Coordenador pedagógico e formação de professores: tudo a ver!

O papel do coordenador pedagógico ainda é nebuloso para muitos educadores e instituições. Seja por falta de clareza das atribuições deste profissional, seja pelas condições de trabalho pouco favoráveis, frequentemente  a função de formador atribuída ao coordenador é atropelada pelo “bombeirismo pedagógico” (Madalena Freire). Cobrir a falta do professor, atender o familiar que chegou de repente, sair correndo para comprar material e atender o telefone, são alguns dos incêndios que o coordenador se sente obrigado a apagar no seu dia a dia que, infelizmente, rouba suas atenções e o afasta da formação continuada da equipe.

A realidade das creches públicas brasileiras está caminhando cada vez mais para o modelo conveniado. As prefeituras tem estabelecido convênios com instituições particulares (Associações, ONGs e OSCIPs) para compor uma parceria em torno da educação das crianças de 0 a 3 anos e 11 meses.

O problema dessa iniciativa é que os valores repassados pelas prefeituras aos parceiros não sustentam o pagamento de horários rotineiros e exclusivos de formação, estudo, pesquisa e planejamento dos profissionais. Assim, a formação da equipe e o acompanhamento individual do trabalho docente é raramente implementado.

Ah, mas existem as paradas pedagógicas mensais!
O encontro mensal que reúne toda a equipe é utilizado para discutir assuntos administrativos, implementar a avaliação anual (indicadores de qualidade), organizar os espaços e materiais planejados para as atividades e preparar eventos e celebrações. Sobra pouco tempo para trabalhar questões formativas que, quando abordadas, acabam por se perder no longo intervalo entre uma parada e outra.

Na nossa trajetória como formadoras de educadores de creches, identificamos algumas estratégias que cavam brechas na rotina para que os coordenadores possam organizar encontros com os professores. As situações abaixo têm apresentado bons resultados:

  1. Mini reuniões de 40 minutos

É possível organizar um calendário de pequenos encontros com o(s) professor(es) de cada turma, rodiziando a atuação em sala dos volantes, auxiliares ou berçaristas. Estabelecer alguns dias por mês para este fim, permite que professores e coordenadores se reúnam exclusivamente para refletir sobre as práticas, pensar sobre as conquistas, interesses e necessidades das crianças, e identificar pistas para os futuros planejamentos.

  1. Ocupação Creche

Algumas instituições promovem momentos de atividades coletivas, que reúnem todas as crianças e parte dos professores. Em situações como essas, o coordenador pode se reunir com pequenos grupos de professores para trabalhar o acompanhamento da prática docente e desenvolver a formação.

Como isso é feito?
No CEI Shangri-lá, SP, diariamente, crianças e famílias chegam à creche e encontram um espaço coletivo de brincadeiras organizado na quadra. Uma dupla de professores por semana planeja cantos de atividades diversificadas, organiza o espaço e, juntamente com o resto da equipe, recebe os pequenos e os familiares com brincadeiras.
Nesse momento, o coordenador pedagógico pode se encontrar com grupos de professores.

Atividade coletiva CEI Shangri-lá

No CEI Santa Marina, SP, acontece a “ocupação creche” com a organização de salas ambiente, em algumas tardes da semana. Cada sala se transforma numa proposta de atividade voltada a todas as crianças, independente da turma à qual pertençam. As crianças podem escolher onde brincar e o tempo que dedicarão a cada brincadeira. Cada sala tem um professor responsável por observar, cuidar e intervir nas brincadeiras e pesquisas. Além de oportunizar às crianças que se relacionem e brinquem com outras crianças e adultos, a coordenadora pode se reunir com um grupo de professoras, em dias alternados.

atividade coletiva CEI Santa Marina

Nas sugestões acima, um planejamento bem elaborado e o esforço coletivo favorecem o trabalho formativo do coordenador com a equipe e os avanços na prática pedagógica da instituição. Mas é primordial que o coordenador priorize essa ação e sustente o seu papel de líder do processo. Intercorrências e “bombeirismos pedagógicos” não podem desviar a presença e o foco do profissional.

