Categoria: Palavra da prática

Modelagem e desenho: conversas entre a bi e a tridimensionalidade

Quando desenham, pintam ou modelam, as crianças trabalham a representação de narrativas. Será que todas essas técnicas são importantes?
É mesmo necessário proporcionar oportunidades para que as crianças pesquisem a bi e a tridimensionalidade?
Conheça a visão das professoras Mariana Isnard Carneiro e Anielle Costa Maruchi, da Escola Vera Cruz, SP, na Palavra da Prática.

Observando a turma de crianças de 3 a 4 anos numa brincadeira com caixas, as professoras perceberam que as construções representavam cenários da casa, em especial, o quarto onde elas dormiam.

Atentas às narrativas que surgiam durante as atividades de desenho, Mariana e Ani notaram que as crianças expressavam o medo da hora de dormir. Como trabalhar essa questão? Como favorecer a expressão das crianças para que elaborem esse sentimento?

Tempo de Creche – Professoras, o trabalho com a bidimensionalidade, desenho e pintura, é comum na Educação Infantil. Já a tridimensionalidade é pouco explorada. Como veem essa questão?

Mariana e Anielle – Para nós, o centro dessa questão é o modo como nos relacionamos com a materialidade das massas e de outros materiais para modelar: as texturas e as sensações que provocam e a potencialidade das pesquisas que eles permitem.

É mais comum trazer a expressividade e a figuração por meio da investigação do desenho. Porém, expressar o pensamento com modelagem é um processo mais complexo.

Tempo de Creche – Quando planejam uma proposta, o que as leva a escolher a pesquisa bi dimensional ou a tri dimensional?

Mariana e Anielle – Nesse projeto [dos medos na hora de dormir] começamos pelo desenho porque pensamos nos registros gráficos. Depois, refletimos que talvez essa linguagem não fosse a melhor escolha para todas as crianças. Então passamos a oferecer concomitantemente as duas possibilidades para que os pequenos pudessem optar pelo modo particular de expressar as narrativas sobre os medos.

Desenho modelagem e narrativa

Tempo de Creche – Vocês observam diferenças nas narrativas elaboradas no desenho e na modelagem?

Mariana e Anielle – As narrativas estão a serviço da linguagem. As crianças não têm uma narrativa pronta quando começam a desenhar ou modelar. As narrativas são elaboradas enquanto elas desenham ou modelam.

Percebemos que a materialidade das massinhas e da argila dão as “dicas” para as crianças construírem as narrativas. Por exemplo, as narrativas podem se transformar completamente se um tubarão feito de massinha ficou com cara de casinha. Nesse sentido, a narrativa às vezes caminha em função do material.

Desenho e narrativa

As crianças contam para a gente o que estão desenhando ou modelando. Ocasionalmente trazem a produção já finalizada e nos explicam o que foi feito. Em outras situações, compartilhamos as produções com o grupo e percebemos que a narrativa de uma criança “cola” na da outra. Numa próxima oportunidade, as crianças continuam suas pesquisas a partir desse ponto. Nesse aspecto, desenho e modelagem são linguagens semelhantes e os percursos das experiências dependem de como o professor conduz o processo.

Tempo de Creche – Vocês podem dar dicas para o professor trabalhar a potencialidade da modelagem com as crianças?

Mariana e Anielle – O eixo central desse trabalho é pensar sobre o que o material provoca nas crianças, quais são suas características (propriedades do material) e como apresenta-lo para o grupo.

Assim, é preciso se distanciar da estrutura convencional de fazer modelagem com forminhas porque, nessas situações, a criança pesquisa mais as fôrmas e formatos do que os modos de representar seu pensamento.

