Palavra de… professor de professor da Educação Infantil: Paulo Fochi

Frato tudo a seu tempoTempo de Creche conversou com o professor Paulo Fochi sobre bebês. Ouvimos histórias encantadoras e pontos importantes para refletir.

Bebê é bebê!

Tempo de Creche – Como você vê os modismos na relação com os bebês?

Paulo – Os bebês finalmente apareceram, saíram do anonimato. Isso é bom! Como já falou o Tonucci[1], depois do século 19, as crianças passaram a ser percebidas pela sociedade e, naturalmente, os bebês estão sendo.

Parece estranho dizer “as crianças” e “os bebês”, quase soando com algo diferente. Pode parecer que da forma que falei, bebê não é criança. Do ponto de vista acadêmico, de como a ciência vem tratando o tema, os bebês são crianças. Do ponto de vista das crianças, não. Bebê é uma outra categoria. Preciso contar melhor esta história.

Em uma oportunidade recente, comentava com uma amiga sobre minhas pesquisas e sua filha, de 4 anos, enquanto escutava eu afirmar que eu o que eu queria entender dizia respeito às ações dos bebês no berçário, me perguntou:
– Porque você estuda os bebês e não as crianças?
Eu retruquei dizendo que eu estudava crianças que eram bebês, e perguntei a ela:
– Você acha que bebê não é criança?
– Não! – Responde ela com muita convicção. Bebês são bebês, crianças são outra coisa.

Preciso dizer que a visão das crianças me parece a mais sensata, e explico o porquê. Com o acesso dos bebês a espaços coletivos, com o reconhecimento de suas amplas capacidades – que subvertem aquela velha imagem do “ainda não” – junto, apareceu uma porção de coisas esquisitas. Poderia listar inúmeras, tais como alguns sites famosos com clientes mais famosos ainda, que mostram como “estimular” os pequenos desde o período gestacional, para serem mais inteligentes, para falarem mais, para caminharem antes, ou seja, para produzir como o capital quer que eles produzam.

Essa moda do superlativo, do mais, do antes, está matando aos poucos os meninos e meninas que recém chegaram ao mundo. Está, nas palavras do Guattari[2] , inserindo os bebês no tempo do capital. A pergunta é: e os bebês estão felizes no meio disso tudo? Eu tenho uma hipótese que não, ao contrário, eles estão cansados, exaustos para falar a verdade.

Eu já vi muita coisa sendo feita “para os bebês”, mas, poucas consideram o seu bem estar. Tem yoga para os bebês, onde pais colocam seus filhos sobre as pernas e levantam e abaixam, deitam e sobem; tem dança materna, em que as mães fazem giros, levantamentos, um verdadeira pas de deux, academia para as famílias se encontrarem e exercitarem com músicas e brinquedos que deixarão os pequenos mais aptos a matemática e linguagem e, faz pouco tempo, até coaching para bebês.

Particularmente, eu estou em desacordo com todas essas “opções”; umas mais, outras menos, mas estou em desacordo. Em vídeos na internet ou cenas que eu mesmo presenciei, é nítido que os bebês não estão sentindo-se bem, que estão sorrindo para responder a uma expectativa do adulto e, que além de tudo isso, estão perdendo um espaço e um tempo que poderiam estar dedicando-se a coisas realmente de bebê. Bebê tem que ter tempo para ser bebê. Não existe forma de recuperar este tempo tão precioso, específico daqueles que vivem a pedagogia dos inícios, da primeira vez. Daqueles que recém chegaram na cena humana e estão diante de uma complexidade gigante pelo simples fato de estarem aí, tentando entender seu entorno, se adaptando em um mundo diferente, com pessoas, com informações, sons…

Por isso, para garantir que possamos refletir se o que está sendo proposto aos bebês realmente cabe a eles, acho prudente a advertência da criança: bebê é bebê!

Tempo de Creche O que você sente como maior dificuldade na formação de educadores na relação com os bebês?

