Arquivo mensal: outubro 2018

Um guia para a jornada do relatório individual

A hora do relatório individual! Nessa época, escolas, professores e coordenadores se encontram numa temporada de muito trabalho. É o momento de colocar em teste os registros do professor e a seleção de materiais produzidos pelas crianças. Mais do que isso, é a hora de pensar sobre todas as reflexões realizadas no período. É o momento de compor uma narrativa que expresse a trajetória de cada criança, com suas singularidades e conquistas. É também a hora de dar a devolutiva para as famílias, estreitar as relações e chegar ao próximo semestre com uma parceria solidificada e comprometida.
Se você já fez e entregou seus relatórios, pode utilizar os roteiros que propomos nesta postagem para acompanhar suas observações e registros e facilitar o trabalho do final do próximo semestre.

  • Quais registros foram feitos?
  • Quais reflexões apontaram as jornadas de aprendizagem das crianças?
  • Quais questões quero responder por meio dos relatórios?
  • Quais foram os meus principais desafios no semestre e quais os desafios encarados pelas crianças?
  • Quais narrativas importantes tornam visíveis as aprendizagens?
  • Como traduzir as experiências em palavras? Dá para traduzir as emoções?

 

Organizamos dois quadros facilitadores com perguntas que podem orientar e encaminhar um roteiro para a elaboração do relatório individual reflexivo. Ao percorrer essa jornada, acreditamos que não somente os pais vão se beneficiar, mas você poderá encontrar inspirações para transformar em prática rotineira o encaminhamento dos interesses e aprendizagens das crianças.

Vamos partir dos Campos de Experiências, que incluem os diversos aspectos da vida das crianças na escola. Porém, é preciso ressaltar que o roteiro proposto não tem a intenção de avaliar as crianças e atribuir julgamentos. Propomos uma pesquisa sobre as aprendizagens e o desenvolvimento singular. Cada criança escolhe um caminho e um ritmo para crescer. Algumas brincaram mais no campo das relações, outras investiram na linguagem, outras experimentaram os fenômenos da natureza. Cada uma no seu caminho certamente aprendeu e floresceu. Apresentar esse percurso individual é a finalidade dos Quadros Facilitadores que elaboramos. Nem todos os campos de experiências terão o mesmo peso e, consequentemente observações, registros e reflexões por parte dos professores.

Os Campos de Experiências e o Desenho foram assuntos explorados em diversas postagens do Tempo de Creche. É interessante passear pelos conteúdos de cada aspecto do desenvolvimento das crianças para ajudar a fundamentar os relatórios:

Postado em Coordenação e Gestão, Registros e Documentação | Tags , , , , | 2 Comentários

Qual o lugar da modelagem no desenvolvimento das crianças?

São inúmeras as possibilidades expressivas oportunizadas para os pequenos no dia a dia da educação infantil, e as diferentes técnicas e linguagens artísticas não precisam ter limites entre uma e outra. Para a pesquisadora Rhoda Kellogg, a linha, por exemplo, está presente tanto no desenho das crianças quanto na modelagem. Nesse contexto, o repertório de atividades expressivas oferecidas nas escolas me inquieta: por que ficamos presos às propostas bidimensionais, como desenho e pintura? Trabalhamos suficientemente as representações tridimensionais com nossos pequenos? É importante que a criança modele? Quais benefícios a experiência com a modelagem provoca nos pequenos? Qual o lugar da modelagem na Educação Infantil?

Segundo estudos promovidos pela UNESCO, as habilidades espaciais estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento das habilidades de matemática e de ciências. Apoiada sobre estes resultados, a UNESCO afirma que o desenvolvimento da espacialidade na primeira infância é determinante para que a criança realize operações numéricas por volta dos 8 anos.

Ao desenho e à pintura, atividades frequentes da educação infantil,  associamos a ideia de instrumentos: riscadores e suportes. O ato de desenhar nos remete à memória sensorial do som do rabisco, à força empregada na mão, ao controle dos gestos, à visão das marcas: linhas e cores que surgem no plano “achatado” (bidimensional) dos suportes.

Já a modelagem é uma atividade que provoca e mobiliza o pensamento espacial.
Quando pensamos em modelar, pensamos em massas: massinha de modelar, massas caseiras, argila e até a terra e a areia molhadinha. Mas, diferentemente das lembranças do desenho, a modelagem provavelmente não nos deixou muitas memórias de infância. Talvez ainda lembremos das duras e coloridas massinhas de modelar da escola e aquele cheiro marcante que ficava na mão por dias!

A artista plástica Geórgia Kyriakakis diz que seus desenhos passam do plano virtual e bidimensional do papel dos projetos, para a realidade muldimensional do espaço, quando transforma a natureza dos objetos projetados em obras reais. Exemplificando o pensamento da artista, quando desenhamos uma bola no papel, a nossa relação com essa bola é virtual, porque ela parece ser um objeto só na nossa cabeça. Na verdade, o rabisco que representa a bola só tem duas dimensões, a altura e o comprimento das linhas desenhadas no papel. Contudo, ao modelar uma bolinha de massa, nossa ideia ganha realidade! Como a Geórgia ressalta, cria-se um “espaço intermediário” entre o que “parece ser”, dos desenhos, e o que é “de verdade”, produzido na modelagem.