Existem muitas dicas para trabalhar com massas, argilas e outros materiais para modelar. Para explorar toda a potencialidade é preciso planejar atividades pensando sobre:

  • Planos e bases – no chão (sobre uma folha de kraft, por exemplo), na mesa, no banco, na cadeira.
  • Postura da criança e interação com o corpo – sentada, de joelho, de pé, usando as mãos, descalça para sentir com o pé, para passar no corpo, perceber as marcas que o corpo deixa no material etc..
  • Cores das massas – oferecer uma cor, algumas ou várias?
  • Associar a modelagem a outros materiais – sucatas, materiais não estruturados; materiais comuns e do cotidiano (palito de sorvete, canudo, chave); materiais que produzem marcas (colheres, funis, peneiras, folhas e elementos naturais); brinquedos que podem ter usos diferentes do usual (subverter o uso).
  • Modos de apresentar as massas – pouca quantidade por criança, grande quantidade por criança, em blocos, no formato de bolinhas, blocos coletivos. Certa vez forramos o chão com uma folha de kraft, utilizamos um rolo de macarrão e abrimos uma placa de argila para as crianças se servirem. Mudar a forma de apresentar o material promove pesquisas diferentes.
  • Cenários [espaço propositor] – quais cenários podem trazer o brilho nos olhos das crianças?

modelagem com pés

As escolhas que o professor faz interferem nas produções das crianças. Assim é preciso refletir se as características dos materiais e suas potencialidades favorecem o que se quer investigar com a proposta.

Finalmente, é fundamental estar aberto para escutar o que as crianças trazem nesses momentos de experimentação. Certa vez observamos que um menino colocava um pedaço de massinha na sola do sapato. No início, isso incomodou. Mas acompanhando o processo, vimos que ele buscava marcar a massinha para representar as pedras de uma praia. Aí tudo fez sentido!Percurso reflexivo professoras Vera Cruz

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PARA SABER MAIS…

Anielle Costa MaruchiAnielle Costa Maruchi é pedagoga e pós-graduada em Gestão Pedagógica. Atua como professora de Educação Infantil da Escola Vera Cruz.

 

Mariana Isnard CarneiroMariana Isnard Carneiro é pedagoga e pós-graduada em Psicopedagogia. Atua como professora de Educação Infantil da Escola Vera Cruz.

 

 

Leia mais sobre espaço propositor e arte e expressão na Educação Infantil nas postagens:

Crianças, expressões artísticas e aprendizagem
Organização de propostas: garantia de brincadeira e aprendizado

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Mostra na Escola Primeira: trabalho a partir de projetos

Muitos educadores têm experimentado e reconhecido o valor de trabalhar a partir de projetos na educação infantil. São temas e pesquisas que nascem dos interesses dos pequenos, das situações do cotidiano e do olhar apurado dos professores que pegam “ganchos” nas oportunidades significativas.

No entanto, apesar da crença, muitos profissionais tem dúvidas sobre as situações que representam oportunidades frutíferas e como provocar os pequenos para construir investigação e experimentação.

Casos práticos do trabalho com projetos

Na VI Mostra Cultural 2016 – Mãos, a equipe da Escola Primeira contou muitas histórias de crianças, professores e atelieristas que mergulharam em aventuras de experimentar, descobrir, expressar e aprender.

Mostra 2016 Escola Primeira

Visitamos mostras de todos os grupos, com os percursos e produções organizados pelas professoras e atelieristas. São processos intensos, construídos e vividos por meses, narrados por meio de registros de texto, imagens e produções. A exposição revelou os temas e pesquisas mais aprofundados. Porém, é importante lembrar que estes temas não são suficientes para abrigar todo o potencial de interesse, exploração e aprendizagem das crianças. O olhar do professor para transformar os pequenos acontecimentos significativos do dia a dia em provocações complementa as possibilidades de desenvolvimento da turma. Nesta postagem apresentamos com detalhes o trabalho desenvolvido pela professora Talita Freitas e pela auxiliar Aline Oliveira, num relato que se inicia com a identificação da oportunidade. Continue lendo..

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Uma prática de documentação pedagógica para aproximar famílias

Em 2015 a professora Keli Patricia Luca trabalhou no berçário da EMI Candinha Fedato Massei, de São Caetano do Sul, SP. Pela primeira vez assumindo um dos turnos de uma turma de crianças pequeninas, a relação com as famílias passou a ser um desafio necessário. Como elaborar uma documentação pedagógica que dialogue com os pais?
 Como compartilhar com as famílias o trabalho desenvolvido com os bebês?
 Como apresentar o desenvolvimento das crianças de forma fundamentada e acessível?
 Qual o melhor canal de comunicação com os familiares, a professora do turno da manhã e a equipe pedagógica?

