Sala de aula: espaço ou ambiente?

Qual sala é importante para as crianças? Em que sala queremos trabalhar? Vai chegando o novo ano e os professores voltam suas atenções e ansiedades à organização da sala: quais materiais do ano que termina devem permanecer? Quais estratégias utilizadas na arrumação do ambiente promoveram boas interações entre as crianças? Qual será o meu novo espaço de trabalho? Em qual ambiente vou receber a nova turma e espalhar uma atmosfera afetuosa?

Espaço é a dimensão física, uma extensão com ou sem limite. Já o ambiente é muito mais, porque ele abrange tudo o que está dentro do espaço e provoca sensações.

O professor tem razão em depositar ansiedades e sonhos na expectativa da sala do próximo ano. A sala é uma referência fundamental para crianças e professores, influencia o estado de espírito e a aprendizagem.
Então que tal aquecer as reflexões sobre este ambiente pedagógico?
Vamos lá…

1- A sala como espaço formal de educação

A sala na escola não é um espaço de recreação. É parte imprescindível de um contexto de aprendizagem e tem que servir a este propósito. A arquitetura, as cores, a mobília e os materiais que compõem os recursos educativos estão distantes da ideia de “bufê infantil”.

A sala da educação infantil deve:

  • ser espaçosa para favorecer os movimentos das crianças (os mais delicados e também os amplos);
  • permitir as inúmeras brincadeiras que já conhecemos e aquelas outras centenas que ainda vamos descobrir;
  • provocar a imaginação e as interações;
  • permitir que as crianças, suas invenções e produções sejam os astros principais da rotina escolar. A criança é o centro e a sala precisa incentivar e acolher suas marcas.
  • ter uma organização explícita e fácil de entender para que as crianças aprendam sobre os espaços, suas possibilidades e as escolhas que podem fazer.

 

2- A Sala: um espaço para chamar de nosso

Típico das salas da educação infantil, os tapetes plásticos coloridos, vendidos por diversos fabricantes, são cobiçados por muitos educadores. Eu digo: fuja deste produto!!! Que me desculpem os fabricantes!

Se a criança é o centro da educação, porque não deixamos que suas marcas vão aos poucos caracterizando o espaço, dando-lhe história e pertencimento? Precisamos romper com esse ideal preconcebido de excesso de cores e formas! Faça um exercício: pense na sua casa. Imagine você voltando para o aconchego do lar e tendo que conviver com uma poluição visual, multicolorida e cansativa TODOS OS DIAS!

Não sei como e onde surgiu essa crença de que o melhor para o ambiente das escolas de infância é investir em uma decoração com exagero de cores e materiais plásticos. Não dá para esquecer que estes locais são frequentados por crianças e educadores por períodos de até 8 horas por dia, 5 dias por semana, 200 dias por ano. Em geral, é mais tempo do que passamos na nossa própria casa!

Infelizmente grande parte das escolas ainda não conta com recursos para construir seus ambientes com materiais naturais (madeiras, tecidos, pedras, entre outros) como ocorre em diversos países do mundo, mas podemos tentar evitar ou minimizar o que é artificial no mobiliário e na coloração dos ambientes.  Os tapetes plásticos e os móveis de fórmica podem ser soluções práticas porque são mais facilmente higienizados, mas podem ser encomendados com cores e estampas neutras. Já a pintura das paredes… não tem desculpa para os exageros! O que é mais significativo para os pequenos, aquelas cores e desenhos extravagantes que cansam a visão e, ao longo do ano nem são mais notados, ou a neutralidade de paredes que são ocupadas com as produções dos pequenos e documentações pedagógicas significativas e enriquecedoras?

Um ambiente acessível gera sentimento de pertencimento nas crianças. Elas precisam saber o que existe por trás de cada porta, gaveta e prateleira, o que está disponível para ser acessado com autonomia e o local onde cada material deve ser buscado e guardado. Uma boa dica para trabalhar a arrumação é fotografar os ambientes organizados da sala e colar na parede para que, aos poucos, se tornem referência de organização.

3- Paredes: qualidade X estética padronizada

No mesmo sentido do colorido das paredes e da mobília, quero provocar uma reflexão sobre a “decoração” das salas.

Creches

A BNCC já orientou as escolas a respeito dos campos de experiências referentes ao letramento e à matemática: crianças pequenas experimentam a linguagem textual e os algarismos nos contextos do dia a dia! Assim, não há necessidade de encher paredes com o abecedário e os algarismos coloridos e, às vezes, decorados (que na verdade confundem os pequenos!).

Então, o que deve ocupar as paredes da sala? Respondo: o que partir da escuta das crianças!

  • Imagens interessantes com conteúdos relacionados aos projetos e pesquisas das crianças.
  • Reproduções de boas obras de arte (vamos buscar alternativas para o Romero Britto e o Ivan Cruz? Temos um vasto acervo de excelentes artistas plásticos no Brasil!),.
  • Fotografias disparadoras de apreciação e conversas.
  • Fotos das crianças em situações de aprendizagem.
  • Fotos das famílias.
  • Fotos dos momentos da rotina.
  • Cartazes e cartões com o nome dos objetos, das crianças, dos cantos, avisos, combinados, momentos da rotina e tudo o mais que traga a linguagem escrita para o contexto da turma.
  • … enfim,recursos pedagogicamente pensados e muuuito distantes do que é padronizado e estereotipado (como as casinhas, castelinhos, bichinhos e personagens confeccionados de EVA).