Imagine o que se passa na cabeça dos pequenos ao lidar com essa possibilidade intermediária entre imaginação e realização. Modelar provoca componentes cognitivos, sensitivos e expressivos diferentes dos mobilizados pelo desenho.

Sabemos que as crianças precisam desenhar todos os dias (defendemos isso no Tempo de Creche) porque o desenho favorece muitas aprendizagens, e temos uma dúzia de postagens sobre essa questão. Mas modelar materiais como o barro e a argila, conduz os pequenos por outros caminhos tão interessantes, complexos e sensíveis que não podem ser esquecidos ou simplificados pelo uso das massinhas plásticas e das massas caseiras, que não favorecem grandes construções e não sustentam formas tridimensionais robustas e definidas. As arte-educadoras Denise Lemos e Maristani Zamperetti afirmam que, “diferente do desenho e da pintura, a modelagem nos proporciona a visão de todos os ângulos e lados da estrutura e ainda podemos perceber a sua textura”. Kellog, por sua vez, destaca que a arte desempenha um papel importante no desenvolvimento mental das crianças e, nesse sentido, as experiências artísticas vivenciadas com a modelagem fazem parte do conteúdo artístico que deve ser trabalhado com os pequenos.

O ato de modelar o barro existe desde os primórdios da humanidade. Civilizações muito antigas moldavam o barro e o transformavam em peças utilitárias, decorativas e rituais. Assim, a modelagem pode ser definida como o ato de moldar, ajustar a forma manualmente de materiais como o barro e a argila, e transforma-los em objetos tridimensionais. Até hoje essa prática ainda é bastante artesanal.

No estudo interessante e esclarecedor, Lemos e Zamperetti concluem que amassar e dar forma à terra são gestos primitivos que influem consideravelmente na coordenação de todos os movimentos. Quando trabalhamos o barro, criamos pequenos projetos que buscamos realizar. Nesse percurso, ocorrem desequilíbrios (a argila não para em pé, se quebra etc) que demandam ações de reorganização da massa, o que mobiliza nossa persistência em busca de soluções,  a confiança e o domínio corporal para concluir o projeto.  Sendo uma forma de expressão simbólica e lúdica , o ato de manipular o barro torna-se além de educativo, uma forma prazerosa de expressão, e a tridimensionalidade passa a representar um novo conhecimento adquirido pela criança.

Então, estamos falando aqui dos desafios da tridimensionalidade. Do domínio do material, do controle da força do corpo e das mãos, da coordenação motora fina, da visão do objeto a partir de diversos ângulos e da resolução de problemas complexos de engenharia e arquitetura. Falamos de perseverança, de não desistir na primeira dificuldade, de tentar, tentar de novo e aprender.

O que isso quer dizer?

Isso significa que , por exemplo, ao fazer um carrinho de argila, a criança precisa mobilizar o corpo e a cabeça, combinando o conhecimento do material com o planejamento de processos, a criação de estratégias, a sensibilidade estética e, como no desenho, as narrativas sobre o que está sendo produzido. Além de todos estes benefícios, a argila é robusta e aceita o trabalho conjunto de várias mãos. Conforme a criança se desenvolve, a cooperação em torno das brincadeiras com o barro é facilmente observável quando oportunizamos estas experiências.

A arte-educadora e professora Rosa Iavelberg acredita que a argila traz satisfação e tranquilidade para as crianças, porque a plasticidade do material permite que a obra seja destruída e reconstruída com facilidade. Por outro lado, apesar de ser um dos materiais plásticos preferidos das crianças, ele é também o menos utilizado nas escolas de educação infantil.

Assim como as crianças precisam aprender com a argila, os professores também necessitam colocar a mão na massa e se informar sobre o material para criar oportunidades de aprendizagem para os pequenos. Convidamos a arte-educadora, atelierista e professora de artes para crianças, Beatriz Nogueira, para compartilhar suas experiências da prática da modelagem com crianças pequenas. Não perca essa postagem!

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

UNESCO – OVERVIEW Measuring Early Learning Quality and Outcomes.

ARTIGO – Denise Castanha de Avila de Lemos e Maristani Polidori Zamperetti – Modelagem com argila para crianças: um estudo de caso

Geórgia Kyriakakis – artista, Mestre e Doutora em Artes. A artista inicia sua trajetória artística, no final da década de 80, com o desenho e a partir dele passa também a desenvolver esculturas, instalações, objetos, vídeos e fotografias. Sua produção é marcada pelo uso de diversos meios e pela experimentação dos limites de resistência, fragilidade, instabilidade e permanência das coisas.

Leia mais sobre desenho e modelagem nas postagens
Desenhar, desenhar, desenhar… Todos os dias!
Desenho: espelho do desenvolvimento infantil
Modelagem e desenho: conversas entre a bi e a tridimensionalidade 
O que o desenho nos conta
O registro das crianças pequenas é o desenho 
Palavra de… Edith Derdyk: o desenho do gesto e dos traços sensível

 

 

Postado em Desenvolvimento Infantil, Tempo, Espaço e Materiais | Tags , , , , , | Clique para deixar um comentário!