Arquivo mensal: dezembro 2018

Final de ano: oportunidade para as arrumações na sala e faxina nos brinquedos!

Ao aproximar-se o final de ano, o movimento é grande e são muitas as obrigações, arrumações e afazeres, tudo à beira de um período de festas e comemorações. Mas ainda temos um grupo de crianças que continua frequentando a escola. O que fazer de diferente com essa turminha?

Sentimos no ar uma mudança no espírito, esses meses de final e início do ano têm uma atmosfera diferente…
Nessa altura as crianças estão mais amadurecidas e integradas. Os maiores e os menores se conhecem e brincam juntos. Os espaços da escola são familiares e os materiais também. A autonomia está em pleno exercício. Porém, o papel do professor não entrou de férias. Ainda é preciso aproveitar o tempo com as crianças e criar ambientes de aprendizagem.

Que tal propor uma nova organização do espaço e a redistribuição dos materiais!

Para unir o útil ao agradável, pense em transformar a organização dos materiais em brincadeira! E quanto aos brinquedos velhos, incompletos e quebrados, será que eles podem ser reaproveitados?

Aqui vai uma sugestão que pode ajudar o professor a encontrar um caminho interessante para os poucos dias que restam no ano…

Levantamento, separação e organização

Junte todos aqueles brinquedos e partes de brinquedos que não vão ocupar as prateleiras de destaque no próximo ano. Você pode solicitar os descartes de outras turmas e até mesmo os da cozinha (cuidando para não incluir vidros, facas e outros itens perigosos).

Prepare caixas de papelão de diferentes tamanhos, arrumando-as nos cantos da sala.

A dica é colocar todo o material que será rejeitado sobre um tapete, tecido, lona plástica ou folha grande de papel e convidar a turma para separar e guardar nas caixas.

Para os pequeninos, entre 18 e 24 meses, tudo vale. Ainda é complicado fazer seleção e classificação. Porém, se o grupo já começar a nomear cores, compreender as relações entre objetos como carrinhos, bonecas, copinhos e pratinhos, é possível lançar o desafio de guardar os materiais de acordo com algumas classificações.

A partir dos 24/36 meses, já é possível levantar com o próprio grupo os critérios para organizar o material nas caixas. Você pode começar a proposta sentando em roda, em volta da pilha de objetos, e aquecer a turma: olhem o que temos no meio da roda!

Depois prossiga com perguntas que desafiam a memória e as narrativas:

O que vocês veem ai?
Alguém já brincou com esses objetos?
O que fizeram?
Qual gostam mais?

Faça a mediação da conversa, procurando dar voz a todos que queiram se manifestar e ajudando a organizar as frases e os pensamentos.

Se a conversa se esgotar (ou se não surgir outra proposta de brincadeira, contação de história a partir dos objetos etc., etc., etc.), pergunte como seria possível arrumar todos os objetos nas caixas vazias que estão na sala. Dê tempo para que pensem. Refazer a pergunta de outra maneira ou usando outras palavras pode ajudar. Se ainda não houver contribuição, sugira:

E se usarmos uma caixa para guardar coisas de bonecas, quais objetos podemos colocar nessa caixa? (e coisas de carrinho? E peças de quebra-cabeça? E coisas de cozinha? E bichos?…)

Defina com os pequenos e comecem a organizar. Você pode colar com fita adesiva um exemplo de cada critério combinado na lateral das caixas para facilitar a identificação.

Em cada caixa, um novo universo de brincadeiras

Cada conjunto de restos de brinquedos e outros objetos certamente se transformará em novas brincadeiras. Novas combinações entre os materiais inspiram outros desafios. Ao unir isso com aquilo, é possível provocar novas criações e faz de conta. Sugerimos aprofundar a pesquisa em cada uma das caixas organizadas separadamente, acrescentando novos materiais para ampliar as investigações.

Animais

Por exemplo, se houver uma caixa com bichos de brinquedo, uma boa sugestão é fornecer materiais para que as crianças construam pequenos ambientes naturais em suas brincadeiras.

