Categoria: Desenvolvimento Infantil

Para uma Educação Infantil de qualidade

Segundo pesquisas americanas, diálogos que convocam a participação engajada e criativa das crianças, formação continuada de educadores e articulação da escola com ambientes comunitários e instituições governamentais são alguns dos requisitos para termos uma Educação Infantil de qualidade.

A especialista em primeira infância da universidade de Columbia nos Estados Unidos, Sharon Lynn Kagan, afirmou em entrevista à Revista Veja de 02/07/2017 que ler para crianças pequenas e fazer perguntas prevendo respostas abertas é fundamental para a formação e tem impacto na vida escolar do futuro aluno.

Ao lado de outros pesquisadores de infância e educação, a americana considera essencial o desenvolvimento da linguagem e o diálogo que valoriza a interlocução das crianças.

O que isso quer dizer?

Perguntas em que o adulto prevê respostas “certas” ou que buscam confirmação daquilo que já se sabe não estão abertas para favorecer o pensamento criativo e a resolução de problemas. Como exemplo, no lugar de perguntar aos pequenos de que cor é o sapato, é melhor perguntar para que serve o sapato e fazer um escuta aberta para as respostas.

crianças pesquisando a luz

Os trabalhos de Lynn têm auxiliado diversos governos na busca por uma educação infantil qualificada. Ela acredita que boa parte do cérebro se desenvolve até os 3 anos de idade e 90% dele até os 5 anos. Com isso, defende que as crianças crescem mais rápido de 0 a 5 anos do que em qualquer outra época da vida. Crianças pequenas são mais vulneráveis e impressionáveis, consequentemente o impacto das ações de educação sobre elas é muito maior do que nas crianças mais velhas.

Numa de suas palestras ministradas no Brasil, a estudiosa apresentou condições para o desenvolvimento ideal das crianças pequenas. Entre elas, o tamanho da sala, o número de crianças por grupo, a formação do professor, a proporção criança-professor, um currículo prático e não conteudista e, sobretudo, o modo como o educador interage com a criança.

Todos esses parâmetros devem estar sustentados por uma estrutura composta por 8 engrenagens. Contudo, Lynn destaca que todas as engrenagens são vitais e que na falta de uma, o resultado da educação fica completamente comprometido.

As 8 engrenagens:

  1. criança pesquisando buraquinhosCurrículo com oportunidades ricas de aprendizagem e intenso uso da linguagem nas relações adulto-criança e criança-criança. Crianças precisam estar ativamente engajadas nas propostas de atividades e na sua própria rotina. Um ambiente questionador que encoraje as perguntas dos pequenos, mesmo as mais simples, é condição de uma educação de qualidade. Nesse sentido, é preciso dar oportunidades para que eles pensem, reflitam e demonstrem sua curiosidade e assim, respeitar a cultura infantil: literatura, costumes e famílias.
  2. Políticas públicas que garantam níveis mínimos de segurança e saúde.
  3. Financiar a Educação Infantil tendo em vista que não existe investimento mais impactante na vida do ser humano e da sociedade.
  4. Articulação entre as instituições governamentais, como postos de saúde, assistência social, cultura e laser.
  5. Qualificação profissional dos educadores, seja por meio de requisitos e apoio governamental, seja por iniciativa própria dos professores e instituições.
  6. Prática de observação e registro para planejar atividades, observar, registrar e planejar novamente.
  7. Envolvimento dos pais e responsáveis, fundamental para que as crianças pequenas se sintam apoiadas. Para que isso aconteça é preciso que as famílias se certifiquem que a instituição de educação honrará suas culturas, respeitará suas crenças, valores e singularidades.
  8. Integração da escola aos ambientes comunitários.

Os parâmetros elencados pela pesquisadora americana não são inéditos ou estranhos para a comunidade de educadores da Educação Infantil brasileira. Porém, o que sempre foi compreendido como crença hoje é reconhecido como realidade por meio de pesquisas e dados científicos.

Que tal avaliar as engrenagens que estão ativadas na sua instituição?
Como sua comunidade compreende a Educação Infantil? Existe reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido com as crianças pequenas?

