Planejamento 2016: direções e caminhos

Como pensar nos aspectos mais importantes do planejamento anual para não esquecer o fundamental? Alguma dica ou roteiro? É hora do Planejamento 2016!

planejamento 2016

Três princípios devem guiar o projeto pedagógico da unidade de Educação Infantil:

  • éticos (autonomia, responsabilidade, solidariedade, respeito ao bem-comum, ao meio ambiente e às diferentes culturas, identidades e singularidades);
  • políticos (direitos de cidadania, exercício da criticidade, respeito à ordem democrática);
  • estéticos (sensibilidade, criatividade, ludicidade, liberdade de expressão nas diferentes manifestações artísticas e culturais).
    (Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil )

– Como podemos estudar, discutir e colocar em prática estes princípios?

-> Começando pelo começo: revisitando conceitos e registros.

plataforma Tempo de Creche

 

1. Pensar na fundamentação: revisar conceitos

Os projetos anuais geralmente relembram em seu início a visão de criança, aprendizagem e Educação Infantil. Uma dica é rever estes conceitos, discuti-los e adequa-los se houver mudanças no pensamento da equipe.

Os conceitos descritos nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil e na versão provisória da Base Nacional Comum Curricular podem promover conversas:

CRIANÇA
Sujeito histórico e de direitos que, nas interações, relações e práticas cotidianas que vivencia, constrói sua identidade pessoal e coletiva, brinca, imagina, fantasia, deseja, aprende, observa, experimenta, narra, questiona e constrói sentidos sobre a natureza e a sociedade, produzindo cultura. (Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil )

– Você concorda com essa visão?
– Quais aspectos da criança ela aborda?
– Quais dimensões dessa visão de criança foram destaques no trabalho da instituição nesse período?
– Quais dimensões precisam ser reforçadas?

EDUCAÇÃO INFANTIL
A Educação Infantil em nosso país, nas ultimas décadas, vem construindo uma nova concepção sobre como educar e como cuidar de crianças de zero a cinco anos em instituições educacionais. Essa concepção deve buscar romper com dois modos de atendimento fortemente marcados na história da Educação Infantil: o assistencialista, que desconsidera a especificidade educativa das crianças dessa faixa etária, e também o escolarizante, que se orienta, equivocadamente, por práticas do Ensino Fundamental. (Base Nacional Comum)

– O que você e sua equipe pensam sobre essa visão?
– O trabalho da sua instituição está adequado a esta visão de Educação Infantil? Como?

APRENDIZAGEM E CURRÍCULO
Conjunto de práticas que buscam articular as experiências e os saberes das crianças com os conhecimentos que fazem parte do patrimônio cultural, artístico, ambiental, científico e tecnológico, de modo a promover o desenvolvimento integral de crianças de 0 a 5 anos de idade. (…) o currículo na Educação Infantil acontece na articulação dos saberes e das experiências das crianças com o conjunto de conhecimento já sistematizado pela humanidade, ou seja, os patrimônios culturais, artísticos, ambientais, científicos e tecnológicos. (Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil )

 O posicionamento em relação aos processos pedagógicos na Educação Infantil parte da concepção de que a construção de conhecimentos pelas crianças nas unidades de Educação Infantil, urbanas e do campo, efetiva-se pela sua participação em diferentes práticas cotidianas nas quais interagem com parceiros adultos e companheiros de idade. (…) elas (crianças) precisam imergir nas situações, pesquisar características, tentar soluções, perguntar e responder a parceiros diversos, em um processo que é muito mais ligado às possibilidades abertas pelas interações infantis do que a um roteiro de ensino preparado apenas pelo/a professor/a. (Base Nacional Comum)

– Como as experiências e pesquisas das crianças foram consideradas no trabalho do ano que passou?
– Como os interesses e proposições das crianças foram encaminhados pela equipe da creche?
– Qual a relação entre currículo e aprendizagem para a sua instituição?
– Cabe falar em currículo pré-definido para os pequenos? Como pensar, então, os planejamentos para as propostas da Educação Infantil?

balc3a3o-dicaLeia mais sobre a proposta provisória da Base Nacional Comum Curricular nas postagens:
Base Nacional Comum Curricular: uma referência prática? Você decide!
Base Nacional Comum Curricular: a criança como protagonista

 2. Levantamento de informações

-> Análise de Registros

Perceber os acertos e as fragilidades das ações realizadas durante o ano, levantar os recursos de espaços e materiais e refletir sobre a cultura da comunidade são pistas para pensar e elaborar o planejamento anual da creche. Mas só de falar no assunto, muitos coordenadores têm arrepios!