Para os bichos terrestres, faça cantos com bandejas plásticas ou de isopor, caixas baixas ou pedaços de cartolina. Passeie com a turma para coletar terra, areia, gravetos, folhas e pedras. Organize o ambiente separando as bandejas, as plantas, gravetos, pedras, areia, terra e os animais de brinquedo.

Então, não se esqueça de pegar o gancho nos interesses para fazer perguntas desafiadoras:

O que você quer fazer? Como pensa em fazer? Quem pode ajudar? Vamos descobrir juntos?

Para os bichos aquáticos, aproveite o calor e o pátio. Organize bandejas plásticas e bacias, pedras, areia, baldes de água e recipientes para as crianças transportarem a água para os seus pequenos ambientes.

Barquinhos podem inspirar novas brincadeiras. Os de papel também servem!

Temos pinguins, baleias e ursos? Que tal acrescentar pedras de gelo ao faz de conta? Você pode fazer gelo de diversos formatos, tamanhos e cores, congelando a água em potes de iogurte, margarina etc.

→ Carrinhos, caminhões e outros meios de transporte

Para explorar esses brinquedos, os circuitos são uma boa opção. Tiras de papel, papelão e cartolina podem fazer as vezes de ruas. Caixinhas podem se transformar em construções da cidade e até em montanhas. Pequenos pedaços de taboa ou papelão rígido podem ser pontes e viadutos. Deixe que as crianças pesquisem e descubram. Faça perguntas ajudando-as a criar e solucionar os problemas que encontram no seu fazer.

→ Panelinhas e coisas de cozinha

Um pouco de arroz, feijão, outras sementes e até pedras de vários tamanhos podem fazer as vezes da comida. Argila, terra, areia e água são quitutes para os pequenos cozinheiros. Prepare o ambiente e deixe a brincadeira correr!

Instigue preparações para ocasiões especiais: aniversários, festas dos brinquedos preferidos, pratos da tradição local como vatapá, pato no tucupi, pizza…

 

→ Construções inusitadas

Peças de jogos de montar e quebra-cabeças, partes de carrinhos e bonecas, pedaços de lápis, potinhos… podem ser ressignificados e se transformarem em materiais para construir. Com cola e fita adesiva desafie a turma a fazer montagens e construções. Você pode organizar pedaços de cartolina, papel cartão ou caixas para servirem como suporte.

 

Separação e organização dos materiais para o próximo ano

E o que fazer com os materiais em bom estado?…
…Sabe o que fazer naquele dia super quente?

Separe todos os brinquedos que podem ser lavados. Organize bacias e escovinhas para que as crianças limpem os materiais antes das férias. Se quiser, pode introduzir detergente, sabão de coco ou sabonete líquido – lembrando que a espuma e as bolhas também dão pano para a manga!

Arrume um lugar para que os objetos lavados sequem. Separe caixas de papelão para separar, classificar e guardar.

Se a brincadeira der certo você pode organizar um outro dia para lavar os materiais de pintura, como pinceis, potinhos e caixas plásticas. Prepare-se para água e espuma colorida!

Experimente o trabalho de limpeza e organização com os pequenos. São muitas possibilidades de brincadeira, pesquisa, cuidado e conquista de autonomia.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

Leia mais em:

Postado em Listagem de postagens por temas | Tags , , , , , , , | Clique para deixar um comentário!

Que tal incluir as manifestações culturais no calendário de 2019?

Escola é lugar de aprendizagem. E só aprendemos o que é significativo. As manifestações culturais são significativas?

Este pensamento pode parecer obvio, mas ele atravessa todas as ações pedagógicas, inclusive o que se comemora na escola. Parte fundamental do planejamento anual é o calendário das ações comemorativas. Reunimos trechos de postagens já publicadas sobre as manifestações culturais, falas provocativas de especialistas parceiras do Tempo de Creche e também um pedacinho do nosso livro Práticas comentadas para inspirar para propor uma reflexão coletiva sobre o tema.

