Educação infantil faz diferença?

Feliz 2018!
Feliz Educação Infantil!
Abrimos as postagens deste ano com uma conversa em torno da reportagem publicada nesta segunda feira (8/01/2018), pelo jornal O Estado de São Paulo: “Só o acesso à educação infantil não é suficiente”.
Participaram do bate-papo a psicóloga e orientadora educacional da Escola Criarte, SP, Joyce Eiko Fukuda; a pedagoga e formadora, Lucila Silva de Almeida, e as três autoras do Tempo de Creche, Angela Rizzi, Maria Helena Webster e eu, Joyce M. Rosset.

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A reportagem do jornal apresenta uma entrevista realizada com a Professora Dana McCoy, da Escola de Educação de Harvard, renomada universidade americana. Na entrevista a professora compartilha as conclusões de uma importante pesquisa que analisou 22 estudos científicos publicados entre 1960 e 2016, para responder à questão: a Educação Infantil faz diferença na qualidade de vida das crianças e dos futuros adultos?

A pesquisadora conclui que sim. E nós, participantes dessa conversa, também!

A resposta pode parecer óbvia para nós que diariamente dedicamos estudo, trabalho árduo e amor nas creches e escolas do país. Mas essa resposta também pode ser entendida como ponto de partida para que perguntas mais importantes sejam formuladas.

Dana McCoy ressalta que a qualidade da educação praticada é o ponto crucial dessa questão. Educação infantil de qualidade tem sim impacto na vida das pessoas e pode proporcionar experiências que ajudam crianças a construir recursos para lidar com contextos difíceis, a exemplo de “famílias com severos problemas de adversidade, como violência e pobreza”, apontado pela pesquisadora. Segundo ela, “nesses casos, uma educação infantil de qualidade pode ter um papel de proteção”.

Então quem é responsável pela educação infantil?

Lucila responde que essa responsabilidade é compartilhada entre as famílias e a escola. Em qualquer contexto, é esta parceria que insere as crianças no mundo, apresenta-as à cultura e aos valores – experiências primordiais para toda vida.

É uma educação das sutilezas, daquilo que aos adultos parece simples, mas que é extremamente desafiador e complexo para os pequenos. Uma ajuda para que a criança possa descobrir que não está só no mundo e que há diferentes jeitos de se estar nele.

São parcerias com papeis diferenciados. À escola cabe estabelecer um espaço de desenvolvimento, socialização e aprendizagem, em que o afeto esteja naquilo que é proposto e disponibilizado às crianças.

Com isso, a escola favorece a vivência de novos e diferentes jeitos de cuidar e ser cuidado; se apresenta como um lugar de aprendizagem em que o brincar está garantido.

De fato, a pesquisadora comenta sobre a importância da garantia do tempo de brincar livre para a criança. O que pensar sobre isso?

Para a Angela, um possível desdobramento desse aspecto é tempo que é reservado ao brincar na rotina da escola.

O que normalmente é compreendido como livre nas creches e pré-escolas?

É o tempo que o professor “permite” às crianças nas atividades não dirigidas e, frequentemente, ele (professor) fica livre para fazer outra atividade (como as decorações das paredes, algumas lembrancinhas etc.). Neste caso, o professor se omite e não enriquece as propostas com sua interação e intervenções.

Na reportagem, Dana cita como resultados do brincar com liberdade de escolha o desenvolvimento da criatividade e a aprendizagem do funcionamento do mundo e do relacionamento entre as crianças. Mas, para que as crianças possam explorar as brincadeiras de forma independente ou com outras crianças, esse tempo de autonomia deve ser planejado e acompanhado pelo professor.

Fala-se então de “qualidade”. Quais seriam os critérios para realizar uma educação de qualidade?

Joyce Eiko responde:

Pode ser interessante pensarmos aqui a partir das respostas da professora Dana. Ela fala da importância de um “ambiente físico seguro e envolvente”, das interações afetuosas e estimulantes com as crianças, e das condições de formação do professor. Cada um desses aspectos pode ser entendido de infinitas maneiras! Assim, podemos desdobrar essas ideias:

  • Como entendemos que um ambiente é seguro? Falar sobre um ambiente seguro não quer dizer ausente de riscos. É só a partir de um ambiente seguro que a criança se permitirá explorar o espaço e o corpo, experimentar-se nas relações, enfim, correr riscos em termos motores, afetivos e cognitivos.
  • Como construir novos olhares para o que chamamos envolvimento? Dizer que um ambiente é envolvente pode abarcar sentidos diversos: como provocador da criatividade, convidativoàs interações e, ao mesmo tempo, acolhedor das emoções em sua diversidade. O envolvimento dá contorno ao corpo e à experiência, e é isso que permite que a criança se lance para novas descobertas.
  • É possível ampliar nossa compreensão sobre afeto e estímulo? Trabalhar para a construção de interações afetuosas e estimulantes envolve especialmente aquilo que é pequeno e singelo, como um balbucio, um gesto ou um olhar – o silêncio entre as canções ou pausas no meio das conversas que convidam ou estimulam a fala.
  • Como criar outros olhares para a questão da formação? Pensar em condições de formação do professor é refletir sobre políticas públicas, mas é também considerar o dia a dia da creche: como as relações se estabelecem em equipe, como se lida com erros, como se superam as adversidades. Fundamentalmente: como se constroem contextos de aprendizagem não somente para as crianças, mas também para os educadores.

A professora também afirma que “uma educação infantil de qualidade permite que as crianças desenvolvam habilidades sociais, emocionais e cognitivas que as ajudam a ter mais sucesso na vida escolar”.

Segundo Maria Helena, essa é uma afirmação que, em si, não gera discordância, mas é certo que ela nos leva a pensar em desafios: no dia a dia das creches, como são trabalhadas as habilidades sociais e emocionais?

Diante de tamanha valorização do aspecto cognitivo em nossa sociedade, há um trabalho que de fato valorize e promova as outras habilidades?

É interessante pensarmos que o olhar e a escuta para a singularidade de cada criança constrói, como outra face da mesma moeda, um trabalho com a diversidade no convívio coletivo. E bem sabemos que isso não é tarefa fácil! Congregar diferentes pensamentos, culturas, histórias e conviver com as singularidades é um aprendizado que se inicia na educação infantil, mas nunca termina.

Para Joyce Eiko, os profissionais que trabalham no cotidiano das creches e escolas, em todos os níveis de ensino, sabem o quanto as habilidades sociais e emocionais tendem serem vistas como “subsidiárias” da cognição, como se fossem requisitos ou fatores que devem ser trabalhados com um fim: o aprimoramento da inteligência. “João não consegue aprender porque não para quieto! Maria não presta atenção na atividade porque é muito agitada! Pedro não avançou nada neste semestre (referindo-se somente às atividades consideradas “pedagógicas e dirigidas”).

Sim, afirma Maria Helena, o olhar para as habilidades sócio emocionais como fundantes de todo ser humano e como “conteúdos educativos” parece estar em construção. Embora já “batidos no discurso”, entender os diversos aspectos como entrelaçados ainda é um desafio na prática.

Assim, é fato que essas habilidades são (e muito!) trabalhadas nas creches. Todos os dias, por todos os educadores. Talvez o desafio seja construir a intencionalidade dessas ações, a reflexão sobre elas como conteúdo pedagógico, e isso pressupõe valorizar as interações mais simples, que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia atribulado com tantas atividades.

Ao meu ver (Joyce M. Rosset), pesquisas de impacto na Educação são sempre delicadas e difíceis de realizar devido à variedade de abordagens, vieses e contextos levados em consideração. Buscam-se respostas definitivas e resultados generalistas. Assim, para que possamos aproveita-las vale mantermos as premissas de que mais importante do que as respostas são as perguntas que conseguimos formular, e que as respostas construídas são valiosas como passos para mantermos as ideias em movimento.

O fato é que sabemos o valor da Educação Infantil e o quanto ela representa para as nossas crianças e suas famílias. Os resultados são palpáveis. Mas é preciso ir além e tecer redes de diálogo e construção para arriscar pensar em conjunto, considerando todas as perspectivas e indo além das respostas já conhecidas. Na verdade, vestindo um pouco da avidez das crianças que ousam pensar diferente só para ver onde vai dar!

Desejamos que o tom deste ano seja pautado no diálogo, no compartilhamento de ideias e na ousadia de rever o velho e experimentar o novo.

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Comentários para Educação infantil faz diferença?

  1. Marlene de Araujo Nascimento diz:

    A postagem traz uma reflexão real do que acontece dentro das creches e escolas de Educação Infantil e nos lança um grande desafio:…”rever o velho e experimentar o novo.” Mas como o próprio texto diz; temos um grande exemplo: as crianças. Que em 2018 possamos aprender muito com nossas crianças e ousar sempre. Parabéns pela postagem.

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