Trauma infantil: uma caminhada de mãos dadas com a criança

O trauma infantil é uma realidade que lidamos no dia a dia da Educação.
Como ficar sensível ao sofrimento das crianças que vivem situações traumáticas?
Como desenvolver um trabalho que contribua para fazer brotar suas capacidades e empoderá-las? 

crianças 1Ao atravessar momentos de pesar, a tristeza fica evidente. Porém, ao vivenciar o trauma, os sintomas expressos pelas crianças podem dificultar a correlação com os acontecimentos traumáticos. Na verdade, alguns comportamentos das crianças em sofrimento – frustração, impaciência, dificuldade de concentração, de seguir regras e de se relacionar – podem ser confundidos com outras questões, dificultando a aproximação mais adequada dos adultos ao problema real.

Segundo a psicóloga e diretora do Instituto Nacional para o Trauma e as Perdas na Infância, Caelan Kuban Soma (Estados Unidos) nessas situações os momentos de desafio e aprendizagem podem representar uma grande luta interna para as crianças. Mas, uma vez que o trauma é identificado como a raiz do comportamento, é possível adaptar a abordagem para ajudar as crianças a lidarem com a carga emocional.

Para compreender, acolher, acompanhar e ajudar os pequenos que passam por traumas, algumas dicas podem orientar o olhar e as ações dos educadores:

1. Crianças que sofrem traumas não estão tentando “provocar” os adultos.
Se um pequeno que já está adaptado à instituição e à rotina demora para se preparar para o café, reluta em ir ao parque e resiste em participar das propostas, a distração e a resistência podem indicar que estão acontecendo preocupações e sobrecarga emocional. Procurar indicar e relembrar a rotina sem reprimendas deve ser a atitude do professor. Com calma e sutileza, uma pista visual ou um olhar que aponta, por exemplo, o local dos sapatos, já pode lembrar a criança de que precisa calçá-los antes de ir para o parque; relembrar uma regra para todo o grupo, como por exemplo “lavar as mãos antes de sentar à mesa”, auxilia o pequeno a se encontrar na rotina da escola. Segundo a psicóloga, é uma questão de mudar a percepção para não cair na armadilha de concluir que essas crianças estão fazendo birra!

♥ 2. Crianças que vivenciam traumas estão sempre preocupadas com o que vai acontecer em seguida.
A rotina da sala contribui para acalmar essa ansiedade, assim é importante desenvolver planejamentos que estejam dentro de uma estrutura previsível. Além dos momentos das refeições, que geralmente são fixos, manter uma atividade rotineira, como por exemplo, cantos diversificados na hora da chegada. Isso contribui para indicar para a criança que ela é conhecedora do que acontece na creche. Dar sinais do que vai acontecer no dia também colabora para construir uma sensação de segurança: agora vamos pintar com giz molhado e depois vamos lavar as mãos para almoçar.

♥ 3. Não importa o julgamento dos adultos sobre a intensidade da situação traumática atravessada pela criança.
Não cabe aos adultos julgarem se o fato traumático é grave ou estressante e ainda avaliarem se a medida do sofrimento da criança é compatível com essa avaliação. O importante é reconhecer que aquilo que a criança sente é legítimo e lhe causa estresse. Tentar não julgar o trauma, pois se a questão é traumatizante para o pequeno, é com isso que os educadores vão lidar. A criança ainda não avalia e não reflete sobre as situações emocionais que vive, assim, ela não tem controle de seus sentimentos e emoções. A Dra. Soma esclarece que “qualquer evento que mantenha o nosso sistema nervoso ativado por quatro, seis ou mais semanas é definido como estresse pós-traumático”.
A identificação da causa do trauma e a condução da resolução do problema com a família é prerrogativa das instituições competentes. Cabe à escola ficar sensível às crianças e comunicar aos órgãos responsáveis sobre suas suspeitas.

♥ 4. Frequentemente associamos traumas às situações de violência, mas nem sempre é assim.
Crianças podem sofrer com uma variedade de situações: divórcios, mudanças, chegada de irmãos, sobrecarga de atividades. É mais comum do que acreditamos.

