores permanecem com as crianças por 7 horas corridas. Tudo certo se o trabalho docente qualificado não envolvesse outras demandas fundamentais como planejar atividades, refletir sobre os registros, organizar as práticas e a documentação pedagógica e participar de momento de formação permanente com o coordenador. O saber e o fazer docente que complementam a formação inicial ocorre nesses momentos, e só assim se conquista qualidade e renovação ao longo da vida profissional.

Pergunto então, onde cabem esses momentos num CEI conveniado à Prefeitura de São Paulo, por exemplo?

Não cabem! E como se explica essa situação?

Segundo os pesquisadores Ana Paula Nascimento e Cleber de Oliveira Silva, da Universidade de São Paulo, (2015), Centros de Educação Infantil/Creches Particulares Conveniadas e Centros de Educação Infantil da Rede Pública Indireta recebem recursos financeiros da prefeitura, porém a gestão dos professores e dos funcionários cabe às instituições privadas. A diferença no montante pago pela prefeitura a essas instituições impacta diretamente as condições de trabalho dos professores. Explicam as pesquisadoras:

quando falamos de valorização profissional, os docentes da rede direta trabalham 25 horas semanais com crianças e 5 horas em formação, possuem ainda quatro dias no ano destinados a reuniões pedagógicas de 6 horas cada e um Estatuto do Magistério que permite, entre outras garantias, progressão na carreira; já os docentes da rede conveniada trabalham as 40 horas semanais com as crianças, tendo somente um dia por mês para tratar de sua formação e organização da escola, sem garantias dadas em um Plano de Carreira.

Assim, além do dia da parada pedagógica mensal, não há tempo para respirar e PENSAR.

Um artigo publicado no jornal Folha de São Paulo, em 21 de maio de 2017, destaca que 80% das crianças de 0 a 3 anos e 11 meses da cidade frequentam creches conveniadas ou terceirizadas que apresentam “condições piores de atendimento, com maior proporção de alunos por educador, supervisão pedagógica deficiente e infraestrutura inadequada”.

Das 2069 creches paulistanas registradas em 2016, 1693 eram conveniadas e só 376 diretas (com o regime adequado de horas de trabalho, dentro e fora da sala).

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Sabemos que há uma carência de vagas para atender as crianças pequenas de diversas cidades e que existe uma limitação de verba “suprida” com os acordo de terceirização. Mas esse processo precisa ser revisto. Todos os professores do país merecem condições semelhantes de trabalho. Todas as crianças têm direito a uma educação qualificada.

Nós do Tempo de Creche, formadoras que somos, conhecemos e trabalhamos com diversas creches conveniadas em São Paulo. Podemos afirmar que lidamos com muitos professores, coordenadores e diretores heróis, que procuram fazer o impossível para educar suas crianças com qualidade. Mas essa dinâmica não é justa: nem com os professores e nem com as crianças e suas famílias que, ao realizarem a inscrição no sistema de vagas da prefeitura, não têm o direito de optar por instituições cujos professores dispõem ou não de condições adequadas de trabalho.

Isso não é respeito. Não é democracia. É INjustiça social. Temos que ficar atentos e nos posicionar.

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre formação permanente nas postagens:

Leia o artigo dos pesquisadores Ana Paula Nascimento e Cleber de Oliveira Silva sobre a terceirização das creches da cidade de São Paulo: As creches conveniadas em São Paulo: quais os reais motivos dessa opção política. In: Fineduca – Revista de Financiamento de Educação, Porto Alegre, v. 5 n. 10, 2015. 

Leia a reportagem do jornal Folha de São Paulo sobre a política de creches da cidade de São Paulo.

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