Arquivo mensal: setembro 2018

Atividades que “dão certo” e que “não dão certo”: o que pensar desta classificação?

Ultimamente tenho ouvido a expressão deu certo para qualificar atividades, projetos e propostas oferecidas às crianças da educação infantil.
O que isto quer dizer?
O que esta expressão esconde?
Quais pensamentos pedagógicos estão por trás desta classificação?

Nos nossos momentos de formação, ouvimos muitos professores avaliarem suas propostas com as expressões deu certo, deu tão certo, não deu muito certo… Fiquei intrigada com as colocações e fui investigar.

Conversando com os docentes, percebi que quando uma atividade dá certo, ela implica em situações de envolvimento das crianças no que é proposto, adesão da maioria, produção de um produto final que atenda às expectativas do professor, pouca agitação e momentos de diversão. Será que dar certo é isso? Uma atividade precisa dar certo? As atividades devem divertir? O que pensar quando dá errado?

Convido você a refletir sobre estes questionamentos!

1. Quando um planejamento dá certo, ele provavelmente atingiu os objetivos estabelecidos. O que me leva a perguntar: quais objetivos foram pensados para as propostas? Objetivos pedagógicos envolvem expectativas de APRENDIZAGEM. Especialmente depois da BNCC, temos mais clareza sobre as aprendizagens que são esperadas para as crianças de 0 a 6 anos. Desse modo, ao avaliar a atividade, o professor precisa partir das aprendizagens das crianças e dos objetivos imaginados por ele no planejamento.

2. Para verificar se a atividade deu certo, o olhar do professor durante a proposta fornece indícios do resultado. Porém, só a reflexão sobre os registros pode revelar se as situações de aprendizagem ocorreram, quais crianças apresentaram avanços e fragilidades e como tudo aconteceu.

3. Atividades planejadas a partir da escuta das crianças, isto é, que atendam aos seus interesses e necessidades, sempre dão certo. Porque as propostas que partem destes princípios são experiências pedagógicas responsáveis, a serem avaliadas e encaminhadas. Por outro lado, as propostas planejadas a partir de objetivos de aprendizagem e desenvolvimento que não deram certo, podem indicar que interesses, habilidades e demandas das crianças não foram totalmente compreendidos e considerados pelo professor.

4. Atividades que contemplam as crianças com propostas lúdicas, desafiadoras, instigantes e adequadas às suas habilidades, sempre dão certo. A questão é que o professor precisa estar aberto às contribuições dos pequenos e valorizar e permitir seus questionamentos, criações e percursos… isso é sinal de potência, desenvolvimento e aprendizagens.

5. Quando a proposta assume rumos inesperados, ela continua na esfera do deu certo se o professor souber se posicionar frente aos objetivos planejados. O que quer dizer? Significa que o professor que pauta a intenção pedagógica nos objetivos de aprendizagem, se planeja com estratégias que provocam as crianças e as convidam para viver experiências que favoreçam o desenvolvimento das habilidades previstas no planejamento. Mas, se o inesperado acontecer, o professor vai encarar a atividade como um aprendizado para sua própria prática e para repensar suas estratégias. O que dá errado é o que nos movimenta e nos faz pensar. É bom lembrar do que diz Madalena Freire: o professor não aprende com o aluno, ele aprende com as práticas que desenvolve com seus alunos. Professor é professor e aluno é aluno.

Por isso, dar ou não dar certo é uma generalização que pode esconder conceitos equivocados da prática pedagógica. No lugar de dar certo e não dar certo, gosto mais de pensar em “objetivos planejados que foram contemplados” e “surgimento de outros caminhos e aprendizagens não previstas”. Planejamentos, registros cuidadosos e reflexões transformam “dar certo” e “dar errado” em pesquisa da intencionalidade pedagógica e da prática aberta aos conteúdos das crianças.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

Diversas postagens do Tempo de Creche sugerem instrumentos para planejar, registrar e refletir sobre propostas. Também falamos sobre aprendizagens nas postagens sobre os campos de experiências apontados na BNCC. Elaboramos inúmeras tabelas que organizam o desenvolvimento infantil a partir da neurociência e de Wallon. Na área destinada aos assinantes do blog Tempo de Creche é possível ler esse material e fazer o download para salvar e imprimir. Se você ainda não é assinante, é só clicar no ícone “cadastrar”, na home,  e preencher os campos indicados com nome e e-mail. É GRATIS!

 

Postado em Planejamentos e Atividades, Registros e Documentação | Tags , , , , , | Clique para deixar um comentário!

Livro didático para professores da educação infantil: por que tanta polêmica com o PNLD?

Estamos intrigadas. Porque os livros didáticos do MEC para a Educação Infantil estão causando tanta polêmica? Por que não estão sendo apresentados para que educadores de creches e pré-escolas emitam suas opiniões e escolham uma das obras selecionadas pelo MEC? O que está acontecendo? Vamos analisar essa questão.