Organização dos encontros de formação

Imbuído de compromisso e dedicação, o coordenador pedagógico deve preparar os encontros com os professores levando em conta os seguintes aspectos:

  • A frequência das reuniões – não existe vínculo e nem formação que se resista à inconstância e à distância entre os encontros.
  • O planejamento do encontro – com a definição do tema a ser discutido, dos textos teóricos e a preparação de leituras e registros das práticas (pelos professores).
  • A elaboração de uma pauta – importante para definir o tempo dedicado a cada assunto, garantir que o planejamento não seja “guloso” (maior que o tempo disponível) e colocar o grupo a par dos acontecimentos: sem surpresas e sem ansiedades!
  • A preparação de um espaço acolhedor e carregado de marcas – uma toalha diferente na mesa, uma vela perfumada acesa, uma vasinho de flores, uma bandeja com água, café, chá, suco, frutas ou bolachinhas. Um ambiente caracterizado para colocar os professores numa atmosfera de estudo.
  • A avaliação – no final é preciso avaliar a reunião com perguntas que favoreçam o levantamento dos sentimentos aflorados no encontro, do que ficou mais claro, das dúvidas e dos assuntos que ainda precisam ser aprofundados. Com base na avaliação, podem ser estabelecidos com os professores, alguns dos itens da pauta do próximo encontro. Uma avaliação sintética (condensada) ajuda os professores a se perceberem no percurso da própria formação, e também o coordenador, que se posiciona para planejar o próximo encontro. Sugerimos algumas perguntas para inspirar o coordenador a criar o seu próprio modo de avaliar:
    • Que palavra você leva desse encontro?
    • Que sabor esse encontrou deixou?
    • Qual conteúdo trouxe luz? Qual conteúdo escureceu?
    • Qual conteúdo trouxe desejo de experimentar?
    • Qual conteúdo trouxe desejo de saber mais?

Reunião de formação creche

Assim, além de atender as famílias, alinhar a prática ao Projeto Político Pedagógico da escola e implementar uma cultura de formação continuada, cabe ao coordenador pedagógico:

  • construir vínculo e espírito de grupo entre os docentes e se colocar ao lado do professor como apoiador do trabalho pedagógico;
  • estudar a teoria para promover a formação dos professores;
  • assumir o papel de autoridade diante da equipe, sem exercer o autoritarismo;
  • provocar reflexões a respeito da prática pedagógica e co-responsabilizar-se pelo trabalho desenvolvido com as crianças;
  • articular o coletivo da escola em torno de uma educação de qualidade.

Segundo o professor de Pedagogia da Universidade de Barcelona, Francisco Imbernón, “a formação em serviço requer um clima de real colaboração entre os pares” porque não acontece formação num clima de isolamento ou de solidão pedagógica. Para o espanhol, “quem não se dispõe a mudar não transforma a prática. E quem acha que já faz tudo certo, não questiona as próprias ações” e, consequentemente não avança.

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PARA SABER MAIS…

  Recomendamos a leitura de dois autores essenciais para a formação do coordenador pedagógico:

Madalena Freire – Educador, educa a dor. São Paulo: Paz e Terra, 2008.

Vera Maria Nigro de Souza Placco – diversas publicações:
O coordenador pedagógico e a legitimidade de sua ação, 2017
O coordenador pedagógico e a formação centrada na escola, 2013
O coordenador pedagógico e questões da contemporaneidade, 2012
O coordenador pedagógico e o espaço de mudança, 2010
Todas da Editora Loyola.

  Artigo no site Gestão Escolar: Francisco Imbernón fala sobre caminhos para melhorar a formação continuada de professores

  Algumas postagens também abordam esse tema:

 

 

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3 Comentários para Coordenador pedagógico e formação de professores: tudo a ver!

  1. Simplesmente amei esse site. Me ajudou muito em meu trabalho e na forma e abordar meus professores. Muito rico em dicas e orientações.

  2. Cassia Maria Lima de oliveira diz:

    É com um prazer enorme que conheço esse blog, simplesmente adorei! Me foi apresentado por uma supervisora da PMSP e ela me mostrou um norte,estou coordenadora em um cemei,e claro, muitas vezes me perco,e hj parece que este post estava conversando comigo,obrigada!

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