Paulo – Trabalho em vários âmbitos com a formação de professores: na formação inicial na universidade; na formação em contexto, diretamente com os profissionais das escolas; na formação em redes, nos debates inclusive da gestão e, indiretamente, através dos textos que escrevo, nas formações que não consigo estar presente mas, minhas palavras são colocadas nas rodas para o debate.

FratoSão muitas as dificuldades quando estamos falando sobre “ser professores de bebês”. Primeiro, precisamos reconhecer duas coisas, a primeira que a docência para os bem pequenos é uma profissão que precisa ser inventada. Ainda não temos claro o que compreende ao profissional que trabalha com esses grupos, quais são as formas de estar e criar boas condições para que eles cresçam felizes. A outra, diz respeito a didática da educação infantil, não só os bebês, mas de toda esta etapa. Toda nossa herança didática é oriunda do Ensino Fundamental, ao longo dos anos, foi se adaptando modos de ser professor, modos de produzir o conhecimento nas escolas de educação infantil a partir dos modelos da tradição da escola. Mas esta didática não atende a especificidade das crianças pequenas, muito menos, a especificidade dos bebês. Aqui está outra coisa que precisamos inventar, uma didática do fazer!

Além deste grande desafio que indiquei, temos o desafio das condições de trabalho e das instituições. Um grupo de bebês não pode estar doze horas em uma sala ocupada majoritariamente por berços, com poucos profissionais, pouco qualificados (como boa parte da realidade brasileira).

Se não nos dermos conta de que estamos inserindo essas crianças no mundo e dizendo a elas sobre como é ser gente, pois é isso que estamos fazendo quer queiramos ou não, o futuro pode não ser tão interessante. A noção de sociedade está sendo construída nas condições que as crianças estão vivendo. Se naturalizarmos um espaço hostil, barulhento, com relações agressivas, não podemos esperar outra coisa das crianças senão a continuidade disso. Não acho que a escola é a responsável por transformar o mundo, mas quero destacar o papel importante que ela ocupa na vida desses meninos e meninas que permanecem tanto tempo, e nos primeiros anos de sua vida, no interior das instituições.

Um outro desafio está em conseguir construir com as alunas a diferença sobre o que é ser mãe e o que é ser professor. Estas duas funções estão muito atravessadas nas instituições e precisam ser refletidas. A educação infantil tem na sua história essa característica, do lugar materno, por isso ainda hoje é difícil a entrada de homens.

Tempo de Creche  Você tem algum recado ou dicas para os professores que trabalham com bebês? E para os pais?

Paulo – Depois de tudo o que eu disse, penso que recuperar o pensamento de Malaguzzi é importante. Diz o pedagogo que as coisas relativas às crianças, são aprendidas pelas próprias crianças. Acredito que Malaguzzi[3] destaca que precisamos ficar mais atentos ao que estamos propondo aos bebês. Precisamos aprender olhar para as crianças como quem olha a si próprio, para entender que ali existe alguém que sente, que gosta, que não gosta, que precisa da sozinhez, do silêncio, da palavra, do olhar…. Precisa de alguém com esperança de esperar ela ser bebê e aprender e descobrir as aventuras e desventuras do mundo.

 

Balão-Para-Saber-MaisLeia também O que a criança faz a cada etapa do desenvolvimento; Educação dos 0 aos 3 anos: contribuições de Emmi Pikler

 

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Paulo Fochi – Foi professor de crianças por mais de 10 anos. É pedagogo, mestre em Educação na linha de Estudos sobre infâncias (UFRGS) e doutorando em educação na linha de Didática e Formação de professores (USP). É professor no curso de Pedagogia na Unisinos e PUCRS, coordena o curso de especialização em Educação Infantil da Unisinos. Faz parte do grupo de quatro consultores para a Educação Infantil da Base Nacional Comum Curricular do MEC. Coordena o OBECI – Observatório da Cultura Infantil e é autor do blog Catadores da Cultura Infantil.


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[1]Francesco Tonucci, também conhecido por seu pseudônimo Frato, é um pensador, psicopedagogo e desenhista italiano. É também autor de diversos livros sobre as crianças e o ecossistema urbano.