Talvez esse seja um bom momento para refletir sobre abordagens pedagógicas que colocam a curiosidade, a indagação, a interação e as expressões no coração da prática educacional, dentro e fora da escola.

crianças observando o céu

Se engajados, podemos lutar para garantir as prerrogativas governamentais em busca de qualidade na educação das crianças na primeira infância. Mas as ações pontuais promotoras de formação profissional em cada escola, que atingem cada professor, também são elementos transformadores da educação. Profissionais de todas as áreas precisam se atualizar, se repensar e refletir sobre o que já sabem, o que não sabem e o que precisam aprender. É nas atitudes individuais que começamos a trilhar uma jornada que pode de fato qualificar a vida dos cidadãos.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

Sharon Lynn Kagan é professora titular de Políticas voltadas à Primeira Infância do Teachers College da Universidade de Columbia, Estados Unidos. Também é  diretora do Centro Nacional para Crianças e Famílias. kagan@tc.columbia.edu
Veja a palestra da pesquisadora no Brasil em que fala sobre a qualidade da Educação Infantil ofertada nas creches e pré-escolas. Partindo de dados de sua pesquisa – de que 72,4% da educação infantil brasileira é inadequada -, ela apresentou variáveis que poderiam levar o Brasil a enfrentar o desafio da qualidade. Palestra apresentada no Seminário Avaliação da Qualidade da Educação Infantil/ Fundação Carlos Chagas (junho de 2010 – São Paulo – SP) – O seminário divulgou a pesquisa Educação Infantil no Brasil: avaliação qualitativa e quantitativa – e discutiu suas implicações e desdobramentos. A pesquisa foi realizada em 2009 e 2010, em seis capitais brasileiras: Belém, Campo Grande, Florianópolis, Fortaleza, Rio de Janeiro e Teresina.
Leia mais sobre curiosidade e pesquisa nas postagens:
Postado em Coordenador e Gestor, Desenvolvimento Infantil | Tags , , , , | Clique para deixar um comentário!

Jogo de brincar ou jogo de competir?

jogo das cadeiras criança tristeDuas situações de competição X participação envolvendo a Dança das Cadeiras chamaram a nossa atenção recentemente. A brincadeira tradicional foi proposta para crianças na faixa de 3 a 4 anos, em diferentes instituições, e causou tristeza, choro e frustração nos grupos e também nos professores.
Por que as crianças que saíam do jogo ficavam tão chateadas a ponto de chorar e impedir a continuidade da brincadeira?

Pois é! A Dança ou Jogo das Cadeiras é um jogo tradicional que, dependendo da forma como é brincado, leva à questão de ganhar ou perder, inadequada até 4 anos.
Por que será? Qual a diferença entre competição e participação? 

jogo das cadeiras de sentar no colo Santa Marina

Piaget e sua discípula, a educadora Constance Kamii, estudaram as situações de jogo com regras ao longo da infância e também as implicações da competição entre os participantes. Para ambos, as crianças até 5 ou 6 anos estão no estágio do brincar egocêntrico, em que brincando juntas ou separadas não se preocupam com a questão de “vencer”. Crianças pequenas gostam do desafio de jogar e se divertem cumprindo tarefas, regras ou combinados propostas pelos jogos. E só!

jogo das cadeiras do SnoopyOutro aspecto dessa questão diz respeito às disputas. Nessa fase elas podem brigar por um brinquedo ou até para serem escolhidas como ajudantes para servir a fruta na hora do lanche. Isso porque o brinquedo e servir a fruta têm um valor intrínseco e imediato para elas. Nos jogos, por outro lado, objetos interessantes ou privilégios não estão diretamente envolvidos. O que os pequenos ganham concretamente chegando em primeiro lugar numa corrida? O que eles ganham em superar os amigos? O que compreendem desta situação?

Até 5 ou 6 anos as crianças são muito egocêntricas para se importar com a performance dos colegas.

A partir dessa idade, no entanto, elas começam a prestar mais atenção nas próprias conquistas e nas dos colegas. Começam a comparar e caminham para a competição.

Mas o que é competir?

Competir é comparar os desempenhos e superar os outros. E aí a intervenção do professor é fundamental.

Ao ganhar, algumas crianças expressam orgulho e sentimentos de superioridade. Quando professores enaltecem e valorizam as conquistas com muitos “muito bem!” e premiações, acabam por reforçar a superioridade do vencedor e também o sentimento de fracasso dos perdedores. Frente às primeiras experiências com jogos de competição, o professor deve valorizar a brincadeira, a participação do grupo e até adequar as regras dos jogos conforme a leitura que faz sobre o desenvolvimento das crianças.

