Museu é lugar de criança pequena?

imagem Museu da Vida

Museóloga do Museu da Vida de Curitiba Ariane Azambuja participou do I Seminário Bebês no Museu, realizado pelo Museu Lasar Segall e pela Casa das Rosas em agosto de 2014, em São Paulo. Ela transcreveu o conteúdo da interessante conferência de abertura, Museu e criança pequena – relação possível e desejada, ministrada por Maria Isabel Leite*.

A conferência nos orienta para buscar exposições mais apropriadas e provocativas para os pequenos e pode trazer contribuições para pensarmos os locais de exposição dos trabalhos das crianças na própria creche.

O título da conferência traz a afirmação de que, sim, é possível museus e crianças pequenas estabeleceram uma relação e que, para além disso, se trata esta de uma relação desejada. Mas desejada por quem?

Maria Isabel afirma que se trata de uma aproximação que só é possível devido aos novos modelos de museus, surgidos no século XX, os quais entendem que o conceito central que deve permear suas atividades é o da experiência. Trata-se de museus que proporcionam um aprendizado com os objetos, e não sobre eles.

É o caso de instituições como o Museum of Childhood, de Londres, o qual se preocupa em oferecer uma arquitetura diferenciada, com ambientes pouco usais para museus, tal como ter uma caixa de areia no meio de uma exposição. Ao incluir espaços para as crianças dentro das exposições, e não em locais a parte, o que as segregaria, este museu estimula o encontro de gerações, proporcionando espaços para pais e filhos compartilharem experiências.

Para Maria Isabel, se queremos que o museu seja um local de transformações contínuas, dinâmico, nada é mais apropriado a ele do que os bebês, porque não há idade em que se apresentem tantas mudanças em tão pouco tempo.

Quando um museu se propõe a ser interessante para crianças, ele deve se perguntar:

  • que espaço estou dando para a imaginação?

A dose certa de cada um desses fatores torna possível que se viva uma experiência e não um sufocamento de conteúdos. As experiências museais devem mexer com os cinco sentidos, e para se chegar a um modelo que contemple isso, podemos nos perguntar: como éramos e o que sentíamos quando éramos pequenos? Como podemos surpreender e encantar a criança que já veio outras vezes ao museu?

O tempo é uma questão de fundamental importância no trabalho com crianças. É preciso lembrar que o tempo delas é outro, diverso do adulto.

Infelizmente, na escola, as crianças começam e terminam as propostas de acordo com o tempo estipulado pelos adultos; mas no museu não podemos repetir este modelo. É preciso que cognição e afetividade estejam conectados, o que garantirá a construção de sentido sobre os conhecimentos apresentados. Não é atoa que os pés direitos dos museus são altos… estão ali para estimular o devaneio…

A inclusão das crianças como uma preocupação dos museus passa também, sem dúvida, por uma ressignificação do conceito de infância, admitindo que existem diferentes infâncias e que as crianças são cidadãs de pouca idade, não um “vir-a-ser”, “o adulto do futuro”. O acolhimento destas crianças poderá dar a elas, no futuro, o direito de escolher se quererão ou não visitar museus. Hoje, a maioria da população ignora que possa usufruir desses espaços de cultura.

Sabemos que o adulto é, fundamentalmente, um mediador da relação criança/cultura. Mas é possível um mediador que não costuma visitar museus proporcionar prazer às visitas que media?O adulto deve ser capaz de favorecer descobertas, o que não é sinônimo de ensinar conteúdos.

Alguns fatores podem fazer do espaço museal acolhedor para crianças pequenas:

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  • Altura das obras
  • Não exigir silêncio absoluto
  • Possuir banheiros adequados
  • Controlar os “não pode”
  • Não expor objetos em excesso
  • Ter muitos adultos disponíveis para carregar os menores no colo para terem visão
  • Buscar temas e imagens que possam estabelecer diálogo com as crianças e proporcionem associação de ideias
  • Objetos expostos que possam ser tocados ou réplicas
  • Uso de cenografia, que favorece a narrativa

Muitas vezes também se descobre que o jardim do museu possui muito potencial, já que há muita sinergia entre crianças e esculturas, as quais proporcionam exploração tátil. Todas estas são propostas que podem ser realizadas em museus para adultos e crianças, e o que queremos é um encontro de gerações.

Balão Para Saber MaisPara conhecer mais sobre crianças em museu, leia:
 Livro Museu, Educação e Cultura: Encontro de Crianças e Professores com a Arte
Primeiro dia na creche: um olhar novo de tudo
 

barrinha colorida fininha

A palestra Museu e criança pequena – relação possível e desejada, ministrada por Maria Isabel Leite foi realizada em 6 de agosto de 2014 no I SEMINÁRIO BEBES NO MUSEU: EXPERIÊNCIAS, uma realização da Ação Educativos do Museu Lasar Segall e Casa das Rosas, São Paulo.

* Maria Isabel Leite, Doutora em Educação, com Pós-Doutorado na área de Educação em Museus

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