♥ 5. Não é preciso saber a razão do trauma para ser capaz de ajudar.
No lugar de focar no histórico da situação traumática, concentrar-se nas estratégias de apoio. A raiva, a dor, a preocupação e o sofrimento já são indicadores suficientes para o professor desenvolver um trabalho de acolhimento e segurança. É importante respeitar as barreiras e a privacidade dos pequenos também.

crianças♥ 6. Crianças que sofrem traumas precisam sentir que são capazes e que podem contribuir com o mundo.
Encontrar oportunidades, no dia a dia, em que as crianças estabeleçam desafios e possam atingir metas. Essas conquistas desenvolvem uma sensação de domínio e controle nas situações que elas enfrentam. Ser ajudante, cuidar de outro colega, intermediar numa situação de conflito, esse tipo de ação (que o professor tem certeza que o pequeno pode resolver) expressa concretamente que a criança é capaz. Não é uma questão de ser bom em desenhar, pular um obstáculo ou montar um quebra-cabeça. Em situações de estresse, a experiência de sentir o próprio valor deve acontecer no campo das sensações, emoções e relações.

♥ 7. Há uma conexão direta entre estresse e aprendizagem.
Crianças que sofreram traumas tem dificuldade para aprender, a menos que se sintam seguras e apoiadas. Há uma conexão direta entre a redução do estresse e os resultados no desenvolvimento, destaca a Dra. Soma.

♥ 8. Foco e autocontrole podem ser grandes desafios para crianças que sofrem traumas.
Algumas crianças convivem com pais que se encontram emocionalmente indisponíveis, que não oferecem ao filho um ambiente em que é possível observar e aprender a lidar com as emoções. Essas crianças geralmente apresentam dificuldade em se concentrar por longos períodos. Nesses casos, o ideal é planejar atividades prevendo “intervalos livres” e “zonas de escape”. Na hora da Roda de História, por exemplo, uma boa estratégia é fazer a narração incluindo momentos de uso do corpo: que tal imitar os gestos de um personagem? Outra estratégia é garantir um canto com outra proposta, prevendo as mudanças de foco da criança que está estressada. Essas pausas e opções ao longo da rotina podem contribuir para uma recarga da estabilidade emocional que a acompanhará em cada momento do dia.

♥ 9. É positivo perguntar diretamente às crianças que sofreram traumas o que se pode fazer para ajudá-las.
Existe algo que eu possa fazer para você se sentir melhor? Esse é o espírito dessa postura. A criança pode expressar ao longo do dia que quer o conforto de ler o livro preferido, brincar com o brinquedo querido, ouvir uma música especial, descansar num cantinho aconchegante da sala ou até colocar para fora seu choro. Indicar essa ajuda e viabilizar esses desejos é mais importante do que acompanhar à risca a rotina proposta para o dia.

♥ 10. É possível apoiar as crianças com traumas, mesmo fora da sala.
Circular pela instituição compartilhando com as equipes as estratégias para lidar com o estresse do trauma e deixar claro que a criança não é definida pelo comportamento que está apresentando, são formas de estender o acolhimento para além da sala. A Dra. Soma esclarece que é típico existir algo mascarado que conduz o comportamento das crianças em sofrimento, então é importante estar sensível a isso. “Pergunte-se: eu estou preocupada com o que está acontecendo com aquela criança? E deixe de lado a questão: o que está errado com aquele pequeno? Essa é uma grande transformação na forma como olhamos nossas crianças!”

Balão-Para-Saber-MaisO National Institute for Trauma and Loss in Children (ou Instituto Nacional para o Trauma e as Perdas na Infância) fica nos Estados Unidos e revela que educadores e instituições dedicadas às crianças são o batalhão de frente de uma guerra que geralmente nem têm clareza de estar lutando: o trauma infantil. Formar profissionais para despertar o melhor de cada criança traumatizada, construindo um ambiente em que elas possam florescer, é a missão do Instituto. Dra. Caelan K. Kuban Soma é psicóloga e diretora executiva da instituição.

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