Categoria: Linguagens Expressivas

Barro e argila: lugar de honra nas culturas da infância

Publicamos a postagem Qual o lugar da modelagem no desenvolvimento das crianças? para começar uma conversa sobre a modelagem na educação infantil. Agora convidamos a artista-educadora Beatriz Nogueira (Bia) para mexer num ponto importante dessa questão: qual a nossa relação com o barro? Costumamos experimentar trabalhar esse material? Brincar com ele? Sentir de todas as suas características? … tudo isso para poder apresentá-lo para as crianças! Bia explica os percursos de um trabalho formativo desenvolvido com professores e as dicas para colocar a argila no lugar de honra na rotina da educação infantil.

Na voz da Bia…

Que tal recorremos às memórias pessoais das brincadeiras com o barro? Se abrirmos nossas bagagens, encontraremos lembranças das experiências que vivemos, seja debaixo de uma forte chuva, onde deixamos as marcas dos pés num lamaçal, seja pisando no fundo fofo e barrento de um rio ou mesmo da beira mar. Brincadeiras de fazer buracos, muros, castelos, riscando com gravetos ou simplesmente afundar os dedos dos pés sem mais nem porque.

Tal como a areia, o barro é presença fundamental nas culturas da infância e podem ser inúmeras as maneiras para aproximar barro e argila do cotidiano das crianças na escola.

Participei de um encontro de formação para educadoras e educadores da educação infantil a convite da equipe do Tempo de Creche e decidimos dedicar uma postagem para compartilhar as ricas experiências que vivenciamos naquele dia. Espero com essa partilha fomentar ideias que provoquem novas inspirações.

BARRO E ARGILA: IGUAL OU DIFERENTE?  

O barro passa por um tratamento para se tornar argila e está presente na nossa história desde as culturas ancestrais, tanto na produção de utilitários quanto nas manifestações artísticas. Hoje é possível encontrar inúmeros artistas e artesãos que dedicam suas vidas à prática da modelagem.

A ARTE INSPIRA OS GESTOS DA MODELAGEM

Desta vez, a artista ítalo-brasileira Anna Maria Maiolino foi a grande inspiração para o encontro!  Ao observar algumas imagens de suas obras, percebemos que a produção da artista envolve, em grande parte, a manipulação da argila por meio da repetição de gestos elementares, próprios ao ato de modelar. A artista produz uma série de elementos, tais como variações de bolinhas, cobrinhas e plaquinhas, para então colocá-los lado e lado e organizá-los compondo diferentes instalações*.

                  Obra: estão na mesa. Anna Maria Maiolino, 2017
fonte:https://www.artinamericamagazine.com/reviews/anna-maria-maiolino/

Impulsionado pelas obras de Maiolino, o grupo de professores experimentou a modelagem na prática e discutiu sobre possíveis maneiras de introduzir o trabalho com argila para as crianças.

ATIVIDADES DE MODELAGEM: QUAL É A INTENÇÃO?

Toda proposta pode ser interessante para as crianças e, para isso é importante estabelecer uma intenção. A definição do foco da proposta envolve pensar no que queremos que a criança desenvolva e vivencie. Por exemplo: desenvolver a coordenação motora fina; experimentar forças e pesos; figurar bichos e seres etc..

AÇÕES DE MODELAR E AS EXPERIÊNCIAS DAS CRIANÇAS

Quais ações o professor pode esperar que as crianças façam com a argila?
Por exemplo: enrolar, amassar, apertar, dedilhar, furar, espalmar, socar, torcer, marcar, pisar, levantar, pendurar etc..

ARGILA: FORMATOS E QUANTIDADES

Que formato e quantidade de argila melhor se adequa à intenção pedagógica da proposta? Diversos fatores estão implicados no modo como apresentamos a argila para a turma. Por exemplo, ao oferecer um bloco grande do material sem disponibilizar mesas e cadeiras, pode-se favorecer um trabalho de força e peso, que promove uma relação direta da massa com o corpo todo da criança. Ao oferecer pedaços já modelados e pré-formatados (como bolas, pequenos cubos, placas e tiras), pode-se instigar um trabalho de montagem das partes. Organizando uma atividade com pedaços de argila e água, pode-se estimular uma experimentação mais barrenta, um processo de dissolução da argila.

ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO

Como a criança vai visualizar a argila logo no início da proposta?
Como o espaço está preparado?
A criança participa da organização?
Mesmo nas atividades em que são disponibilizados pedaços de argila semelhantes, é dada a oportunidade da criança escolher com qual pedaço quer trabalhar?
Há variação na apresentação: um dia a argila é colocada sobre a mesa, no outro, sobre o piso, em outro momento, na área externa?
O trabalho acontece com as crianças de pé ou sentadas?
Elas podem escolher como irão se acomodar para trabalhar a massa?

COMBINAÇÃO ENTRE MATERIAIS

Considere propor também trabalhos que relacionam a argila com outros materiais:

  • Naturais: gravetos, pedras, folhas, sementes
  • Não-estruturados: esponjas, borrachas, fios, tecidos
  • Estruturados: conduites, canos de PVC, cilindros de papelão, varetas, arame.

 

DICAS ÚTEIS

  • Qualidade da argila – Compre a argila de bons fornecedores. As argilas ditas “escolares” em geral são caras e não tem boa qualidade. Procure na internet por fornecedores de argila para modelagem, cerâmica etc. Existem argilas de várias cores e texturas.
  • Teste da argila antes de organizar a atividade – se o material estiver mais duro e ressecado, é possível adicionar um pouquinho de água e trabalhar a argila até que ela volte a ficar úmida e moldável.
  • Uso de água – controle bem o uso da água. Caso a proposta não envolva a dissolução da argila, procure usar o mínimo ou até mesmo não usá-la, exceto se o material já estiver um pouco endurecido.
  • Corte – o barbante ou o fio de nylon são excelentes cortadores (as crianças adoram experimentar!)
  • Barbotina – a barbotina é uma mistura de água com argila que se faz para modelar com moldes e também para usar como “cola”. Mistura-se um pouco de argila com água até conseguir a consistência de pasta dental. Sugere-se mantê-la num recipiente fechado para conservá-la por mais tempo. Aos poucos as crianças vão aprendendo a usar a “cola” de argila, passando-a com pincel nas peças que desejam unir.
  • Cuidados com a conservação – é imprescindível que a argila seja mantida em sacos plásticos grossos impedindo o contato com o ar. Deve ser estocada à sombra. Se bem conservada, pode durar por um longo tempo. As peças realizadas pelas crianças que não passarem pelo processo de secagem, podem ser reunidas, amassadas num novo bloco e conservadas conforme descrito acima, para serem reutilizadas outras vezes.

Vale sempre lembrar que a modelagem não acontece em uma única proposta. Assim como outros saberes, ela está inserida num processo de aprendizagem que ocorre ao longo das variadas etapas e que conta sempre com muita experimentação e brincadeira!

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PARA SABER MAIS…

→ * Instalação é uma manifestação artística contemporânea composta por elementos organizados em um ambiente. Ela pode ter um caráter efêmero (só “existir” na hora da exposição) ou pode ser desmontada e recriada em outro local (Wikipédia).

Beatriz Nogueira é artista-educadora, formada em Artes Plásticas. Mestranda em artes visuais É formadora de educadores e professora de artes na Escola Alef Peretz, atelieristada Escola Primeira e colaboradora do Núcleo Traços Trecos e Trocas.

As referências sobre a artista Anna Maria Maiolino estão no livro de Helena Tatay (org) – Anna Maria Maiolino. São Paulo, Cosac Naify, 2012. E nos sites:

http://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa9539/anna-maria-maiolino
https://annamariamaiolino.com/

Leia mais sobre modelagem e tridimensionalidade na educação infantil nas postagens:
Qual o lugar da modelagem no desenvolvimento das crianças?
Modelagem e desenho: conversas entre a bi e a tridimensionalidade 

Bia comandou um dia de formação dos educadores dos CEIs Aníbal Difrancia, Nossa Turma e Santa Marina, em São Paulo, como parte de um projeto de formação em arte e cultura, apoiado pelo IMPAES – Instituto Minidi Pedroso de Arte e Educação Social, e desenvolvido pela equipe Tempo de Creche (Joyce M. Rosset e Angela Rizzi).

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Mandalas para inspirar as férias

O universo é composto por formas.
As crianças são sensíveis a essas formas e ficam intrigadas com a regularidade das margaridas, com as nervuras das folhas e com a imprevisibilidade das pedras encontradas pelo caminho. Algumas são harmoniosas e pertencem à cultura de diversos povos. As mandalas são um exemplo da manifestação de um universo estético que atravessa a história da humanidade. Mandalas são composições quase instintivas, construídas com naturalidade pelas crianças.

mandala elementos naturais

Que tal aproveitar as férias, experimentar trazer as mandalas para as crianças e acompanhar os percursos do grupo ao se inspirar nessa estética milenar?

