Brincadeira livre ou conduzida?

O que desperta sua inspiração?
O documentário Território do Brincar Diálogo com Escolas é uma ótima fonte!

Território do Brincar mangueCoordenadores e professores estão constantemente buscando recursos e estratégias para alimentar discussões, trocas e formações nos encontros, reuniões e paradas pedagógicas. Foi lançado um documentário sob medida para provocar muita reflexão sobre um tema que é a essência da infância e, por consequência do currículo da Educação Infantil: a brincadeira.

Em mais um projeto vivo e profundo, a parceria Território do Brincar com o Instituto Alana nos traz uma lição sobre a infância. Aquela que ficou guardada num cantinho da cabeça e do coração e que nós, educadores, precisamos resgatar para olhar e enxergar as crianças com as quais trabalhamos.

O Documentário “Território do Brincar: diálogo com as escolas” apresenta o projeto de dois anos de viagens da educadora Renata Meireles e do documentarista David Reeks para registrar o universo brincante das infâncias do Brasil e um diálogo franco com 6 escolas para trocar e perceber os ecos que partiriam desses registros.

fratto - chegando na escolaAssistir ao resultado do trabalho é sentir o impacto e o incômodo provocados por conteúdos que nos atravessam e sensibilizam:

Será que ainda sabemos o que é brincadeira?
Conseguimos respeitar o território da infância?

No bate-papo do filme ouvimos educadores que se abrem, revelando seus processos internos de despertar para uma realidade vivida e esquecida do universo infantil: a brincadeira livre.

Algumas questões levantadas pelos educadores entrevistados compõem uma pauta de olhar para o documentário e encaminham discussões depois de assisti-lo:

 Disponibilizar um tempo para o brincar. Mas não meia hora! Meia hora é o tempo de pensar… até o criar… o fazer e agir. Em meia hora não acontece o brincar.
Encontrar o quintal da escola. É o espaço da brincadeira espontânea e livre.

Fratto - com que brinquedo O Território do Brincar trouxe a questão dos brinquedos não estruturados. Nós percebemos que [esses materiais] trazem uma reflexão maior, a criança cria muito mais, brinca muito mais e imagina situações que não experimentaria com outros materiais.
Se oferecemos um tronquinho, tem que sair alguma coisa de dentro da criança para o tronquinho se transformar em outra coisa. Ele é um objeto pouco pronto, então ele exige da criança uma atividade interna para ela brincar.
Qualquer coisa que a natureza oferece traz sugestões. O tronco tem a curvatura, de repente tem um buraco que se pode passar alguma coisa. Já o brinquedo industrializado é igual sempre.

Território do Brincar indiozinho

 

 As imagens das crianças da comunidade pomerana (Espírito Santo), serrando com serrotes bem pertinho do dedo do pé, com martelos, mexeu com os educadores. Porque vamos cercando as crianças numa bolha: não pode isso, não pode subir na árvore porque é perigoso, não pode andar descalço porque está frio, não pode ficar sem blusa. E descobrimos que tem uma potencia. As crianças mexem com o serrote, podem cair da árvore e se machucarem. Que bom! Quando eu era criança não corria porque tinha medo de me machucar. Não me machuquei, mas também não sei correr!
Trazer as ferramentas assustava os educadores. O que vai acontecer? Vão martelar o dedo? Vão serrar? Mas não aconteceu nenhum acidente! As crianças se organizam e os conflitos são [bem] resolvidos por elas. Então elas mostram que são potentes.

Território do Brincar menino com facão

 Assistir o brincar de diferentes faixas etárias [juntas] provocou os educadores. O brincar na Educação Infantil isola os pequenos. Planejamos o brincar dos pequenos nos intervalos do brincar dos grandes por proteção. Os pequenos tem muita admiração pelas brincadeiras dos grandes: como conseguem subir numa árvore tão alta e construir casinhas tão lindas? Isso desperta nos pequenos a vontade de aprender e crescer. Os pequenos só olham [os grandes]. Parece que não estão fazendo nada. Depois, de repente, eles sabem fazer também!Quando tem só uma baixa etária brincando é difícil isso acontecer.