[2]Félix Guattari – 1930 a 1992. Foi um filósofo, psicanalista e militante revolucionário francês praticamente autodidata, que não chegou a cumprir a burocracia de nenhum título universitário. Entre os conceitos e noções criadas por Guattari estão: Transversalidade, Ecosofia, Desterritorialização, Singularidade, Produção de Subjetividade, entre outros, e teorizou também sobre a questão da transdisciplinaridade. Guattari é um dos magos inspiradores do Blog Tempo de Creche.

[3] Loris Malaguzzi  – 1920 – 1994. Foi cofundador da abordagem Reggio Emilia, educação da Primeira Infância. Reconhecida como um dos melhores sistema educacionais no mundo, esta abordagem inovadora enriquece o desenvolvimento das crianças.  

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9 Comentários para Palavra de… professor de professor da Educação Infantil: Paulo Fochi

  1. valeria diz:

    Estou estudando para um concurso e Paulo Fochi é um dos autores presentes na bibliografia proposta.Estou encantada com seus pensamentos, onde corroboro plenamente.Amei sua clareza nas interpretações desse ser bebê !! bjs e boa noite!

  2. Roseli diz:

    Ola achei muito interessante essa reflexão de Paulo Focci sobre professor de professores na educação infantil, eu ainda não o conhecia e não sabia nada sobre Paulo Focci, sou estudante de pedagogia e estou indo para o 8° semestre e gostaria de receber se possível, mais materiais como este, pois, estou pesquisando para elaborar meu trabalho de conclusão de curso cujo tema é “cuidador de bebes, professoras e/ou educadoras e suas especificidades da ação docente no cuidar educar os bebes’ desde já agradeço obrigado e quero ressaltar ainda que me fez pensar sobre o seu artigo. obrigado mais uma vez

    • Roseli,

      Obrigada pelo retorno.
      Na coluna lateral direita da Home do Blog você encontra o link para a listagem de postagens por tema, onde um dos itens é sobre bebês. Acesse!
      Em breve publicaremos novo material.
      Abraços

  3. Raphaela diz:

    A oportunidade de ler o que Paulo pensa sobre a docência de crianças tão pequenas é mesmo muito interessante.
    Pensar sobre esse profissional que estão ainda se inventando é um experiência ímpar. Fico bastante preocupada em pensar que enquanto tentamos inventar esse novo profissional, as crianças passam pelas nossas mãos e as experiências que elas vivenciam acabam não sendo as mais apropriadas. Se pensarmos que essas crianças estão sendo atendidas muitas vez por instituições que sequer sabem o que são diretrizes nacionais para educação infantil, temos ainda as instituições que mesmo conhecendo esses materiais, desenvolvem práticas escolarizantes e que nada tem acrescentar na vida dos pequenos. Precisamos de mais espaços de formação e discussão com pesquisadores como Paulo Fochi, assim teremos a oportunidade de construir uma educação infantil ou uma “didática do fazer”!

    • Oi, Raphaela!
      Recebemos sua reflexão. Nossos questionamentos nos colocam em movimento! Buscamos e vamos à luta por aquilo que sentimos falta e que nos inquieta… Mas esse caminho é mais gratificante quando temos pessoas também interessadas ao nosso lado. Você já pensou em reunir outras pessoas que pensam como você para pensarem juntas: lerem algum texto, discutirem? Assim, as ideias germinam e vão ganhando força… E estamos aqui para ampliar os questionamentos e continuar o diálogo! Um abraço

  4. Vanessa Helena Villela diz:

    Gosto muito da visão de Paulo e penso na mesmo linha que ele. Na minha monografia utilizei varias falas dele para embasar meu trabalho.

  5. Maria de Jesus Araújo Ribeiro diz:

    Gostei muito do que encontrei nesse blog. Fui movida a ler por conhecer a seriedade do Paulo Focci, em seus estudos com bebês. Fiquei muito bem impressionada e já deixei meu e-mail para receber notícias e outras visitas mais. Já compartilhem com várias professoras e tenho certeza que gostarão dessas reflexões e informações tão necessárias a cada um de nós que somos dessa área.
    Muito obrigada pelo compartilhamento conosco.
    Beijos no coração,
    Jesus.

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