E.V.A.: o pai do papel crepom?

Lucila da Silva Almeida, parceira do Tempo de Creche e coautora do livro Práticas Comentadas para Inspirar, faz um desabafo de formadora: será que o EVA veio para substituir o ultrapassado papel crepom?

Reflexões e questionamentos da Lucila para os leitores do Tempo de Creche:

Já faz um tempo que me incomodo com o excesso de “decorações” feitas de E.V.A. observadas em muitas das instituições de educação que frequento, Educação infantil e Ensino Fundamental.

São enfeites que ocupam todos os espaços: banheiros, murais de aviso, murais coletivos, títulos de cartazes (como nos quadro de nomes), calendário, tabela de números ou  abecedários, cantinhos de leitura. Já cheguei a ver enfeites de E.V.A. até na área externa!

Os estilos decorativos são variados, com peças compradas prontas de personagens de desenhos animados ou dos clássicos Monica e Cebolinha vestidos a caráter para Festa Junina. Há também professores que se desdobram utilizando réguas e moldes com letras do alfabeto para escrever tudo o que se imagine em E.V.A. É uma verdadeira febre! É quase um critério para “ser professor”, assim como a pasta de modelos de atividade que as alunas dos antigos cursos de Magistério tinham que compor.

Eu particularmente chamo o E.V.A. de “pai do papel crepom”. Os professores mais velhos certamente se lembram do tempo despendido para fazer as inúmeras bolinhas de papel crepom usadas para completar as atividades inacabadas dos alunos, que rapidamente se cansavam da tarefa. Eu já fiz muita bolinha de papel crepom, quando era criança e estudava no antigo “Prézinho” e, depois, quando fui coordenadora pedagógica de Creche e precisava ajudar as professoras às vésperas das reuniões de pais.

Por sorte, durante meu processo de formação,  acabei descobrindo que Educação Infantil era muito mais potente do que apenas uma etapa preparatória para a etapa posterior do ensino. Percebi que precisava conhecer a criança de hoje, do tempo real e não me ater somente a propostas que visavam a aquisição da coordenação motora fina e ampla. Até porque essa aquisição era muito mais presente e consistente nos momentos menos monótonos e mais interessantes.

Enfim, embora as benditas bolinhas de papel crepom tenham deixado minha vida e por sorte a de muitas crianças e professores, elas ainda são práticas recorrentes em algumas instituições.

O papel crepom foi sumindo aos poucos, mas como o mercado de material “pedagógico” persiste e precisa vender, o E.V.A. assumiu  esse lugar. Hoje em dia há folhas de E.V.A. de todas as cores, desenhos e alguns até com gliter!

Contudo, sem entrar no mérito da beleza, questiono: por que os professores insistem em sobrepor modelos estereotipados às marcas das crianças? Por que as produções das crianças são desvalorizadas e minadas pela prática da “decoração” feita pelos professores? Por que utilizar referenciais homogêneos ao invés de abrir espaços à diversidade das produções das crianças e garantir a identidade de cada instituição?

Quando deixei a sala de aula e assumi a coordenação de um projeto de Educação Ambiental, passei a pensar de maneira ainda mais profunda sobre o uso do E.V.A.. Hoje questiono o tempo de degradação dos materiais, os modos de descarte e, nesse sentido, o uso do E.V.A. em geral, que para mim ficou ainda mais controverso. E você,  já parou para pensar sobre o E.V.A.?

O E.V.A. (etil, vinil e acetado) é um produto derivado de petróleo, não degradável, cuja destruição só é possível a altas temperaturas. Após transformar-se  em pó,  não fica solúvel e não é absorvido pelo solo. A queima deste material, “febre” em muitos lugares,  polui o ar, pois libera gás carbônico e contamina a atmosfera. No meio ambiente, o E.V.A. leva em média de 250 a 400 anos para se decompor!

Assim, não adianta continuar propondo práticas descoladas de uma função social real. Não dá para falar em educação, responsabilidade e sustentabilidade, e continuar usando este tipo de material nas paredes e espaços das escolas. É preciso tornar-se cada vez mais um professor questionador e não apenas um repetidor de atividades. É preciso considerar que a estrutura física das instituições tem seu lugar de fala, ela é espelho do que pensam os professores, do que se ensina para as crianças e, com isso, ela comunica nossas concepções.

É preciso ter em mente que ao propor uma “decoração” feita pelo professor, mesmo que a prática escolar seja pautada nas ações das crianças,  acaba-se por comunicar que as produções das crianças não são valorizadas. Então, por que não expor o que as crianças de fato fizeram?

Por outro lado, uma folha de papel é limitada para representar o que as crianças vivenciam e experimentam na educação infantil. Então, por que não decorar a escola com as produções e os registros fotográficos das aprendizagens?

Finalmente, se o E.V.A. representa poluição visual, conceitual e do meio ambiente, por que não utilizar materiais neutros e culturalmente significativos para enaltecer os processos de ensino-aprendizagem desenvolvidos na escola? Só assim podemos transmitir que acreditamos na criança ativa, potente e pesquisadora de si e do mundo, e na educação que se abre ao diálogo com crianças e famílias.

Lucila Silva de Almeida

Nós, do Tempo de Creche,

  • Gostamos do crepom para fazer tiras que esvoaçam ao vento, Barangandão, brincar de fazer roupa e fantasia, fazer birutas, boitatá e ver a cor do material se diluir na água.
  • Gostamos do E.V.A. para………….NADA! 😉 

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PARA SABER MAIS…

Lucila Silva de Almeida é pedagoga, especialista em Educação de Crianças de 0 a 3 anos, autora de livros, formadora do Instituto Avisa Lá e coordenadora do projeto ambiental Varre Vila.
Lucila é parceira da equipe do Tempo de Creche nas formações e nos livros Práticas Comentadas para Inspirar: formação de professores de creche (PNLD – Editora do Brasil) e Coleção Tangará (material para professores e crianças de 4 e 5 anos – Editora do Brasil – no prelo).

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3 Comentários para E.V.A.: o pai do papel crepom?

  1. Excelente texto. Trabalho com projeto de sustentabilidade e me sinto acolhida em seu texto. Trabalhar com esse tema é pensar no ambiente em que vivemo: natureza, social e econômico.Minhas alunas de estágio em Pedagogia já aboliram o EVA. Parabéns e Sucessos!

  2. Denise diz:

    E pensar no tanto que já fui criticada por isso. Sempre gostei de expor as atividades das crianças sem “enfeites” da professora (molduras ou qualquer detalhe). Sempre penso em valorizar o trabalho da criança, seja do jeito que for, porém já recebi críticas, mas agora lendo o texto fico super feliz e orgulhosa.

  3. Adriana Ferreira diz:

    Fico feliz com uma reportagem como essa, perdesse tanto tempo “enfeiando” o trabalho das crianças que no fim nem se vê o que realmente foi feito.. Chega de E.V.A.

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