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Tintas, mãozinhas e as marcas de uma experiência

aprendendo a carimbarTrês professoras observaram uma experiência real atravessar uma das crianças da turma. Perceberam o momento da pesquisa autônoma, a descoberta e a aprendizagem. Tudo isso num simples ato de carimbar a mão.
Para a nossa satisfação, as professora registraram o momento e compartilharam também suas experiências e conquistas.

Fabiana, Nathaly e Michelle, do CEI Nossa Turma, SP, planejaram uma proposta de pintura com rolinhos para a turma de 12 a 18 meses. A ideia era preparar algumas mesas cobertas com grandes folhas de papel, pratos rasos com tintas guache coloridas e rolinhos de espuma.

As professoras identificaram o interesse das crianças em explorar as tintas com o corpo todo. Gostam de colocar as mãos nos recipientes e espalhar as tintas nos dedos, braços, rosto, nos colegas e nas professoras! As marcas no papel acontecem, mas não são o principal foco de todos os pequenos que ainda pesquisam as texturas e outras propriedades das tintas. Continue lendo..

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Crianças e histórias infantis. Aprendem? Como e por quê?

Com o início do semestre temos uma ótima oportunidade de fazer uma revisão nos materiais de utilização constante pelas crianças como os livros da biblioteca. É parte do processo de introdução ou ampliação dos temas de interesse das crianças a seleção de livros que ficarão à disposição dos pequenos durante certo período. É o fortalecimento da relação crianças e histórias.

Mas como escolher? Histórias fantásticas, de animais ou descrições da realidade?crianças lendo 3

Pesquisadoras Caren M. Walker, Alison Gopnik [da Universidade da Califórnia, Berkeley] e Patricia A. Ganea [da Universidade de Toronto], em estudo recente publicado no periódico científico Child Development, enfatizam a importância das diferentes oportunidades para as crianças de aprenderem informações que elas não podem experimentar diretamente – especialmente no que diz respeito a fenômenos não observáveis, por meio da leitura de ficção.

Sabemos que as histórias nos ajudam, desde muito cedo, a compreender o mundo que nos cerca, mas como isso funciona? É também assim que as crianças aprendem com as histórias infantis? Mas como e por quê?

crianças lendo

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Experiência: rola, enrola e pinta!

pintura com rolos e plástico bolhaCom as crianças voltando das férias, o gás para aventuras e novas pesquisas está renovado. E dá-lhe buscar inspiração para acompanhar a turma. Pesquisamos uma técnica interessante para pintar, provocar e trabalhar a criatividade e a motricidade.

Rolinhos de Plástico Bolha

Rolar, enrolar, girar e torcer: uma categoria de movimentos divertidos que as crianças pequenas gostam de fazer. Uma pista para o professor mediar e ampliar.

I – A dica é começar a trabalhar o corpo todo e depois passar para as mãos. Pesquise e selecione uma música provocante – se tiver na letra uma referência aos movimentos de enrolar e girar, melhor! Apresente para os pequenos e mergulhe na dança. Gire o corpo, deite no chão e role, use os braços para fazer movimentos circulares e, sem falar, convide os pequenos a se inspirarem nos seus movimentos. Crianças começam a aprender imitando. Continue lendo..

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Música, brincadeira e desenvolvimento

A criança é um ser brincante em desenvolvimento. Um para-raios de sensações e emoções. Ao brincar, fica atenta a tudo o que os seus sentidos captam. E tudo entra na brincadeira! Com os sons, não é diferente.bebês e os brinquedos

Isso acontece desde muito cedo. Além dos sons que surgem ao explorar o espaço e os objetos ao redor, o bebê pesquisa a própria voz e a grande quantidade de sons vocais que consegue emitir.

A nossa relação com o universo sonoro começa antes do nascimento. Quando moradores do útero materno, escutamos os sons que vêm do ambiente e do corpo da mãe: a batida do coração, o som do sangue que corre nas veias, da digestão, da respiração e todos os demais sons provocados pelo funcionamento do corpo. Continue lendo..

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Um acervo de ideias para reinventar o Desenho

Para as crianças, o desenho é brincadeira, desafio e prazer com os próprios movimentos. Mais tarde, as marcas também são valorizadas.
Para que essa brincadeira continue e seja ampliada é preciso desenhar sempre e, em especial, pensar em alargar os desafios.