Organizar um planejamento norteador para o próximo ano é tão fundamental quanto planejar o jantar de uma festa. Sem pensar nos pratos, pesquisar as receitas e comprar os ingredientes, não há festa que resista!

Essa organização de informações se inicia com levantamento, discussões e reflexões com a equipe. Faça tabelas coletivas numa reunião, registrando todos os dados levantados e os encaminhamentos.

-> Avaliar a Rotina: tempos, espaços e materiais

Outros aspectos são importantes para encaminhar planejamentos e propostas:

Tempos

Vale a pena pensar no uso e na adequação dos tempos específicos da Rotina para avaliar os processos de aprendizagem que ela possibilita.
– Os tempos dos momentos da Rotina favoreceram o desenvolvimento de mais autonomia das crianças?
– Como foi a vivência dos tempo da rotina: adequado, inadequado, atropelado, folgado, monótono e sem desafios, dinâmico e desafiador, respeitou ou não as singularidades das crianças.

planejamento o que a criança fazEspaço

– Quais os espaços disponíveis na instituição?
– Eles foram aproveitados no ano que passou?
– É possível pensar em outros espaços e situações para ampliar experiências?
– Como garantir que os professores realmente desenvolvam planejamentos contemplando organizadamente cada ambiente?

Materiais

– Quais materiais foram mais utilizados?
– Quais materiais foram pouco utilizados?
– Por quê?
– Que outros materiais podem ser explorados com base no que aconteceu durante o ano? – Como conseguir esses novos recursos?

Lembrar do que precisa ser complementado, consertado, adquirido etc.:

  • Brinquedos em geral,
  • Brinquedos de largo alcance (não estruturados),
  • Brinquedos de parque
  • Livros,
  • Materiais para artes visuais,
  • Instrumentos musicais,
  • Mobília,
  • Obstáculos para percurso,
  • Jardim, plantas, vasos, terra, areia

-> Avaliar eventos e produção cultural

 Os temas e aspectos da cultura selecionados pela creche tem o objetivo de ampliar o repertório dentro de um contexto significativo para a comunidade a qual pertence. Uma “cultura de consumo” ou importada, que já é vivenciada em casa não necessariamente precisa estar presente na creche como um evento cultural de destaque. As culturas tradicionais da região são referências importantes para serem desenvolvidas na instituição, na medida em que são valorizadas e geram um sentimento de pertencimento nas crianças.

– Quais eventos foram trabalhados na creche?
– Quais temáticas culturais foram desenvolvidas com as crianças?
– Em quais momentos houve a participação da família e da comunidade?
– Levantar os aspectos relevantes e significativos dessas ações para as crianças, para as famílias e para a comunidade.
– O que é típico e ritual na instituição e na comunidade?
– O que pode ser inovado no sentido de ampliar o repertório cultural?

balc3a3o-dicaLeia mais sobre Datas Comemorativas e temas nas postagens:
Datas Comemorativas: muito além das festas!
O que planejar… alguma sugestão?
Planejamento da Educação Infantil e as datas comemorativas
Ana Helena fala sobre datas comemorativas na creche

 -> Avaliar a relação com as famílias

Quando uma criança entra na escola ela vem com o “pacote inteiro” – traz consigo uma história, uma família e um modo peculiar de ser, viver e se relacionar que vem ancorado na sua experiência pessoal e doméstica, pois cada indivíduo e cada família é de um jeito, tem seus hábitos, tradições e costumes. (Tania Fukelmann Landau e Lena Bartman Marko).

A escola hoje, tornou-se um espaço potencial de troca e crescimento mutuo, onde os pais podem conversar e refletir sobre a infância de seus filhos e a escola pode observar e conhecer os pais e aprender com eles. E, neste sentido ela precisa criar um ambiente acolhedor que inspire e propague confiança. (Tania Fukelmann Landau e Lena Bartman Marko).

balc3a3o-dicaLeia mais na postagem Diálogos sobre relações: famílias e creches unidas na educação I de Tania Fukelmann Landau e Lena Bartman Marko.

