Roda de conversa prazerosa: isso existe na educação infantil?

Será que crianças pequenas gostam de participar da roda de conversa? E os professores?
É comum encontrar momentos destinados às de rodas de conversa na grade de planejamento da educação infantil. Coordenadores e professores concordam que é fundamental estabelecer uma rotina de encontros para praticar o diálogo.

E eles têm razão!

O problema é que tornar a roda de conversa parte da rotina não necessariamente a transforma num recurso de aprendizagem.

Sentar-se em roda é participar de uma situação propícia ao diálogo.

Mas o que é dialogar?

A palavra DIÁLOGO tem origem no idioma grego, na junção do elemento dia,que quer dizer ‘por meio de’, e do elemento logos, que significa ‘palavra’. Assim, o significado original da palavra diálogo é o uso da palavra como meio ou recurso. Então, nas nossas rodas de conversa, como fazemos o uso da palavra?

Ocorre que, sem um propósito, o diálogo perde o sentido. É bom lembrar que as conversas dos adultos têm propósitos específicos: trabalho, inteirar-se do dia a dia da família e até ouvir e dizer bobagens divertidas entre amigos.

Por isso, ao organizar uma roda de conversa, o professor precisa pensar no sentido que dará a ela: vamos dialogar sobre o quê?

Percebemos que alguns educadores preparam conteúdos como avisos, observações sobre o comportamento e instruções, contudo não percebem que estes temas nem precisam de diálogo, porque os monólogos – quando uma só pessoa fala – dão conta de informar as crianças. Outro tema bastante comum é conversar sobre o final de semana. Esta estratégia começa a ficar interessante quando as crianças são maiores, e já conseguem organizar o discurso. Porém, conversar sempre sobre isso enjoa qualquer um!

Ou seja, alguns professores acabam planejando uma conversa que não prevê a interação do grupo com o tema e a consequente participação.

Sendo assim, como organizar momentos de conversa com crianças pequenas? Como mantê-las envolvidas e empenhadas no diálogo, ouvindo o outro e se colocando?

Complicado, não?

De fato! As crianças muito pequenas têm dificuldade para se expressar por meio de palavras e se dispersam rapidamente. E os maiores são muito corporais e elétricos e se desinteressam das conversas.

É tudo verdade! Porém, nestas observações comumente colocadas por educadores é que moram as respostas para o desafio de trabalhar a roda de conversa com as crianças.

1- Antes de tudo é preciso pensar no sentido que vamos atribuir ao tema escolhido para fomentar o diálogo. O que vamos propor TEM QUE SER significativo e interessante para as crianças!

2- Já que este é um comportamento aprendido aos poucos pelos pequenos, temos que compreender que permanecer em roda de conversa não é fácil para eles. O  universo interior da criança quer se alimentar constantemente do mundo que a cerca, logo, não podemos deixar a concorrência nos ganhar! Então cabe pensar em escolher ambientes que favoreçam o foco do grupo, temas instigantes e até recursos como imagens e objetos.

 

3- No caso da criança muito pequena e “pouco verbal”, precisamos construir um diálogo com o seu discurso interior. Vigotski afirmava que o discurso interior é uma linguagem desenvolvida e mais completa do que a fala. O que nos leva à pergunta: o que dialoga com o discurso interior dos pequenos e provoca a expressividade? O uso de objetos interessantes, imagens, gestos, sons e outros recursos podem atrair os pequenos e cativá-los ao ponto de permanecerem atentos ao “diálogo” construído pelo professor.
Mas é fundamental lembrar que os “diálogos” ainda são curtos, individualizados e que não é necessário estender a duração da roda por muito tempo.

4- Em relação aos mais velhos, a roda começa a contar com um fluxo maior de palavras e habilidades para organizar o discurso. Mas ainda assim, o tema precisa despertar interesse. É nesse aspecto que a atividade da roda casa como uma luva com os projetos que envolvem as crianças! Discutir o objeto da investigação, os resultados das descobertas e o aprofundamento das pesquisas é  muito provocador. As crianças apreciam a conversa porque se sentem afetadas por ela e, especialmente, porque têm oportunidade de serem ouvidas.

5-  Vigotski novamente contribui com mais uma orientação: a fala da criança é tão importante quanto a ação para atingir um objetivo. As crianças não ficam simplesmente falando o que elas estão fazendo; sua fala e ação fazem parte de uma mesma função psicológica complexa, dirigida para a solução do problema em questão (2003, p. 34). Desse modo, ao constituir uma roda, não adianta esperar que as crianças se sentem contidas e “comportadas”. Segundo o autor, elas precisam do corpo para pensar e se expressar.  Aos poucos, conforme se desenvolvem, a quietude do corpo em função do interesse e da participação na conversa vão ganhando espaço… mas isso é conversa para o ensino fundamental!

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PARA SABER MAIS…

L. S. Vigotski –  A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Martins Fontes, 2003.

Leia mais sobre roda de conversa na postagem Roda de conversa: ancestral e primordial

 

 

 

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