Ao escrever para o Tempo de Creche, Keli compartilhou sua jornada junto aos bebês e a construção de uma relação de entendimento e cumplicidade com as famílias e colegas de trabalho.

registro fotográfico espelho professora KeliO primeiro passo da professora foi pesquisar e estudar sobre a faixa etária e as peculiaridades da rotina no berçário, muito diferentes das outras faixas etária com que havia trabalhado. E foi justamente nas primeiras semanas, no período de adaptação dos bebês, que percebeu a distância dos pais e a falta de informação do que era feito na escola, dificultava o processo e agravava a sensação de insegurança e o choro dos bebês. Era um período de grande sofrimento das três partes envolvidas: bebês, pais e educadores. Continue lendo..

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O que o Fundamental espera da Educação Infantil?

Conversamos com a professora Beatriz Gayotto sobre as expectativas de uma Educação Infantil que garanta os pilares para preparar as crianças para a etapa do Ensino Fundamental. Para Bia, a criança precisa brincar muito, desenhar frequentemente, ter autonomia e muitas oportunidades para construir relações.

Tempo de Creche – O que as crianças deveriam ser capazes de fazer no primeiro ano do ensino fundamental?

jogo simbólico casinhaBia As crianças deveriam ser capazes de interagir socialmente: brincar criando, negociando, discutindo e organizando suas próprias regras, sem a interferência direta de um adulto. A interferência dos adultos ainda é uma postura bem difundida na nossa sociedade, porém existem adultos na Educação infantil que tiveram uma boa formação e intervém nas brincadeiras com a intenção de ampliar, mediar ou mostrar modelos para a resolução de conflitos. Assim, as crianças chegam ao fundamental resolvendo parte de seus conflitos com argumentos, sem o uso da agressão física e sabendo que podem pedir a mediação de um adulto em caso de impasse. Continue lendo..

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Palavra de… Claudia Siqueira: um projeto que escuta as crianças

– Sabia que tem coisas que só as crianças sabem? Pedro Henrique 5 anos.
– Vem comigo, vamos descobrir a felicidade atrás das flores. Ela mora lá. Fernanda, 4 anos.  
Conversamos com Claudia Siqueira, diretora do Colégio Sidarta, sobre o projeto Impressões Infantis, que valoriza a escuta e o registro da voz da criança.

coleçãoTempo de CrecheComo surgiu o projeto Impressões Infantis com o registro das falas das crianças em casa e na escola?

Claudia – O projeto foi inspirado na pesquisa de Loris Malaguzzi, sobre a escuta genuína ao universo infantil, ou seja, como a criança constrói  sua visão de Mundo. Loris foi um dos idealizadores das escolas Reggianas. Iniciamos esse projeto em 2008 e, portanto, já estamos na 8a edição.

Quando temos a oportunidade de revisitar a nossa história, seja através dos desenhos de infância, dos primeiros cadernos ou de roupas guardadas em belas caixas, ganhamos uma espécie de oxigênio mágico, que traz lágrimas aos olhos, o sorriso escancarado à boca e abraços saudosos, impregnados de lembranças de momentos de nossas vidas que dão significado ao que somos hoje. Continue lendo..

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Lições e dicas do Colégio Sidarta

Fomos visitar o Colégio Sidarta, SP, e saímos de lá com muitas dicas e lições.
O Sidarta nasceu em 1998, da iniciativa de um imigrante chinês, Chang Sheng Kai, que queria retribuir a acolhida que o Brasil deu a ele e sua família. Com isso, foi criado o Sidarta como escola de aplicação.
O que isso quer dizer?