Território do Brincar Comecei a contemplar o brincar das crianças, observar e perceber o quão rica a brincadeira pode ser.
Quando a criança está brincando não é hora de descanso, de café, de bater papo. É hora de olhar e entender o que essa criança está fazendo e o que está dizendo sem palavras. É o que ela fala sem falar. Conseguir escutar o corpo das crianças que estão dizendo tudo corporalmente.

 Qual é o gesto que trazemos dentro de nós que é um exemplo para a criança imitar? O que o pai faz na frente do filho? O que ensina? Agora, qual é o meu papel enquanto adulto? O que estou fazendo na frente das crianças? O que é digno de ser imitado?

Território do Brincar indios Tem criança que a primeira coisa que faz de manhã, quando chega [na creche], é pegar todos os móveis para construir casinha. Percebi que às vezes a casinha era construída mas não era ocupada pela criança. Em outro momento ou outro dia essa casinha passava a ser ocupada. Então, tem o tempo e o espaço que a criança precisa para fazer essa brincadeira. Será que estamos deixando a criança ser criança? É muito difícil observar e ser neutro. É se colocar na posição de mediador e não de dono do conhecimento. É difícil, para nós, professores aguentar [essa posição] porque fomos formados para responder. O professor é formado nas formações de pedagogia a sempre intervir. O Território do Brincar está mostrando para a gente se recolher.

→ Uma atividade de formação pode ser organizada com esse material provocador.
Nossa sugestão é que os sete trechos que destacamos podem ser impressos e entregues a grupos de educadores para que sejam lidos e discutidos. No final da atividade, numa plenária, os grupos podem apresentar seus trechos e suas conclusões. Propomos algumas questões a serem respondidas a partir dos depoimentos selecionados:

  • O que você acha que levou o educador a dar tal depoimento?
  • Você concorda ou não concorda?
  • Acha que pode mudar algo no seu dia a dia?
  • Sua postura é de interferir no espaço e nos materiais ou de conduzir as brincadeiras?

O documentário Território do Brincar Diálogo com Escolas é um material valioso que enxerga a infância dos variados contextos do Brasil. Mas o sabor que ele deixa é de uma infância histórica e universal. Que aconteceu quando éramos pequenos e que deve acontecer sempre. A pesquisadora Liselott Olsson afirma que quando permitimos, as crianças desfrutam de experimentação vital, intensa e indomável. Escolhem essas experiências no lugar de se dedicarem a pesquisas já estabelecidas. Crianças vivas, criativas e investigadoras de si e do mundo.

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Os depoimentos destacados do documentário Território do Brincar Diálogo com Escolas pertencem a educadores das instituições:

  • Espaço Alana, São Paulo, SP
  • Colégio Oswald de Andrade, São Paulo, SP
  • Casa Amarela Maternal e Jardim de Infância, Florianópolis, SC
  • Colégio Sidarta, Cotia, SP
  • Escola Vera Cruz, São Paulo, SP
  • Escola Vivaverde, Bragança Paulista, SP

livro e DVD Território do Brincar Diálogo com EscolasUm livro com artigos interessantes de diversos educadores e DVD do documentário pode ser adquirido on line.

No site do Território do Brincar você pode conhecer mais sobre a Renata Meirelles, o David Reeks e os projetos. No site estão vídeos do percurso da dupla e fotos e dicas de brincadeiras de crianças de vários pontos do Brasil. Vale a pena conhecer!

Já falamos sobre outros projetos do Território e conversamos com a Renata Meirelles nas postagens:

Território do Brincar – num filme de brincadeiras, dicas para brincar com os olhos e o coração!
Renata Meirelles conta como surgiu o livro Cozinhando no quintal
Renata Meirelles fala sobre tanque de areia e o tempo do brincar

Bibliografia:
Liselott Olsson: Eventicizing Curriculum – Learning to Read and Write through Becoming a Citizen of the World http://journal.jctonline.org/index.php/jct/article/viewFile/173/08olsson.pdf

 

 

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Comentários para Brincadeira livre ou conduzida?

  1. Rejane Maria da Silva Oliveira diz:

    Na creche onde trabalho, há também o medo das educadoras, em as crianças se machucarem, na hora da brincadeira, mas aos poucos estamos compreendendo que é preciso saber ter o equilíbrio entre a segurança da criança e o direito que ela tem de poder explorar o mundo que a cerca, para poder tornar-se um adulto seguro e feliz.

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