Voltando para a Dança das Cadeiras, algumas variantes são indicadas para adaptar a brincadeira para os menores.

jogo das cadeiras de livro1- Para os bem pequenos, as cadeiras podem ser retiradas mas não os participantes! A proposta é sentar no colo do amigo que quiser acolher quem sobrou. É muito bacana observar como o grupo vai se organizando para ter os amigos sentados no colo. Além de adequada, a brincadeira tradicional modificada desafia o espírito de colaboração coletiva.

2- Para a faixa dos 4 a 6 anos, quem sai do jogo pode controlar a música. Desse modo, ao ficar sem cadeira, a criança ainda tem uma oportunidade de participar.

A convivência de crianças cria situações de competição e participação. Competir faz parte da natureza humana, mas os sentimentos de superioridade e de inferioridade não são condições para a competição acontecer. Com olhar afiado e intencionalidade nas ações, os professores podem construir situações positivas de aprendizagem com jogos e brincadeiras tradicionais e suas adequações às faixas etárias da Educação Infantil.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

Balão-Para-Saber-Mais Jean Piaget não era um educador, era um investigador da aprendizagem ou da epistemologia genética. Constance Kamii, sua discípula, tendo trabalhado com Piaget em vários períodos, foi uma das pensadoras que promoveu e adaptou seu pensamento à educação, especialmente na faixa etária da Educação Infantil.

→ Bibliografia – Group Games in Early Education: implications of Piaget Theory, Constance Kamii e Rheta DeVries. National Association for the Education of Young Children, Washington, 1988

→ Leia mais sobre o brincar nas postagens:

Postado em Desenvolvimento Infantil, Planejamentos e Atividades | Tags , , , , , , , , | Clique para deixar um comentário!

Tintas, mãozinhas e as marcas de uma experiência

aprendendo a carimbarTrês professoras observaram uma experiência real atravessar uma das crianças da turma. Perceberam o momento da pesquisa autônoma, a descoberta e a aprendizagem. Tudo isso num simples ato de carimbar a mão.
Para a nossa satisfação, as professora registraram o momento e compartilharam também suas experiências e conquistas.

Fabiana, Nathaly e Michelle, do CEI Nossa Turma, SP, planejaram uma proposta de pintura com rolinhos para a turma de 12 a 18 meses. A ideia era preparar algumas mesas cobertas com grandes folhas de papel, pratos rasos com tintas guache coloridas e rolinhos de espuma.

As professoras identificaram o interesse das crianças em explorar as tintas com o corpo todo. Gostam de colocar as mãos nos recipientes e espalhar as tintas nos dedos, braços, rosto, nos colegas e nas professoras! As marcas no papel acontecem, mas não são o principal foco de todos os pequenos que ainda pesquisam as texturas e outras propriedades das tintas.

aprendendo por imitação

Choveu no dia programado e as professoras colocaram em prática o plano B: sequestraram o refeitório.

Prepararam duas grandes mesas bem afastadas para permitir a escolha e a livre circulação dos pequenos, o que funcionou muito bem. Os rolinhos também ampliaram a pesquisa, pois além de percorrer o papel e a pele deixando marcas, foram amassados e espremidos.

proposta pintura CEI Nossa Turma

Eis que num momento, depois de passar o rolo com tinta preta na palma da mão e mergulhar a mão no prato, uma menininha de lacinho verde resolveu posicionar a mão no papel da mesa. Apoiou e retirou com cuidado. Surpreendeu-se e ficou encantada com o que viu: uma imagem da própria mão estampada na mesa!

processo de descoberta de carimbar a mão

Nessa altura da história, muitos leitores podem pensar: nada mais comum e corriqueiro do que ver mãozinhas de crianças carimbadas durante atividades da Educação Infantil!

Mas aí é que moraram as descobertas da menininha, das três professoras e de mais algumas crianças.

Essa não foi uma vivência qualquer para a pequena. É provável que ela já tenha tido a mão carimbada pelas professoras em outras ocasiões… mas até aquele dia nunca havia descoberto nada com isso! A experiência nunca tinha sido dela.