Pré-escola

Apesar das habilidades estarem mais desenvolvidas nestes campos, o letramento e a matemática ainda têm como norte a contextualização para a construção de significados. As crianças se interessam por letras? Construa um abecedário com elas! Pesquise manchetes de jornais e revistas para contextualizar, construa cartazes… são inúmeras as possibilidades para desenvolver a linguagem escrita e, no mesmo sentido, a matemática.

Exposição das produções

As produções das crianças merecem uma conversa à parte. Muitos educadores acreditam que aquele varal com saquinhos e pastas é suficiente para expor o que os pequenos fazem. Não é verdade! Esta forma de organização não destaca o que foi produzido pela turma. Quando visitamos exposições que apresentaram as obras desse jeito? É preciso um olhar de curador* para organizar bons espaços de exposição:

  • analisar as produções com cuidado,
  • pensar se será necessário coloca-las sobre um suporte para valorizar o que foi feito (uma grande folha de papel kraft, molduras de cartolina, móbiles, cubos etc.),
  • agrupar as produções de modo estético e propositivo.

Enfim, é importante pensar sobre os registros da atividade, as produções e o local de exposição para construir uma documentação pedagógica que deixe visível o processo de elaboração das crianças, as pesquisas, as descobertas e as aprendizagens. No nosso livro Educação Infantil: um mundo de janelas abertasdedicamos uma boa conversa sobre essa questão!

Outro ponto importante, que não pode ser esquecido, é a altura em que os trabalhos são afixados na parede. Certamente diferentes públicos podem se beneficiar com a exposição da produção das crianças: famílias, gestores, colegas da equipe pedagógica e crianças. Mas para que os pequenos apreciem a documentação, é preciso que ela esteja visível e acessível para eles. Isso significa colocar desenhos, pinturas, modelagens, fotografias e outros registros na altura das crianças.

4- Salas aconchegantes, com jeito de casa

Em vários países, as salas das escolas de educação infantil têm uma atmosfera caseira, diferente das salas vazias e daquelas entulhadas com mesinhas, cadeiras e até carteiras escolares. A ideia é construir ambientes aconchegantes, fundamentais nessa faixa etária, e favorecer a possibilidade das crianças ocuparem e explorarem cantos diferenciados:

  • Faz de conta – estante (na altura das crianças) com alguns brinquedos (jogos de montar, bonecas, carrinhos, entre outros), mini cozinha.

  • ambiente com mesinha e cadeiras para as crianças que preferirem utiliza-las nos momentos de brincadeira e rotina.
  • sofá, almofadas e material para leitura com variedade de suportes (livros, revistas, jornais, catálogos) para ler, descansar, conversar.
  • Espaço com tapete e almofadas para reunir a turma sentada em roda.

  • Canto permanente de desenho.

  • Espaço para alojar os pertences: escaninhos, ganchos e até mesmo um pedaço do chão que pode ser delimitado com fita crepe.
  • Os cantos não devem permanecer os mesmos ao longo do período letivo. Quando as crianças não brincarem mais, ou o professor notar que a micro ambientação (cada canto é um micro ambiente) não oferecer mais desafios, é hora de mudar ou transformar.

Sabemos que nem todas as salas podem ser espaçosas o suficiente para abrigar uma variedade de cantos. Mas é possível começar a pensar em organizar novos ambientes:

  • Dois almofadões, um caixote com livros e revistas e até um tecido pendurado como uma tenda pode compor o canto de descanso e leitura.
  • Uma ou duas folhas de cartolina e um baldinho com lápis de cor e/ou giz de cera já fazem as vezes de um canto de desenho. Uma das creches em que fazemos formação improvisou um suporte para rolo de papel kraft que as crianças puxam para desenhar.
  • Sofás, mesas, banquinhos e mini cozinhas feitos com garrafas pet, caixas de leite, pneus, caixas de papelão e palets (existem milhares de modelos na internet!) são apreciados pelos pequenos e muito acessíveis.

Em geral nos acostumamos aos ambiente e deixamos de vê-los com olhar renovado. Uma boa dica para refletir sobre a sala é fotografa-la para vê-la com certo distanciamento e poder repensar, adequar e criar novas possibilidades.

É importante lembrar que num primeiro momento as crianças vão experimentar tudo com intensidade: os livros, os lápis, os papeis, os brinquedos disponibilizados, a mini cozinha, a mobília, o espaço livre e até os trabalhos, cartazes e imagens expostas na sala. É possível que rasguem e quebrem, mas é tudo parte do processo de explorar, conhecer e aprender a fazer o melhor uso. Permita esse tempo e até o “gasto” de material para que as crianças aprendam como usar e cuidar da sala que, aos poucos passará a ser deles de fato!

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PARA SABER MAIS…

*Curador é a pessoa responsável pela concepção das obras de arte, montagem e supervisão de uma exposição.

Leia mais sobre cantos de atividades e exposição das produções das crianças nas postagens:
Cantos de atividades para revelar projetos 
Um cardápio variado de cantos de atividades
Uma documentação pedagógica para provocar 

 

 

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