Que escola queremos para as crianças e suas famílias?

A educação infantil é aquilo que queremos que ela seja.
Mas o que queremos que ela seja?
 Uma instituição voltada só para a criança? Ou um fórum, um lugar de encontros, cultura e educação para a sociedade?
Como a escola pode ser um espaço inclusivo para a sua comunidade?
Como as famílias, os moradores do entorno, os professores e os alunos podem se sentir pertencentes para interagir e desfrutar desse polo de educação e cultura?
Quem participa da educação das crianças nas creches e pré-escolas?
Qual o sentido de viver o cotidiano da Educação Infantil?

Se acreditamos em aprendizagem pela experiência e experimentação, a escola também deve pensar sobre suas experiências, crenças e políticas, contestar e resistir àquilo que não acredita, para poder se reinventar.

O que não quer dizer que devamos fazer experiências com nossas crianças e a comunidade! Uma escola não determinista, isto é, que se constrói a partir da leitura dos momentos e de seu público, age de mente e coração aberto e não se isola.

Esse pensamento foi trazido pelo Professor Peter Moss, especialista em educação da primeira infância da Universidade de Londres, no encontro V Encontro Internacional de Educação, promovido pela Fundação Antonio Antonieta Cintra Gordinho, em São Paulo.

Durante o evento, perguntei ao professor como podemos promover o engajamento das famílias e da comunidade na escola, uma vez que esse é um aspecto ainda frágil na maioria das escolas brasileiras.

O professor foi enfático: a comunidade se aproxima quando lidamos com públicos, desejos e necessidades REAIS!

Não é raro idealizarmos os alunos, seus familiares, nossos colegas professores e a comunidade do entorno da escola. Ocorre que educar é dialogar com as características do público. Para isso, é preciso conhece-lo com a mente e o coração aberto, livre de pré-conceitose generalizações.

Dito isso, respostas “prontas” surgem instantaneamente na nossa cabeça: ah, mas já sei o que funciona e o que não funciona! Os anos de experiência não contam mais?

Sim e não!

“O que funciona” pode ser uma generalização, um olhar acomodado que não percebe os indivíduos REAIS. É o mesmo olhar que se fecha e não é capaz de identificar desejos e necessidades das crianças e de seus familiares. Só o olhar crítico e renovado promove a construção de significados.

E quem olha com abertura, registra. Por isso, o registro antes de ser uma prestação de contas ou um hábito cansativo e burocrático, é uma arma para despertar o professor e romper com o olhar acomodado, nos diz Madalena Freire. É essa atenção estudada, intencional, sincera e dedicada ao aluno e à comunidade escolar que constrói significados e desenvolvimento.

Por outro lado, experiência corta caminhos longos e tortuosos.

Ao observar e acompanhar as ações das crianças e colecionar estratégias sobre modos de agir e intervir, o professor pode tomar decisões com mais presteza e eficiência, e criar encaminhamentos e intervenções cada vez mais interessantes.

A reflexão sobre a prática traz repertório e segurança.

O olhar renovado promove a conexão com a singularidade.

Henri Wallon, o famoso pensador estudado nos cursos de pedagogia, ressaltava a importância dos professores se apoiarem no conhecimento da fundamentação, compreendendo, por exemplo, os estágios de desenvolvimento das crianças. Mahoney e Almeida, estudiosas de Wallon, afirmam que identificar as características de cada estágio do desenvolvimento infantil permite planejar atividades que favorecem a integração entre essas características e a singularidade das crianças. Porém, Wallon também alertou toda a comunidade francesa da sua época sobre o valor de considerar o meio, isto é, a realidade do contexto dos alunos para compor o cenário da educação. Já na década de 1940, Wallon esclarecia:

O meio é um complemento indispensável ao ser vivo. Ele deverá corresponder a suas necessidades e as suas aptidões sensório-motoras e, depois, psicomotoras… Não é menos verdadeiro que a sociedade coloca o homem em presença de novos meios, novas necessidades e novos recursos que aumentam possibilidades de evolução e diferenciação individual. A constituição biológica da criança, ao nascer, não será a única lei de seu destino posterior. Seus efeitos podem ser amplamente transformados pelas circunstâncias de sua existência, da qual não se exclui sua possibilidade de escolha pessoal… Os meios em que vive a criança e aqueles com que ela sonha constituem a “forma”que amolda sua pessoa. Não se trata de uma marca aceita passivamente.

Nesse sentido podemos pensar sobre a importância do entorno e o engajamento da comunidade na escola. Muitos educadores comentam com a voz cheia de frustração, sobre a ausência de pais e familiares nos eventos escolares e a dificuldade de se estabelecer uma parceria em torno da educação das crianças. Mas esquecemos que esta dimensão das relações escolares não é diferente das relações que construímos com as crianças! Retomando a fala do professor Peter Moss, ao considerar a realidade dos indivíduos e do seu meio, é que podemos construir elos com as famílias e as comunidades:

Como são as famílias das crianças da escola?
Quais são as características sociais e culturais?
O que elas pensam sobre escola e educação?
O que elas esperam da escola?
O que elas querem saber? Como podemos alimentar esse desejo?
Quais aspectos da educação das crianças elas desejam e necessitam conhecer? Como abordar essas questões de forma construtiva e dialógica?
Quais problemas a comunidade vem atravessando e como e escola pode contribuir?
Quais aspectos culturais são importantes e significativos para a comunidade?
Quais celebrações favorecem o planejamento de eventos significativos?

Desse modo, ao conhecer a teoria e estabelecer um diálogo franco com o contexto, o professor pode se questionar e refletir sobre a própria prática para aprender com ela, agir com segurança, qualificar suas ações e viver o prazer de acompanhar as conquistas das crianças e o engajamento das famílias.

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