A surpresa e a expressão de insight[1] de quem compreendeu o processo foi tão espontânea e clara, que as professoras se sensibilizaram. Como estavam atentas às conquistas das crianças, registraram o processo da lacinho verde e mais tarde refletiram sobre o que observaram.

aprendizagem por imitaçãoA descoberta foi imitada por outras crianças, que experimentaram e aprenderam ao imitar a colega (Zona de Desenvolvimento Proximal do Vygotsky, lembra?).

Experiências são vivências significativas, que atravessam as pessoas e deixam marcas. Segundo o pedagogo e filósofo da educação, Jorge Larrosa – um dos magos do Tempo de Creche – somente aprendemos nos momentos em que experimentamos. São os breves instantes que nos atravessam que produzem aprendizagens.

É possível que um fato corriqueiro como esse passe despercebido pela maior parte dos professores. Porém, é nesses instantes encantados que mora a potência do ensinar e do aprender. Fabiana, Nathaly, Michelle, a pequenina do lacinho verde e outros coleguinhas foram atravessados pelo prazer de descobrir e crescer.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

[1] Insight é a clareza súbita na mente, iluminação, estalo, luz, compreensão ou solução de um problema pela súbita captação mental.

Jorge Larrosa, em seu artigo Notas sobre a experiência e o saber de experiência, afirma que a experiência é o que nos passa, o que nos acontece, o que nos toca. Não o que se passa, não o que acontece, ou o que toca. Para ele a experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.

Zona de Desenvolvimento Proximal de Vygotsky – para saber mais leia a postagem Percurso investigativo: o desenho e a zona proximal de desenvolvimento

CEI Nossa Turma é uma creche conveniada à Prefeitura de São Paulo e é parte dos projetos sociais da Associação Nossa Turma. As professoras Fabiana Guimarães dos Santos, Nathaly da Silva Cunha e Michelle Ferreira Gonçalves são responsáveis pela turma de Berçário 2 (12 a 24 meses) desta postagem.

Postado em Desenvolvimento Infantil, Linguagens Expressivas, Listagem de postagens por temas, Registros e Documentação | Tags , , , , , | 7 Comentários

Fazer uma vez é o mesmo que não fazer!

Planejar propostas de atividades repetidas para crianças é cair na mesmice? É bom ou ruim para elas? Fazer atividades uma só vez constrói saberes?

Vamos pensar um pouco: imagine que você chegou numa ilha onde as plantas, os animais, a comida, a língua, a música, a arquitetura e os costumes são muito diferentes dos seus.

Um passeio de 24 horas é suficiente para conhecer um mundo tão diferente? Um dia basta para ter ideia do que acontece por lá?

crianças modelando argila

A primeira etapa da vida do ser humano é como uma viagem a um mundo desconhecido. Nos primeiros anos os pequenos poderiam dizer “muito prazer em conhece-lo” a toda hora, porque tudo é novo e está sendo observado, explorado e conhecido.

Retomemos a pergunta inicial: basta uma espiadinha, uma rápida brincadeirinha para se apropriar do mundo desconhecido que nos cerca, construir olhar e significados?

Certamente, não!

Riina LundellA professora sueca Riina Lundell, da pré-escola Trångsund, na Suécia, disse ao Tempo de Creche que com crianças, fazer uma vez é o mesmo que não fazer.

Nos primeiros contatos, as crianças pesquisam os materiais, os movimentos ou as situações. Testam qualidades e possibilidades. Depois de estabelecerem relações, começam a experimentar e criar com mais complexidade, foco e, dependendo da faixa etária, interagindo com os colegas.

crianças com bloco de argilaJá observou uma criança experimentando a argila pela primeira vez? Ela amassa o material, espreme entre os dedos, bate, atira, passa na pele e até coloca na boca. Algumas apresentam certa resistência para entrar em contato e precisam de tempo e atenção diferenciados.

Só depois de algumas oportunidades é que as crianças começam a descobrir como modelar a massa, controlar a força, compreender as resistências e as delicadezas do material, lidar com diferentes volumes e, finalmente controlar a modelagem para transformar a argila de acordo com seus desejos. Como tudo o que nos cerca, as características do que existe são sempre diversas e permitem interações e explorações particulares.

menina modelando de argila

Projetos também podem demandar a repetição de propostas e percursos mais longos. Ao identificar temas que interessam às crianças, o professor busca caminhos para favorecer experiências e aprofundar as pesquisas e descobertas. Essa trajetória precisa de tempo e repetição. Ao descobrir e aprender sobre os diversos assuntos, as crianças – e todos nós! – precisam retomar os saberes construídos ao longo do caminho para correlacionar, somar e continuar aprofundando o interesse e a busca por novos conhecimentos. É como estar numa espiral que a cada volta retoma o percurso vivido porém de maneira mais ampliada.