Para começar a pensar…

Quais são as tradições da escola? Quais são as tradições da comunidade escolar (famílias e moradores do entorno)? O que celebrar para valorizar as raízes dessa comunidade e construir pertencimento? Que manifestações culturais abordar?

Quais celebrações e eventos são significativas para as crianças e ampliam o repertório cultural?

Quais manifestações culturais, celebrações e eventos trazem as famílias para mais perto da escola?

As datas comemorativas são tratadas como possibilidade de aprendizados ou se resumem em uma produção decorativa?

A pedagoga e especialista em Educação, Tânia Fukelmann Landau ressalta a importância das manifestações culturais na formação da criança. Antes mesmo do bebê nascer, ele já está imerso em uma cultura.

Da postagem da Tania, destacamos…

“Algumas mães cultivam a prática de acariciar a barriga, outras conversam com seus filhos e cantam para eles ainda escondidinhos no seu ventre músicas de sua infância. Este pode ser o início do sentimento de pertencimento a uma cultura.

Quando a criança inicia sua vida escolar nas creches, transcende o universo familiar e começa a ter contato com a diversidade de culturas presente no conjunto de tradições das crianças que compõem o grupo.

Por que isso acontece?

Ao entrar na escola, a criança vem com o “pacote inteiro” – traz consigo uma história, uma família e um modo peculiar de ser, viver e se relacionar que vem ancorado na sua experiência pessoal e doméstica, pois cada indivíduo e cada família é de um jeito, tem seus hábitos, tradições e costumes.

Neste período de planejamento anual, os diversos “pacotes inteiros” do próximo ano necessitam ser considerados e respeitados. É o momento para refletirmos sobre quais manifestações culturais vamos trabalhar e como vamos trabalha-las.

A pedagoga e professora de educação infantil, Ana Helena Rizzi Cintra, disse que numa das creches da Universidade de São Paulo – USP, onde trabalhou, não se comemoravam datas com temas como dia das mães, dia dos pais, dia da árvore, dia do professor ou dia do índio.

Na voz da Ana Helena…

“A gente (equipe da creche) pensa que são comemorações que podem não pertencer aos contextos das experiências das crianças, e essa não é a nossa proposta. Isto porque se tratam de temas escolhidos pelos adultos fora do diálogo efetivo com as crianças”.

 

Ana relata que muitos destes temas fazem parte de projetos, como os que abordam diversidade cultural. Outros temas trabalhados abordaram a questão de onde vem os bebês e outros tiveram como eixo as questões ambientais contemporâneas. Sendo assim, informações sobre comunidades indígenas, mães, pais ou árvores foram trazidas num contexto significativo para as crianças, uma vez que o constante diálogo com elas revelou o interesse por esses assuntos, muito diferente de trabalhar datas comemorativas como um currículo a priori.

Reflexões do nosso livro… (Práticas comentadas para inspirar: formação de professores da educação infantil – Editora do Brasil – MEC PNLD 2019)

Deise Miranda Barbosa, pedagoga e professora de educação infantil, conta que ao levar para uma turma as danças do Cacuriá, manifestação cultural maranhense, percebeu que ela funcionava com as crianças. A atividade se tornou uma brincadeira de corpo que atravessava a cultura popular.

A professora acrescenta que a proposta tinha os mesmos resultados com o Bumba meu boi e com o Maracatu, porque estas manifestações culturais têm um lugar no faz de conta, universo próximo ao da criança, com vestimentas específicas, personagens, falas de bichos, roda…, elementos típicos das brincadeiras das crianças.

Por que isto acontece?

Denise explica que esses folguedos inspiram as crianças a se “transformarem” nos personagens. Quando um brincante do Cacuriá está brincando com a música do caranguejinho, e faz o gesto de tirar o caranguejo do pé do colega, ele está de fato tirando o caranguejo na sua imaginação.

Ao trabalhar com as culturas populares os educadores trazem três aspectos importantes para as crianças:

  • ao dialogar com a faixa etária do grupo, a manifestação contextualizada deixa de ser apenas uma atividade;
  • as improvisações criadas pelas crianças são bem vindas e dialogam com a liberdade da arte contemporânea;
  • o resgate das brincadeiras tradicionais de infância.

