Arquivo mensal: março 2019

Roda de conversa prazerosa: isso existe na educação infantil?

Será que crianças pequenas gostam de participar da roda de conversa? E os professores?
É comum encontrar momentos destinados às de rodas de conversa na grade de planejamento da educação infantil. Coordenadores e professores concordam que é fundamental estabelecer uma rotina de encontros para praticar o diálogo.

E eles têm razão!

O problema é que tornar a roda de conversa parte da rotina não necessariamente a transforma num recurso de aprendizagem.

Sentar-se em roda é participar de uma situação propícia ao diálogo.

Mas o que é dialogar?

A palavra DIÁLOGO tem origem no idioma grego, na junção do elemento dia,que quer dizer ‘por meio de’, e do elemento logos, que significa ‘palavra’. Assim, o significado original da palavra diálogo é o uso da palavra como meio ou recurso. Então, nas nossas rodas de conversa, como fazemos o uso da palavra?

Ocorre que, sem um propósito, o diálogo perde o sentido. É bom lembrar que as conversas dos adultos têm propósitos específicos: trabalho, inteirar-se do dia a dia da família e até ouvir e dizer bobagens divertidas entre amigos.

Por isso, ao organizar uma roda de conversa, o professor precisa pensar no sentido que dará a ela: vamos dialogar sobre o quê?

Percebemos que alguns educadores preparam conteúdos como avisos, observações sobre o comportamento e instruções, contudo não percebem que estes temas nem precisam de diálogo, porque os monólogos – quando uma só pessoa fala – dão conta de informar as crianças. Outro tema bastante comum é conversar sobre o final de semana. Esta estratégia começa a ficar interessante quando as crianças são maiores, e já conseguem organizar o discurso. Porém, conversar sempre sobre isso enjoa qualquer um!

Ou seja, alguns professores acabam planejando uma conversa que não prevê a interação do grupo com o tema e a consequente participação.

Sendo assim, como organizar momentos de conversa com crianças pequenas? Como mantê-las envolvidas e empenhadas no diálogo, ouvindo o outro e se colocando?

Complicado, não?

De fato! As crianças muito pequenas têm dificuldade para se expressar por meio de palavras e se dispersam rapidamente. E os maiores são muito corporais e elétricos e se desinteressam das conversas.

É tudo verdade! Porém, nestas observações comumente colocadas por educadores é que moram as respostas para o desafio de trabalhar a roda de conversa com as crianças.

1- Antes de tudo é preciso pensar no sentido que vamos atribuir ao tema escolhido para fomentar o diálogo. O que vamos propor TEM QUE SER significativo e interessante para as crianças!

2- Já que este é um comportamento aprendido aos poucos pelos pequenos, temos que compreender que permanecer em roda de conversa não é fácil para eles. O  universo interior da criança quer se alimentar constantemente do mundo que a cerca, logo, não podemos deixar a concorrência nos ganhar! Então cabe pensar em escolher ambientes que favoreçam o foco do grupo, temas instigantes e até recursos como imagens e objetos.

 

3- No caso da criança muito pequena e “pouco verbal”, precisamos construir um diálogo com o seu discurso interior. Vigotski afirmava que o discurso interior é uma linguagem desenvolvida e mais completa do que a fala. O que nos leva à pergunta: o que dialoga com o discurso interior dos pequenos e provoca a expressividade? O uso de objetos interessantes, imagens, gestos, sons e outros recursos podem atrair os pequenos e cativá-los ao ponto de permanecerem atentos ao “diálogo” construído pelo professor.
Mas é fundamental lembrar que os “diálogos” ainda são curtos, individualizados e que não é necessário estender a duração da roda por muito tempo.

4- Em relação aos mais velhos, a roda começa a contar com um fluxo maior de palavras e habilidades para organizar o discurso. Mas ainda assim, o tema precisa despertar interesse. É nesse aspecto que a atividade da roda casa como uma luva com os projetos que envolvem as crianças! Discutir o objeto da investigação, os resultados das descobertas e o aprofundamento das pesquisas é  muito provocador. As crianças apreciam a conversa porque se sentem afetadas por ela e, especialmente, porque têm oportunidade de serem ouvidas.

5-  Vigotski novamente contribui com mais uma orientação: a fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um objetivo. As crianças não ficam simplesmente falando o que elas estão fazendo; sua fala e ação fazem parte de uma mesma função psicológica complexa, dirigida para a solução do problema em questão (2003, p. 34). Desse modo, ao constituir uma roda, não adianta esperar que as crianças se sentem contidas e “comportadas”. Segundo o autor, elas precisam do corpo para pensar e se expressar.  Aos poucos, conforme se desenvolvem, a quietude do corpo em função do interesse e da participação na conversa vão ganhando espaço… mas isso é conversa para o ensino fundamental!

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PARA SABER MAIS…

L. S. Vigotski –  A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Martins Fontes, 2003.

Leia mais sobre roda de conversa na postagem Roda de conversa: ancestral e primordial

 

 

 

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Três ideias criativas para trabalhar com bebês

Quem não arrisca, não petisca!
Nesta postagem falamos de pequenas conquistas de professoras que arriscaram testar e aperfeiçoar a prática pedagógica: uma invenção para facilitar o uso da mamadeira, uma tinta de farinha que se parece com guache e o uso do giz de cera na pintura.

Uma professora do berçário do CEI Vila Anglo (SP) inventou um modo de identificar rapidamente as mamadeiras, sem desperdiçar material. Adriana O. C. Floriano criou uma faixa com o nome da criança, feita com elástico chato (aquele utilizado para fazer cós), reutilizável, para envolver as mamadeiras dos bebês. Compartilhou com suas colegas e testaram a ideia. Hoje, a equipe utiliza uma mamadeira por dia por bebê e não precisa refazer as etiquetas diariamente porque, no final do dia, é só retirar as faixas e guardá-las para o dia seguinte.

Com crianças que demandam cuidado e atenção constante, os professores precisam lançar mão de recursos criativos e práticos para que sobre mais tempo para interagir, brincar e observar as conquistas e demandas dos bebês.

Já as professoras Naelza P. A. Marioti e Adriana Cruz, do CEI Aníbal Difrancia (SP), fizeram uma tinta consistente de farinha para a turma de um ano. O truque foi usar farinha, pouca água, bons corantes alimentícios e algumas gotas de vinagre para conservar. O material ficou parecido com um mingau, muito bom para pintar, ser manuseado pelas crianças e não derramar facilmente dos potinhos – mesmo quando as crianças esbarram nos recipientes. Na hora da limpeza, a mistura ainda se mostra fácil de lavar.

Finalmente, as professoras Juliana Rosalia e Rosângela P. Angeli, do CEI Mundo Feliz (SP), testaram uma novidade que ampliou as possibilidades de experimentação artística dos pequenos de 1 ano. No lugar de propor uma pintura com pincel, as professoras disponibilizaram gizão de cera e tinta guache. O que aconteceu? Já acostumadas a pintar com pincel, as crianças molhavam a ponta do giz no potinho de tinta e passavam no suporte de papel kraft. A tinta formava um pequeno rastro que, em seguida se transformava num rabisco! Interessante ver os pequenos mudarem a pressão e o modo de marcar o suporte.

O que fica das três experiências? Justamente o valor de experimentar… sem medo de se frustrar. Defendemos que as crianças façam investigações e testem suas hipóteses porque é no percurso que se aprende. Mas percebemos que alguns professores não seguem esta prática com receio de enfrentar resultados frustrantes. É ao planejar, arriscar, refletir e avaliar, que a prática pedagógica se enriquece.

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre bebês nas postagens:

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