Segundo Riina, tempo e repetição são fundamentais para que as crianças aprofundem pesquisas e, nesse percurso, ampliem habilidades e se desenvolvam.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

A postagem Repetir propostas para crianças. Será? também aborda essa questão propondo algumas reflexões. Vele a pena ler!

→ A Pré-escola Trångsund está localizada na região de Trångsund, nos arredores da cidade de Estocolmo, na Suécia. Essa é uma das escolas em que a pesquisadora e professora Liselott Mariett Olsson fez diversas pesquisas e me levou para conhecer de perto. A equipe do Tempo de Creche acredita e se fundamenta, entre outros pensadores, na produção acadêmica de Liselott, que, por sua vez, pensa a educação das crianças pequenas a partir da filosofia de Gilles Deleuze e Felix Guattari, magos e inspiradores do Blog.

Postado em Desenvolvimento Infantil, Planejamentos e Atividades | Tags , , , | 1 Comentário

Apoiamos as iniciativas das crianças?

A cada dia nos surpreendemos com as habilidades e as iniciativas das crianças pequenas. Curiosas e investigativas, experimentam o que está ao seu alcance. Ao valorizar esse espírito, contribuímos para formar bons estudantes e profissionais competentes. Será que a nossa prática dá espaço ao entusiasmo da infância?

quem disse que eu não consigo

Quanto menor a criança, maior o entusiasmo e o afinco em pesquisar, construir, encaixar, desmontar, saltar, ultrapassar, transferir, esvaziar, atirar, amassar, criar… Um sem fim de ações ousadas que a leva a experimentar e aprender.

Porém, à medida que as crianças crescem, percebemos que esse ímpeto diminui. Já não se atrevem com frequência a realizar tarefas que não tem familiaridade, não se interessam por desvendar mistérios e vão se conformando com um repertório limitado de brincadeiras.

Por que isso acontece? Por que o entusiasmo diminui?

Claro que à medida que cresce a criança passa a se conhecer melhor e a desenvolver gostos e afinidades que direcionam suas escolhas. Contudo, outros fatores podem explicar a perda do entusiasmo. Entre eles, a falta de autonomia e a indiferença dos adultos em acompanhar e valorizar as pesquisas, as tentativas e as descobertas.

Na verdade, frequentemente preferimos agir pelas crianças! Por exemplo, é mais fácil para o adulto se antecipar e servir o suco na hora do lanche. Dessa forma se evita derramamento de suco na sala, na roupa, no colega, troca de roupa…

Na hora de desenhar, é mais tranquilo para o professor distribuir os lápis de cera nas mesinhas do que entregar pequenos potinhos para que cada criança se sirva das cores que desejar. Negociar trocas com os colegas, encher demais o potinho e derrubar tudo no chão “dá mais trabalho” para todos!

Outro exemplo de situações em que atropelamos os ímpetos das crianças pode ser observada quando elas resolvem puxar os colchonetes da pilha para construir uma cabana ou uma montanha a ser escalada. Os colchonetes não são brinquedos! – retrucamos. Eles são para dormir!
Quem disse isso?
Assinamos um documento com o fabricante jurando que os colchonetes só seriam usados na hora do sono? Na cabeça incrivelmente ativa e criativa das crianças tudo pode!

Esses e outros cenários ilustram ocasiões valiosas para o professor trabalhar as escolhas autônomas, a criatividade e a pesquisa. Nesses momentos as crianças precisam de um outro espírito aventureiro junto delas, que as acompanhe acreditando nas suas capacidades e valorizando o interesse e a inovação.