Aí vem a primeira lição dessa comunidade: pesquisar o mundo para se pesquisar e se reinventar. A equipe da escola está sempre intranquila. Lá se busca conhecer o que acontece no mundo da Educação, da Ciência e da Cultura para arriscar novos modos. Segundo a diretora Claudia Siqueira, se você não arrisca não aprende. Criamos uma escola para a criança. Enquanto existem escolas oferecendo “metodologias”, a gente procura ser o que a criança precisa.

sidarta_colégio

Assim, o Sidarta é uma referência que cumpre com a missão de levar seus princípios e práticas educacionais para o maior número de pessoas. Tem uma atuação importante na rede pública do seu entorno, abrindo seus conhecimentos em formações continuadas com os educadores. Continue lendo..

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CEI Barra Manteiga: Natureza na rotina de passeios no parque

Crianças aprendem a todo o momento. Quando pequenas, as interações e as brincadeiras são os principais mediadores das suas  aprendizagens. A Natureza atrai, instiga e provoca o interesse dos pequenos que pesquisam seus elementos com grande interesse. Sol, ar puro, água, pedras, terra, plantas, galhos, folhas, raízes, insetos, aves… como promover o encontro das crianças com esse ambiente? O CEI Barra Manteiga, SP, criou uma solução para levar seus pequenos quinzenalmente a um parque com Natureza de verdade.

Parque Anhanguera

Experimentar a Natureza é mais do que importante para a formação dos pequenos.  É fundamental, tanto do ponto de vista do desenvolvimento físico como para a saúde mental e a construção de conhecimento. Continue lendo..

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Rede de trocas e construção coletiva para minimizar a solidão pedagógica

Creches públicas, entre outras instituições, ainda encaram a construção das equipes gestoras como estratégia política. As dificuldades enfrentadas por profissionais recém empossados são inúmeras e a continuidade do trabalho qualificado exige medidas criativas que buscam uma integração em rede. É nesse âmbito que a FLUPP – Fundação Lúcia e Pelerson Penido desenvolve alguns de seus programas no Vale do Paraíba (SP) e Vale do Araguaia (MT).

Conversamos com Eduarda Penido Dalla Vecchia, diretora executiva da FLUPP, sobre essa experiência.

Tempo de Creche – Acompanhando o trabalho formativo da FLUPP, como você vê a gestão das creches?

Eduarda – Um dos primeiros pontos é a questão de estar coordenador, sendo ainda  professor.

Flupp 1

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Experiência de leitor: uma aventura com macarrão

Já imaginou poder mexer no prato de macarrão, brincar com as massas e ainda colocar “molhos” de cores diferentes? Essa foi a proposta de atividade da Creche Fraterno, SBC, SP, para um dia de sol luminoso, com crianças de 18 meses.

Fraterno 6A leitora Rosangela L. Gonçalves, coordenadora da Fraterno, nos convidou para conhecer a página da creche no Facebook. Exploramos os registros publicados e descobrimos imagens de bebês de fralda brincando com macarrões de todas as formas e cores. Então pedimos para a equipe para compartilhar essa brincadeira esperta!

As professoras trabalharam a mesma atividade no semestre anterior com as crianças mais jovens. Com o desenvolvimento das capacidades e o amadurecimento da turma, a professora Michelle C. B. Ogêda percebeu que poderia apresentar os materiais novamente e favorecer novas oportunidades de pesquisa mais ampliada.

Nas primeiras fotos dos registros vemos o cuidado na organização do material e no aproveitamento da extensão do espaço para favorecer a movimentação das crianças. Continue lendo..

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Professoras sabidas: seis dicas práticas para a adaptação

A adaptação dos pequenos na creche é motivo de ansiedade para pais, equipes pedagógicas e crianças. Temos muita pesquisa e fundamentação que precisa ser estudada, refletida e experimentada pelos professores para alicerçar o trabalho nessa etapa. O Tempo de Creche tem publicado uma série de postagens que valem a visita.

Mas alguns professores desenvolvem práticas comprovadas pela experiência que ajudam e podem inspirar outros profissionais. Vamos a seis delas:

criança no colo da mae 21- Na hora da chegada à creche, se a criança estiver no colo da mãe ou do responsável, NUNCA tire ela diretamente do colo! Não faça o papel de quem separa o pequeno de sua mãe! Peça para o responsável colocar a criança no chão e aí você pode pegá-lo e colocá-lo no seu colo.

 

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