– A creche reconhece a identidade cultural de suas famílias pesquisando sobre ela em reuniões e entrevistas?
– A creche se preocupa com a formação e ampliação de conhecimento dos pais a respeito da educação e do desenvolvimento infantil?
– Quais momentos de relação e quais espaços de acolhimentos foram utilizados com pais e familiares?
– Houve espaços de escuta? Foram suficientes ou será preciso rever e prever momentos de maior contato e intercambio de informações e construção de parceria?

O diálogo ainda é a melhor maneira de esclarecer pontos de vista, de trocar informações e construir conhecimentos que ajudam a manter a coerência e maior tranquilidade nesta tarefa conjunta de educar e cuidar. (Tania Fukelmann Landau e Lena Bartman Marko). Ao refletir sobre as estratégias adotadas durante o ano e seus resultados podemos identificar como intensificar os vínculos e as parcerias.

balc3a3o-dicaLeia mais na postagem Diálogos sobre relações: famílias e creches unidas na educação II de Tania Fukelmann Landau e Lena Bartman Marko.

 3. Encaminhar o Planejamento

-> Construir vínculos

Elaborar planejamentos para a educação infantil significa estabelecer caminhos que favoreçam a construção de conhecimentos pelas crianças na participação em diferentes práticas cotidianas, pelas brincadeiras e interações. Nessa fase da infância, a criança aprende por meio de experiências realizadas com interesse e envolvimento pessoal. Crianças precisam se envolver com as propostas para aprender e construir conhecimentos.

– Como saber o que vai interessar os pequenos?
– Como planejar sobre interesses de crianças novas, que ainda não conhecemos e crianças que já conhecemos mas que retornarão das férias mais amadurecidas?

campo de experiencias faz de conta

A resposta está em planejar direções e não os caminhos propriamente ditos.

-> Primeira Direção: conhecer as crianças e deixar as crianças nos conhecerem!

Planejar as primeiras semanas do ano com essa intenção é fundamental para construir vínculos e definir propostas pedagógicas compatíveis à singularidade e interesses das turmas.

Para conhecer de fato os pequenos podemos organizar espaços e materiais provocativos, de maneira a permitir liberdade de interação e favorecer o olhar intencional do professor para registrar suas percepções sobre o grupo.

Algumas inspirações:

Planejar um momento de chegada de pais e responsáveis à instituição, com um tempo para conviverem e desfrutarem do espaço juntos. Por exemplo, organizar uma sala com brinquedos para escolher, materiais de desenho etc..

Leia mais sobre esse tema nas postagens: Adaptação em processo: você já é o brinquedo favorito de suas crianças e Adaptação: ansiedades e possibilidades

Planejar antecipadamente a apresentação dos ambientes da creche para os pais para que, no primeiro dia, sejam eles a apresentarem a creche para seus filhos. (leia sobre esse assunto na postagem: Primeiro dia na creche: um olhar novo de tudo)

Planejar uma semana com diferentes formas de organização das salas e propostas variadas de materiais. Receber os pequenos dessa maneira vai surpreendê-los, provoca-los e interessa-los na instituição. Pode-se repetir esse processo por duas ou mais semanas, seguidas ou intercaladas, de acordo com a leitura do grupo.

-> Segunda direção: planejar a partir dos Campos de Experiências

De acordo com a versão inicial da Base Nacional Comum, o trabalho com os campos de experiências das crianças é a direção para desenvolver a educação na primeira infância. Assim, as orientações para planejar o ano dos pequenos e de seus professores poderão ser construídas em situações significativas de acordo com as faixas etárias e nos seguintes campos:

  • campo de experiencias identidadeO EU, O OUTRO E O NÓS – o campo das identidades: quem sou eu; quais são os meus modos de agir e pensar o mundo; quem é o outro, como ele age e pensa; como podemos nos relacionar; como posso conquistar, aos poucos, minha autonomia.