Quem sabe assim invertemos a tendência de encolher o espírito de descoberta das crianças mais velhas? Dê espaço e arrisque-se com os pequenos! Sua prática também vai crescer.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

Para saber mais…

As imagens dessa postagem são registros de uma série de propostas de experimentações plásticas realizadas pelas professoras Maria, Neuza, Cidélia e Katia do CEI Santa Marina, SP, pertencente ao Instituto Rogacionista. As professoras, participantes do Projeto Afinal o que é arte na Educação Infantil, apoiado pelo Instituto Minide Pedroso (IMPAES) e desenvolvido pela equipe Tempo de Creche, trabalharam com diferentes farinhas e misturas com água.

→ Para se aprofundar nesse tema, leia as postagens:

Postado em Desenvolvimento Infantil, Planejamentos e Atividades | Tags , , , , , , , | 1 Comentário

Crianças não nascem racistas!

O que uma criança pequena genuinamente detesta?
A única coisa que vem à cabeça é parar de brincar. Crianças abominam interromper a brincadeira para comer, tomar banho ou dormir.
E só!

Crianças pequeninas não desgostam de mais nada, mesmo porque o mundo ainda é uma novidade a ser aprendida.

Crianças desenvolvem preferências conforme vão crescendo: gostam mais de uma ou outra cor, preferem alguns alimentos, tem mais prazer ao ouvir certas melodias e até escolhem com mais frequência algumas roupas e brinquedos.

provocação ninguém nasce racista fb

Numa análise mais profunda, é possível compreender que esse “gostar e não gostar” tem origem nas histórias de vida, com as experiências e relações que crianças e adultos vivenciam. Continue lendo..

Postado em Desenvolvimento Infantil, Imagens | Tags , , , , , , , , | 1 Comentário

Percurso investigativo: o desenho e a zona proximal de desenvolvimento

Encontramos um relato interessante sobre o desenho infantil na faixa dos 3 a 4 anos, lendo a dissertação de mestrado da professora Vanessa Marques Galvani. Ao refletir sobre registros e produções de duas crianças em particular, a professora buscou apoio no conceito de zona de desenvolvimento proximal de Vygotsky,  planejou intervenções e colheu resultados significativos.

Vanessa estava pesquisando a fotografia como suporte para a elaboração de documentação pedagógica, quando percebeu nos registros fotográficos de sua turma algumas particularidades no desenho de dois de seus alunos. Ela notou que o Artur (nome fictício), apesar de reconhecer algumas partes do rosto humano na sua própria fotografia, ainda não conseguia desenha-las sozinho. Já Clara (nome fictício), tranquilamente demonstrava através de seus desenhos uma figuração mais estruturada.

Exercicio de autoretrato Arthur

 

A partir da leitura das produções das crianças e dos registros realizados durante os momentos do desenho, Vanessa identificou que Artur conseguia desenhar algumas partes do seu rosto. Mas, em comparação com os desenhos de Clara, ainda faltavam algumas estruturas. Isso indicava que o menino estava numa zona de desenvolvimento proximal no desenho da figura humana. Partindo desse olhar, planejou estratégias pedagógicas para provocar Arthur e promover o desenvolvimento do seu desenho.

Como Vygotsky nos ajuda a entender esse processo?

Para o psicólogo bielorrusso Vygotsky, existem dois níveis de desenvolvimento infantil.

Exercicio de autoretrato ClaraQuando a criança é capaz de realizar uma determinada ação de forma autônoma, sem nenhum auxílio, ela se encontra zona de desenvolvimento real. Este nível é o resultado de processos de aprendizagens já adquiridas e conquistadas pela criança. Continue lendo..

Postado em Desenvolvimento Infantil, Postura do Professor | Tags , , , , , , , , | 1 Comentário

Ciclo da Curiosidade e da Aprendizagem… na prática!

Nas postagens Curiosidade e pedagogia da investigação: caminhos para 2017 e Curiosidade: o combustível da aprendizagem, falamos sobre a importância da curiosidade como estado provocador para aprendizagens. Quando ficamos curiosos a respeito de algo buscamos acalmar o desejo de saber sobre alguma coisa que não sabemos, mas que nos interessa. Essa inquietação é uma potente força disparadora para a formulação de hipóteses, a pesquisa, a relação com o outro e com os fatos, a elaboração da comunicação e da linguagem.

Muitos processos complexos estão envolvidos e o resultado é a construção de aprendizagens, novas conexões, conhecimentos, a facilitação para buscar as curiosidades da vida e embarcar em novas pesquisas.

É um ciclo que não para nunca e que, a cada volta, desenha caminhos cada vez mais claros.

