Natureza, riscos e brincadeiras numa discussão que dá o que pensar

Educadores falam sobre a liberdade das brincadeiras, a importância dos ambientes naturais na infância e os riscos que devemos permitir às crianças durante o brincar. Propomos acender uma discussão! Fizemos uma pesquisa e reunimos o que temos ouvido nos últimos meses em seminários e mostras.

brincadeiras arriscadas de criança

Segundo Andrew Swan, estudioso do brincar, hoje as crianças são vistas como porcelanas, avessas a riscos. Consequentemente, as oportunidades REAIS de brincar quase não se apresentam mais. As ruas foram abolidas dos espaços da brincadeira infantil e os parquinhos estão cada vez menores ou desaparecendo. A minimização dos riscos levou a criança a espaços estéreis, artificiais e monótonos.

Essa situação despertou num grupo cada vez maior de pesquisadores e defensores de uma infância saudável, a criação de um conceito: a SÍNDROME DO DÉFICIT DE NATUREZA

A falta do convívio com ambientes naturais e seus desafios levou esse grupo ao seguinte questionamento:

Balão Dúvida pPor que colocar as crianças em contato com a natureza?

Rita Mendonça, presidente do Instituto Romã, responde que criança e natureza são uma coisa só, e original – de originário. Cada criança traz em si todo o processo de evolução da natureza em direção à cultura. Durante o desenvolvimento do feto, passamos por um estágio em que somos anatomicamente muito parecidos com os peixes, depois com os répteis, depois com os mamíferos em geral e, só no final da gestação, nos transformamos em humanos.

Balão Dúvida pO que nos faz humanos?

É a capacidade de aprender tudo sobre o ambiente que nos cerca, e pensar sobre a forma como intervimos nele.

E qual é a qualidade do ambiente que queremos proporcionar às nossas crianças? Composto de plásticos, concreto e todo o tipo de artificialismos?

Como pretendemos formar adultos que respeitam e preservam os recursos naturais do planeta se eles nem os conhecem de fato? Qualquer teórico sabe que não nos importamos realmente com aquilo que não conhecemos, que não está perto e ao qual não nos sentimos pertencentes.

O brincar da criança supõe um relacionamento íntimo com o entorno. (Spinka et al, 2001)

O escocês Andrew Swan destacou a utilização dos dois termos mundialmente comuns:

  • Playground (área de brincar)
  • Playtime (tempo de brincar)

Para ele, embutido no significado dessas palavras, está o determinismo do adulto, uma predeterminação de tempos e espaços de brincar. Só que criança NUNCA para de brincar! Então … essa forma de determinar é coerente com a natureza humana?

Ao perceber essa natureza, podemos pensar até mesmo na forma com que permitimos esse brincar.

Com a brincadeira livre, em ambientes mais naturais, temos o risco e, com ele, a experiência e a possibilidade de obter sucessos. A conquista dos desafios arriscados é a razão motivadora da pesquisa e do aprendizado na infância.

Então, o brincar deve ser:

  • Livre
  • Flexível
  • Intrinsecamente motivado – isto é, os rumos da brincadeira estimulam o brincar
  • Espontâneo
  • Acontecer em todos os ambientes: naturais e estruturados
  • Físico e mental; criativo e intelectual; social e emocional

Estes elementos reforçam que as brincadeiras são imprevisíveis e incertas, tendo o novo e o desconhecido como elementos do enredo da criação da criança. Então, o brincar contém naturalmente elementos de risco!

Características da brincadeira arriscada:

  • Alturas
  • Velocidade
  • Rolamentos
  • Ferramentas
  • Proximidade a elementos naturais perigosos (animais, plantas, rios etc.)
  • Brincar isolado

Mas é preciso distinguir medo, fobia, inadequação – de adultos e crianças – da falta de maturidade ou aprendizado para lidar com as situações de risco. Os riscos adequados à idade estimulam o aprendizado e, de acordo com o desenvolvimento, garantem o domínio e as conquistas da criança. O contrário, o isolamento e a superproteção, levam ao desenvolvimento das neuroses e psicopatologias. (Ellen B. H. Sandseter, Noruega, 2011).

Filme do lado de fora - lições de um jardim de infancia na floresta

No documentário: Do lado de Fora: Lições de um Jardim da Infância na Floresta, é possível ter a dimensão da riqueza de experiências vividas por crianças que passam grande parte do dia em contato direto com os ambientes naturais.

A questão é perceber, então, se as ações características de uma infância saudável, com liberdade criativa e em ambientes naturais e desafiadores estão sendo praticadas pelos seus pequenos.

Suas crianças correm, pulam, escorregam, martelam, serram, pintam, coletam plantas, mexem em bichos, carregam objetos pesados, fazem montagens com objetos grandes, usam a água para brincar, cavam a terra e a areia, sobem em árvores ou escalam locais mais altos, etc., etc., ….?

Se estas ações não estão fazendo parte do planejamento de suas propostas está na hora de buscar a sua própria infância e trazer aquele espírito travesso para inspirar seu trabalho!

barrinha colorida fininhaSugestões para transformar o espaço com elementos naturais e proporcionar desafios:

Sugestões para transformar o espaço - natureza

Balão Para Saber MaisFONTES DESSA POSTAGEM:

Painel 2 – Brincar é risco ou desafio?, Andrew Swan, no Seminário “O Direito de Brincar: Da Teoria à Prática”, realizado pelo IPA, ABBRI e SENAC São Paulo. Novembro 2014

Graduado em Recreation Studies e especializado no Brincar no Reino Unido

→ Roda de Conversa Criança e Natureza, Rita Mendonça, na Ciranda de Filmes, maio 2015.

Bióloga e socióloga, presidente do Instituto Romã. Conheça mais sobre o seu trabalho na reportagem da Revista Nova Escola

→ Filme documentário: Do lado de fora: lições de um Jardim da Infância na floresta, apresentado na Ciranda de Filmes 2015. Vale a pena ver o trailer de 6 minutos que, apesar de falado em inglês, tem imagens que dizem quase tudo!

→ Artigo Brincadeiras infantis arriscadas de uma perspectiva evolucionária : os efeitos anti-fóbicos de experiências emocionantes, Ellen B. H. Sandseter, Noruega, 2011

 

 

 

 

 

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5 Comentários para Natureza, riscos e brincadeiras numa discussão que dá o que pensar

  1. rafaela diz:

    Bom dia, comecei a me preocupar com meus filhos ao ve-los cada vez mais enclausurados, voltados apenas a tv e jogos, celular etc, nao desenvolvendo habilidades que estas brincadeiras na natureza oferecem ao aprendizado. Comecei a perceber a minha volta ser um problema generalizado da sociedade, o caminho que esta se tomando na educacao dos filhos, e isso deve ser revertido imediatamente, estamos criando individuos que nao sabemos qual seu comportamento quando adultos, sao crianças imediatistas, impacientes, irritadas, egoistas, infelizmente esta é a realidade. E diante desta perspectiva que comecei observando em casa e apos em volta, verifiquei que nao restam muitas opcoes para os pais que tambem anseiam estas necessidades, as casas ou apartamentos cada vez menores, cada vez mais fechado pela inseguranca da violencia, o trabalho que cada vez enxuga mais ainda nosso tempo, entao estamos praticamente de maos atadas para combater a falta de infancia saudavel das criancas. E diante de tudo isso, estou largando minha profissao de advogada e vou me dedicar a criar um espaco com 150 mil metros quadrados para oferecer aos pais um lugar que propicie o contato do seu filho com a natureza, que propicie o brincar necessario na infancia, e como vi seu material falando a respeito do tema, achei muito bacana e vai no mesmo caminho do meu pensamento. E gostaria muito de trocar informacoes, ouvir mais o que tem a dizer, gostaria de poder absorver seu conhecimento para eu coloca-lo em pratica com minhas futuras crianças. Abracos.

  2. carlos diz:

    Tudo correto. Infelizmente falta combinar com o judiciário brasileiro que anda penalizando escolas porque uma criança de dois tomou mordidas do colega também de dois no pátio, ou porque a criança caiu e se machucou na escola. Os pais e os juízes parecem acreditar que o risco é importante na educação, mas quando ele se concretiza, querem alguém para culpar.

    • Carlos,
      Obrigada pelo seu retorno.
      Você tem razão em relação às crenças das instituições públicas e da própria sociedade quanto aos “riscos” inerentes às brincadeiras e descobertas de uma infância saudável e mais próxima da natureza. Mas esse é somente um aspecto da defesa que precisamos assumir como educadores e conhecedores do desenvolvimento dos pequenos. O consumo a que elas estão expostas, a escolarização da Educação Infantil e o desrespeito ao protagonismo das crianças, entre outras situações, também devem estar na pauta de um trabalho de transformação da cultura da nossa sociedade.
      Acreditamos que é possível. Outras sociedades conseguiram… mas dá trabalho!
      Um abraço,

  3. gostei muito do tema! A escola foge dos riscos, dos ambientes naturais e ir na contramão é assumir a responsabilidade sozinha! Prefiro o risco do que a monotonia!! Valeu!!

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