Para que tudo isso ocorra, é preciso promover as manifestações despertando nas crianças o interesse e a vontade de conhecer… por elas próprias: pesquisando em conjunto, conversando com familiares e outros profissionais que talvez conheçam a cultura e fugindo das “explicações” e discursos desconectados do que é significativo.

A Bernúncia, o Bumba meu boi, o Jacaré boiô e outras manifestações culturais que trazem animais como personagens, despertam encantamento nas crianças de 0 a 3 anos e frequentemente são incorporadas ao faz de conta.

Uma professora de berçário (4 a 12 meses), movida pelo desejo de compartilhar nossa cultura, se tornou parceira da turma e mergulhou na brincadeira popular trazendo o Boitatá.

No começo foi preciso construir o boitatá no imaginário das crianças.

Como a professora fez isso?

Escolheu tecidos com os quais confeccionaria a grande cobra e os deixou disponíveis para que as crianças brincassem livremente. Os tecidos acompanharam o grupo nas histórias, nas brincadeiras de esconder e de vestir. A interação com os materiais preparou as crianças para transformação na cobra gigante!

Cobrindo uma peneira grande com um tecido e colando dois olhos, a professora a  fez a cabeça. Depois, levou a parte do personagem para sala e convidou as crianças a olharem para o objeto. Circulou pelo espaço cantando a já conhecida cantiga que embalou e acompanhou as brincadeiras do Boitatá.

Ao observar os olhos e as mãozinhas das crianças, ávidas por tocar na cabeça do animal, a professora cobriu o objeto com um tecido e completou a confecção da grande cobra brasileira.

A delicadeza do ato fez com que as crianças, ao contrário de sentirem medo, se encantassem e se aproximassem daquele elemento enorme. Narrando a história, grudando aqui e ali, ela permitiu que os pequenos vivenciassem a transformação do tecido em Boitatá. Dali a brincar de “engolir” os bebês foi um pulo!

Qual o resultado dessa estratégia?

Todos queriam entrar no Boitatá e, mesmo compreendendo que a música dizia que a cobra engole quem sorri, os bebês pulavam e batiam palmas excitados, porque achavam que a diversão estava em ser engolidos e ficar junto com o grupo debaixo do tecido.

O Boitatá foi a escolha feita pela professora que nos relatou esta interessante experiência, mas nosso país é rico em folguedos e brinquedos culturais, como os mamulengos, o cavalo marinho, o siriá e seus passos de siri e o conhecido bumba meu boi, com suas diferentes celebrações.

Nossas manifestações culturais compõem um repertório grande, diverso e dialógico com a infância. São enredos que instigam a imaginação. Aproveite para pesquisar e levantar com a equipe pedagógico novas possibilidades para trabalhar as manifestações e celebrar nossas riquezas culturais

Tânia Fukelmann Landau fala da importância das manifestações culturais na formação da criança
Ana Helena fala sobre datas comemorativas na creche
Como trabalhar as manifestações culturais brasileiras com os pequenos?

Tânia Fukelmann Landau – fundadora e diretora da CONVERSO_ Assessoria Pedagógica. Pedagoga pela PUC-SP e Especialista em Educação Lúdica pelo ISEVEC. Colaboradora em projetos e publicação da Fundação ABRINQ. Membro da diretoria da Casa do Povo (instituição cultural). Atualmente se dedica integralmente à formação continuada de educadores e aos estudos sobre a infância.

Ana Helena Rizzi Cintra – pedagoga e professora de Filosofia , especialista em Dança e Consciência Corporal. Atua como professora da Creche Oeste da Universidade de São Paulo e professora de Filosofia para o ensino médio.

Deise Miranda Barbosa – pedagoga, professora de educação corporal no litoral paulista e foi professora da educação infantil da Escola Vera Cruz.

Postado em Manifestações Culturais, Palavra de... especialista | Tags , , , , , , | Clique para deixar um comentário!