Nós (e as crianças!) aprendemos com o processo de investigar o que desperta nossa curiosidade, nosso interesse e, consequentemente, o que é significativo para nós.

Eu quero voar! Diz um menino numa turma de pré-escola.
Quem sabe voar? Pergunta a professora.
Eu! Responde o menino com uma capa de papel amarrada no pescoço.
E quem mais? João e eu queremos saber quem sabe voar!, diz a professora, organizando o pensamento e convocando outras crianças a participarem.
A borboleta!, reponde o pequeno com a capa.
O avião!, responde uma menina.
O passarinho!, responde outro menino.
Como será que eles voam?, intervém a professora.
Com o cérebro acessando os arquivos, as crianças respondem: com a asa!, correndo!, pulando de cima, ó!– um pequeno sube no banco e pula.

brincadeira de voar
Continue lendo..

Postado em Desenvolvimento Infantil, Postura do Professor | Tags , , , , , | 3 Comentários

Curiosidade e pedagogia da investigação: caminhos para 2017

crianca-investigativaPropomos um desafio: planejar 2017 levando em conta a importância da curiosidade e da investigação da criança como um dos motores da aprendizagem.
Já pesquisamos e abordamos a escuta de Paulo Freire, o registro e a reflexão de Madalena Freire e a documentação a partir da visão de Reggio Emilia. Exploramos Pikler com o seu olhar sobre a autonomia do bebê e a relação olho no olho com o educador. Pensamos nas diretrizes e bases curriculares para apoiar nosso trabalho. Mas o que acontece no mundo da educação além disso?

Estudiosos e pesquisadores de diversas áreas do conhecimento estão pesquisando a conexão entre curiosidade e desenvolvimento humano. Por que tantos cientistas estão tão curiosos a respeito da curiosidade?

Para o psicólogo, educador e economista americano, George Loewenstein, a curiosidade tem sido compreendida como uma força que impulsiona o desenvolvimento infantil e um dos mais importantes estímulos condutores da Educação e das descobertas ccuriosidade-e-investigacao-bebeientíficas.

Um dos pilares da teoria de Piaget sobre o desenvolvimento intelectual da criança é o anseio natural que ela tem para investigar e compreender o seu ambiente. Piaget definiu curiosidade como a necessidade de explicar o inesperado. Para ele, as crianças são pequenos cientistas.

Nesse sentido, a curiosidade reflete o desejo de preencher informações que nos faltam para explicar coisas e situações sobre as quais temos interesse. Continue lendo..

Postado em Desenvolvimento Infantil, Postura do Professor | Tags , , , , , , , , | 7 Comentários

Curiosidade: o combustível da aprendizagem

criancas-com-brinquedo-na-areiaQuando pensamos na importância da pesquisa e na alegria pela descoberta como o motor da aprendizagem, esquecemos que precisamos alimentar uma característica primitiva e essencial, que é anterior a esse processo: a curiosidade.
Como identificá-la?
Perseguindo os olhares questionadores e as perguntas das crianças. Também colocando as perguntas certas na hora certa. Estas são as pistas do professor.

Dia desses saí muito angustiada de uma aula com a Madalena Freire! E coloquei para ela a minha aflição: Madalena, entro aqui com 1000 perguntas e saio com 2000! Quando vamos resolver tudo isso? Madalena prontamente respondeu: nunca! Enquanto você estiver aprendendo suas dúvidas não pararão de crescer. Enquanto eu estiver lhe ensinando, você terá mais e mais perguntas para me fazer. É isso que um professor deve querer. Isso dói e traz angústia, mas é o movimento natural da aprendizagem.

Saí da aula com desconforto. Madalena me puxou a cadeira várias vezes num período de 2 horas. Me fez ajustar o corpo e a mente sobre novas descobertas e questionamentos inéditos. Cansa! Mas enriquece.

Dormindo sobre os novos conhecimentos – recomendação da Madalena – logo surgiram conexões.

Lembrei-me dos estudos da psicóloga americana e especialista em Educação, Susan Engel. O objeto de sua pesquisa é a curiosidade e o quanto ela é representativa no contexto da aprendizagem. Continue lendo..

Postado em Desenvolvimento Infantil, Postura do Professor | Tags , , , , , , | Clique para deixar um comentário!