 O que interfere no desenho e o que pode variar os desafios?

desenho 3Para a neurocientista mineira Leonor Bezerra, o cérebro das crianças está no início do seu desenvolvimento. Nesse momento é ideal provocar diversas áreas cerebrais com estímulos multissensoriais, isso é, que obriguem a criança a sentir e usar vários órgãos dos sentidos ao mesmo tempo. Assim, o ato de desenhar, que já se mostrou importantíssimo para favorecer a expressividade e as narrativas, também ganha pontos com os estímulos motores e proprioceptivos* associados às emoções e sensações. Quando propomos desafios mais amplos para os pequenos, bombardeamos [no bom sentido] diferentes áreas cerebrais ao mesmo tempo. Com isso, o cérebro desenvolve  conexões nervosas mais abrangentes e complexas. Aprender é assumir novos comportamentos e atitudes. Continue lendo..

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É dança? É música? É desenho? É dança-desenho!

Crianças não separam emoções e sensações nas suas vivências. Crianças experimentam o mundo por inteiro … com o corpo todo e a mente. Todas as dimensões participam do que propomos a elas, por isso, ao planejarmos momentos de desenho, movimentos do corpo e música, o que de fato estamos provocando? Temos consciência do conjunto de sensações, emoções e criações que estamos despertando?

Nesse sentido, alguns estudiosos têm pesquisado a abrangência do envolvimento das pessoas com as Artes e algumas conclusões podem contribuir com as práticas da Educação. Um foco desses estudos pesquisa a conexão entre desenho, pintura e as expressões do corpo.

Que relações existem entre o corpo que se movimenta e dança ao som da música e o corpo que risca e pinta sobre um suporte?

desenho e dança 6 Segni Mossi

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Arte: cor, luz e transparência

Cor, luz e transparência são fenômenos físicos perceptíveis até por bebês jovens. Há muitos anos esses elementos são trabalhados pelas artes visuais e, de forma mais ampla, pela Arte Contemporânea. Mas o que isso tem a ver com a creche?

Um novo museu em Shangai, na China, foi construído para as crianças experimentarem – na descrição do museu está o termo “experimentar” e não “conhecer” – as cores, luzes, transparências e a história do vidro. O Museu do Vidro para Crianças, ou The Kids Museum of Glass, é um museu interativo, planejado para experiências educativas, onde as crianças podem interagir com instalações multimídia, desenhar, percorrer ambientes criativos, conhecer as propriedades dos vidros e até associar sons e cores.

Museu de Vidro para Crianças

Museu de Vidro para Crianças 1Experimentar e ser atravessado pelas sensações que os fenômenos físicos, as artes e as emoções proporcionam, constrói aprendizados e desenvolve as linguagens expressivas.

Não é à toa que a China investiu milhões para ampliar as experiências sensoriais de suas crianças! O repertório dessas experiências nunca é suficiente, pois os pequenos sempre se beneficiam com descobertas ao entrar de corpo inteiro em experiências cuidadas esteticamente. Continue lendo..

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Para compreender o desenho e sua poética

Toda a criança desenha. Como compreender esse processo que começa igual para todas e vai se desenvolvendo? Como olhar o amadurecimento do ato de desenhar e identificar seus marcos?

A criança, mesmo em atividades coletivas, é única. Quando está desenhando não é diferente. Desenhar é expressar-se por meio de marcas, num modo próprio. É criação, é conquista de desenvolvimento motor e intelectual, é uma conversa com os saberes e a cultura que, nos primeiros meses de vida, tem características humanas universais.

O desenho, como Edith lembrou na postagem “Palavra de Edith Derdyk o desenho do gesto e dos traços sensíveis é linguagem inata: toda a criança, de qualquer tempo e lugar, desenha. Toda criança possui intimidade com o desenho como ponte de investigação, expressão e comunicação com o mundo.

desenho 3Da mesma forma que um desenvolvimento transformador, que passa por conquistas graduais e individuais, leva o bebê a andar, também o leva a ser capaz de desenhar. A criança começa a se expressar nos primeiros traços e percorre um caminho até realizar desenhos mais organizados e elaborados. Rosa Iavelberg ainda destaca que a única coisa que sabemos ser universal no desenho infantil é a garatuja. Todo o resto depende do contexto cultural. Continue lendo..

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