Nas minhas andanças de formação, tenho encontrado posturas preocupantes frente ao PNLD da Educação Infantil. Diversos profissionais e secretarias municipais têm manifestado resistência para conhecer, avaliar, escolher e adotar os livros que foram selecionados por uma comissão de educadoras habilitadas e competentes.

Vamos esclarecer e pensar sobre o PNLD-Educação Infantil :

  • O que é PNLD?

É a sigla utilizada para oPrograma Nacional do Livro e do Material Didático. São livros didáticos, literários e materiais de apoio GRATUITOS, destinados aos professores e alunos de escolas públicas municipais, estaduais e federais e de instituições conveniadas, como grande parte das creches municipais. O programa existe desde 1937 e é a primeira vez que temos um edital exclusivamente voltado para PROFESSORES DA EDUCAÇÃO INFANTIL. Como os livros foram atrelados à BNCC, a resistência a ela tem gerado resistência aos livros.

  • Como são os livros do PNLD da Educação Infantil?

São obras escritas por autores respeitados, valorizados e seguidos pela comunidade de educadores da Educação Infantil. São livros conceituais, voltados EXCLUSIVAMENTE para a formação dos professores, coordenadores e diretores de creches e pré-escolas. Nosso livro em particular (Práticas comentadas para inspirar), COMENTA de inúmeras práticas, mas NÃO DITA MODELOS! Quem acompanha o Blog Tempo de Creche, sabe como pensamos a respeitos das práticas docentes voltadas para as crianças pequenas. Nas mais de 400 postagens não há uma prática sequer que deixe de valorizar o contexto das atividades, que não apresente os percursos do planejamento professor e que não exponha os registros reflexivos. Nosso livro para o PNLD não é diferente. As reflexões sobre práticas reais foram relacionadas aos Campos de Experiências, que não são exclusividade da Base brasileira e foram inspirados no currículo italiano, um dos mais adotados pelos países com os melhores padrões de educação do mundo.

  •  Como foram escolhidos os livros?

As quatro obras (duas para a faixa 0 a 3 anos e duas para a faixa 4 a 6 anos) foram selecionadas por profissionais gabaritadas e respeitadas no meio da Educação Infantil: Zilma de Morais Ramos de Oliveira, Beatriz Cardoso e Gisela Wajskop. Todas são pesquisadoras, autoras de livros consagrados e formadoras. Por isso, acredito que estas profissionais fizeram escolhas compatíveis com suas crenças pedagógicas, as quais acompanhamos e seguimos de perto.

  • E a BNCC? Há tantas controvérsias….

É verdade! A BNCC possui muitas lacunas e alguns pontos que precisam ser revistos. Mas as bases curriculares são assim!!!! NO MUNDO TODO!

Nos países escandinavos, por exemplo, elas são revistas a cada 3 anos. No Brasil, teremos a primeira revisão (pública!) daqui a 5 anos.

Educação é viva, caminha com o contexto do momento e do lugar. Não é possível conceber um currículo perfeitamente adequado a tudo e a todos, que atenda perenemente todo o país. É por isso que precisamos nos colocar nesse processo, agindo com responsabilidade! É necessário conhecer a BNCC, estudá-la, tentar colocá-la em prática, para depois criticá-la. Fazer críticas a partir da mão na massa! Não fazer a crítica pela crítica, formulando opiniões de “ouvir dizer”… Só assim conquistaremos aos poucos um documento de referência que dialoga de fato com a educação que acreditamos e queremos para nossas crianças.

  • O que acontecerá se os livros do PNLD Educação Infantil não forem adotados?

O mesmo que acontecerá com a BNCC! Ela nunca será NOSSA e nunca nos sentiremos incluídos.

Veja, o fato de termos um PNLD voltado para a Educação Infantil é uma grande conquista para esta etapa recente da educação básica: estamos sendo reconhecidos pelo MEC. O programa pretende investir na FORMAÇÃO DO PROFESSOR e está deixando de lado o “apostilamento” para crianças pequenas! Só esse fato já mereceria reconhecimento e apoio de todos os profissionais da Educação Infantil!

Se os livros não forem adotados e usados, corremos o risco de perder a chance de estudar, criticar e propor outros rumos para o programa que investe na formação dos professores.

Por isso, nós do Tempo de Creche, apesar de acreditarmos muito no nosso livro (modestas… rsrsrs!), pedimos atenção a todos os livros selecionados. Solicitamos que cada professor, coordenador, diretor, supervisor, formador e secretário de educação, pondere o processo como um todo e ESCOLHA os livros que achar mais apropriados ao seu contexto. NÃO DEIXEMOS QUE ESTA INICIATIVA ÚNICA, QUE ENVOLVEU PROFISSIONAIS QUALIFICADOS E PRODUZIU MATERIAIS INTERESSANTES, SE PERCA.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

CONHEÇA O LIVRO DO TEMPO DE CRECHE Práticas comentadas para inspirar: formação do professor de educação infantil. Clique aqui.

 

Postado em Coordenação e Gestão, Postura do Professor | Tags , , , , | 13 Comentários