– Quais situações da rotina favorecem experiências nesse campo?
– Quais propostas (tempo, espaço, materiais e desenvolvimento) foram realizadas com bons resultados para inspirar pesquisas e direcionamentos à equipe?

  • CORPO, GESTOS E MOVIMENTOS – o tato, os gestos e movimentos do corpo (expressar-se, saltar, deslocar-se, localizar-se) e reconhecer sensações em si mesmo e no outro.

– Quais propostas ampliaram e enriqueceram as aprendizagens dos pequenos nestes aspecto?
– Quais espaços e materiais favorecem uma maior movimentação e desafios expressivos?

campo de experiencias corpo

  • ESCUTA, FALA, PENSAMENTO E IMAGINAÇÃO – campo da linguagem oral e textual. Construção das estratégias de comunicação, organização do pensamento e fruição literária, faz de conta e imaginação.

– Quais momentos da rotina favorecem as narrativas individuais e coletivas e o contato com livros e histórias?
– Como organizar espaços para estimular a imaginação, o faz de conta e acolher o contato com a leitura?

campo de experiencias letramento

  •  TRAÇOS, SONS, CORES E IMAGENS – campo das Artes e expressões. Expressar-se por meio das múltiplas linguagens no contato com as manifestações culturais mais significativas, materiais e tecnologias, realizando produções com gestos, traços, desenhos, modelagens, danças, jogos simbólicos, sons e canções.

– As crianças tem oportunidade de desenhar e pesquisar seu próprio traço e marcas todos os dias? As experimentações das artes visuais são ampliadas com materiais para modelagem, construções tridimensionais e tecnologias?
– As crianças tem oportunidades para entrar em contato com imagens e, quando possível, obras de arte?
– A cultura musical é trabalhada na creche?
– Existe um repertório pensado a partir  das tradições musicais e sobre a ampliação cultural de música? (estilos e gêneros musicais diversos e de outros povos).
– As crianças tem oportunidades para pesquisar e criar sons?
– A dança e expressões do corpo são trabalhadas?

  • ESPAÇOS, TEMPOS,  QUANTIDADES, RELAÇÕES E TRANSFORMAÇÕES – campo do conhecimento matemático e das ciências da natureza. Compreender os ambientes em que vive e suas características e qualidades: como e porquês das coisas. Observar, medir, posicionar, quantificar, comparar, relacionar, explicar e registrar.

– Qual a percepção do educador para o trabalho com esses conceitos na prática do dia a dia?
– O professor valoriza e registra as hipóteses levantadas pelas crianças para aprofundar o aprendizado nas brincadeiras?

balc3a3o-dicaLeia mais sobre Campos de Experiências na postagem Campos de experiências todos os dias!

Os campos de experiências são os nortes do desenvolvimento dos conhecimentos das crianças. Mas toda e qualquer ação deve estar centralizada na criança e seus interesses como pesquisadora. Isso é priorizar o protagonismo dos pequenos na condução dos planejamentos diários. O grande planejamento anual, como destacamos, é apenas uma direção, porque os caminhos precisam ser construídos em parceria com as crianças, nas reflexões do dia a dia.

Balão-crédito-imagensAs fotografias dessa postagem são do Berçário II das professoras Fabiana Guimarães e Sandra Aparecida Ferrari, da CEI Nossa Turma, SP.

Balão-Para-Saber-MaisLeia mais sobre planejamento na Educação Infantil nas postagens:
Planejamento da Educação Infantil 2015
Planejamento da Educação Infantil: 10 reflexões para as creches
Preparar atividades: o desafio de planejar o imprevisível

 

 

Postado em Coordenação e Gestão e tags , , , , . Marcado com permalink.

19 Comentários para Planejamento 2016: direções e caminhos

  1. Dilma Vieira de Aquino Silva diz:

    Estou trabalhando com uma turma do Curso Normal em Nível Médio – Professor de Educação Infantil e sempre estou usando ou indicando para as alunas, este Site, porque sempre encontramos assuntos que dizem respeito ao que estamos trabalhando. Obrigada por nos ajudar a pensar e refletir sobre o que queremos para a educação infantil.

  2. Mar diz:

    Gostei muito, muito bom o direcionamento q vcs partilham com nós educadores, faz muita diferença e enriquece nosso aprendizado

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *