A arte no cotidiano da educação infantil: palavra de Mirian Celeste Martins

A educadora Mirian Celeste Martins conversou com a equipe do Tempo de Creche sobre a mediação cultural que os professores fazem ao apresentar obras de arte para as crianças e organizar a exposições da escola: a curadoria educativa. Para Mirian, selecionar e oferecer obras provoca oportunidades de discussão. As obras interrogam, promovem significados e as crianças respondem.

Tempo de Creche – Conhecendo o seu trabalho, entendemos que os professores, assim como os curadores dos museus e exposições, também fazem uma curadoria ao selecionar o repertório artístico e cultural que apresentam para seus alunos. Como você vê essa questão?

Arte para crianças

Mirian – Curador é aquele que cuida de uma exposição. Ele tem a ideia que orienta a exposição, pensando na seleção das obras e no modo como vão ocupar o espaço. Todas estas relações têm a preocupação de aproximar o público da exposição. O educador também quer aproximar as crianças da arte e, para isso, deve selecionar criteriosamente o que e como apresentá-la.

Para o educador e curador Luiz Guilherme Vergara, a curadoria impulsiona a educação do outro que está ali como aprendiz, aberto para experiências. Portanto, o responsável pela curadoria educativa é o promotor do encontro do visitante com a obra.

Tempo de Creche – Você identifica dificuldades nesse processo?

Ernesto NetoMirian – Sim, percebo o medo dos professores por não saberem falar sobre o artista. O professor quer conhecer a biografia e quando não a localiza, fica aflito. Em relação à arte contemporânea ele tem mais medo por ter menos elementos conhecidos.

Escolhemos e apresentamos uma obra pelo que ela fala. Ela traz algo que vai gerar diálogo, porque a preocupação não é revelar o artista, o importante é a obra. Eu já apresentei artistas para meus grupos de alunos (universidade), sobre os quais não sabia nada a respeito. Fui pesquisar depois.

Assim, o ponto de partida não é a vida do artista, na medida em que as biografias não revelam o processo de criação, não informam circunstâncias e motivações para a realização da obra: se ela foi feita nos períodos iniciais, depois de encontrar alguém, ou em meio a outro fato relevante. Isto não está presente nas biografias. Portanto, a biografia enquanto currículo não é o mais importante.

Quando olhamos um quadro da artista mexicana Frida Kahlo, pensamos na dor, no físico. Não importa se sabemos ou não a história da artista. Não é negar a história, mas é o contato com a obra que dispara questões: o que estou vendo? Somos movidos pela história que a própria obra traz em si. O importante é como o artista viveu aquela sensação e a expressou. Isto está ali, presente na obra.

Espelho do Som

Maria Filippa Costa Jorge, educadora da 32aBienal (SP), conta-nos sobre a obra Espelho do Som, do argentino Eduardo Navarro – um dispositivo acústico conectava o visitante ao som de uma palmeira que estava do lado de fora do pavilhão de exposições. Uma criança maravilhada ao ouvir o som da palmeira tão distante, cochichou no dispositivo que emanava o som: “Obrigado!” Veja a devolutiva da criança! É essa relação que as crianças têm com as obras. De espanto, de admiração de estranhamento…

Tempo de Creche – Os professores trabalham com as produções das crianças, organizando e expondo. Podemos dizer que ele também faz uma curadoria educativa nesse processo? Ou a curadoria educativa só diz respeito a obras de arte?

Mirian – Os professores são curadores no momento que selecionam o que apresentam às crianças para provocar encontros com a arte, e também quando organizam uma exposição na escola.

Quando um curador seleciona uma obra, ele está gerando uma relação que se estabelece a partir de uma ideia, de um conceito. Na prática, qual conceito o professor quer trabalhar com suas crianças? Será a própria obra de um artista, uma temática ou o processo? Por exemplo, se a ideia são as cores da natureza, esse é o ponto que vai nortear o trabalho do professor. Assim, pensamos a curadoria enquanto a relação entre o que se quer dizer, a produção e apresentação das produções das crianças.

Escola PrimeiraPortanto, Curadoria Educativa não é só para obras de arte. Ele é um conceito mais amplo. Como consequência, é necessário ter um olhar aberto e referências.

Propus para meus alunos da Pedagogia a escolha de um objeto como ponto de partida de um trabalho. Uma turma escolheu o sapato. Pesquisaram inúmeras obras de arte e designers de sapatos, o que gerou uma ação de curadoria extremamente interessante. Sapato foi a palavra chave para inúmeras descobertas em tempos e lugares diferentes, com os mais variados objetivos.
No campo da arte, as possibilidades são muito amplas, o que demanda do professor a ampliação do seu referencial, para que não fique repetindo aquilo que já se sabe. O importante é pensar a proposta relacionando abras de todas as épocas e lugares diferentes, sem deixar de lado a arte contemporânea.

Tempo de Creche – Então, como você pode nos ajudar a pensar nas exposições de final de ano da Educação Infantil?

Mirian – Geralmente o professor como curador apresenta as atividades que ele desenvolveu durante o ano: eu fiz esta atividade com as crianças, depois esta e depois aquela outra … Parece que as crianças fizeram parte das experiências.

Mas o que se lê de cada criança individualmente? Nada!

Atelie CarambolaÉ impossível fazer esta leitura quando os trabalhos estão espalhados e classificados por atividades do professor. Assim, o que tem sido exposto são as ações do professor. Não se mostra o processo da criança no percurso do ano.

Eu lembro de uma exposição que organizamos em que a linha condutora tinha foco no processo da criança. Era possível ver o que cada criança fez nas várias ações que foram desenvolvidas ao longo dos projetos e como foi o percurso individual. O importante é que não perdíamos as a criança de vista. Tem-se como fio curatorial da exposição a produção da criança e, consequentemente, o processo do grupo e do professor.

Isto faz muita diferença na compreensão das famílias que relacionam o trabalho do professor ao que observam do processo das crianças. A exposição também pode ser uma experiência de aprendizagem para os pais, que ainda querem ver no trabalho das crianças o cotidiano na escola.

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2 Comentários para A arte no cotidiano da educação infantil: palavra de Mirian Celeste Martins

  1. Lane Mary Faulin Gamba diz:

    Fantástico! A profa. Míriam disse tudo em tão poucas palavras! Acho que precisamos de muitas publicações como está! A importância dá arte na educação infantil, o olhar para as imagens mais do que para a escrita, o olhar o processo mais que o produto… Lindo texto. Obrigada!

    • Lane Mary,

      Segue abaixo a resposta da professora Mirian Celeste.
      “Fico muito feliz com suas palavras. E agradecida, pois anima a seguir na luta para que a arte adentre mesmo na escola, como um saber sensível impulsionando a leitura de mundo!”

      Abraço

      Mirian Celeste

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