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Para uma Educação Infantil de qualidade

Segundo pesquisas americanas, diálogos que convocam a participação engajada e criativa das crianças, formação continuada de educadores e articulação da escola com ambientes comunitários e instituições governamentais são alguns dos requisitos para termos uma Educação Infantil de qualidade.

A especialista em primeira infância da universidade de Columbia nos Estados Unidos, Sharon Lynn Kagan, afirmou em entrevista à Revista Veja de 02/07/2017 que ler para crianças pequenas e fazer perguntas prevendo respostas abertas é fundamental para a formação e tem impacto na vida escolar do futuro aluno.

Ao lado de outros pesquisadores de infância e educação, a americana considera essencial o desenvolvimento da linguagem e o diálogo que valoriza a interlocução das crianças.

O que isso quer dizer?

Perguntas em que o adulto prevê respostas “certas” ou que buscam confirmação daquilo que já se sabe não estão abertas para favorecer o pensamento criativo e a resolução de problemas. Como exemplo, no lugar de perguntar aos pequenos de que cor é o sapato, é melhor perguntar para que serve o sapato e fazer um escuta aberta para as respostas.

crianças pesquisando a luz

Os trabalhos de Lynn têm auxiliado diversos governos na busca por uma educação infantil qualificada. Ela acredita que boa parte do cérebro se desenvolve até os 3 anos de idade e 90% dele até os 5 anos. Com isso, defende que as crianças crescem mais rápido de 0 a 5 anos do que em qualquer outra época da vida. Crianças pequenas são mais vulneráveis e impressionáveis, consequentemente o impacto das ações de educação sobre elas é muito maior do que nas crianças mais velhas.

Numa de suas palestras ministradas no Brasil, a estudiosa apresentou condições para o desenvolvimento ideal das crianças pequenas. Entre elas, o tamanho da sala, o número de crianças por grupo, a formação do professor, a proporção criança-professor, um currículo prático e não conteudista e, sobretudo, o modo como o educador interage com a criança.

Todos esses parâmetros devem estar sustentados por uma estrutura composta por 8 engrenagens. Contudo, Lynn destaca que todas as engrenagens são vitais e que na falta de uma, o resultado da educação fica completamente comprometido.

As 8 engrenagens:

  1. criança pesquisando buraquinhosCurrículo com oportunidades ricas de aprendizagem e intenso uso da linguagem nas relações adulto-criança e criança-criança. Crianças precisam estar ativamente engajadas nas propostas de atividades e na sua própria rotina. Um ambiente questionador que encoraje as perguntas dos pequenos, mesmo as mais simples, é condição de uma educação de qualidade. Nesse sentido, é preciso dar oportunidades para que eles pensem, reflitam e demonstrem sua curiosidade e assim, respeitar a cultura infantil: literatura, costumes e famílias.
  2. Políticas públicas que garantam níveis mínimos de segurança e saúde.
  3. Financiar a Educação Infantil tendo em vista que não existe investimento mais impactante na vida do ser humano e da sociedade.
  4. Articulação entre as instituições governamentais, como postos de saúde, assistência social, cultura e laser.
  5. Qualificação profissional dos educadores, seja por meio de requisitos e apoio governamental, seja por iniciativa própria dos professores e instituições.
  6. Prática de observação e registro para planejar atividades, observar, registrar e planejar novamente.
  7. Envolvimento dos pais e responsáveis, fundamental para que as crianças pequenas se sintam apoiadas. Para que isso aconteça é preciso que as famílias se certifiquem que a instituição de educação honrará suas culturas, respeitará suas crenças, valores e singularidades.
  8. Integração da escola aos ambientes comunitários.

Os parâmetros elencados pela pesquisadora americana não são inéditos ou estranhos para a comunidade de educadores da Educação Infantil brasileira. Porém, o que sempre foi compreendido como crença hoje é reconhecido como realidade por meio de pesquisas e dados científicos.

Que tal avaliar as engrenagens que estão ativadas na sua instituição?
Como sua comunidade compreende a Educação Infantil? Existe reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido com as crianças pequenas?

Talvez esse seja um bom momento para refletir sobre abordagens pedagógicas que colocam a curiosidade, a indagação, a interação e as expressões no coração da prática educacional, dentro e fora da escola.

crianças observando o céu

Se engajados, podemos lutar para garantir as prerrogativas governamentais em busca de qualidade na educação das crianças na primeira infância. Mas as ações pontuais promotoras de formação profissional em cada escola, que atingem cada professor, também são elementos transformadores da educação. Profissionais de todas as áreas precisam se atualizar, se repensar e refletir sobre o que já sabem, o que não sabem e o que precisam aprender. É nas atitudes individuais que começamos a trilhar uma jornada que pode de fato qualificar a vida dos cidadãos.

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PARA SABER MAIS…

Sharon Lynn Kagan é professora titular de Políticas voltadas à Primeira Infância do Teachers College da Universidade de Columbia, Estados Unidos. Também é  diretora do Centro Nacional para Crianças e Famílias. kagan@tc.columbia.edu
Veja a palestra da pesquisadora no Brasil em que fala sobre a qualidade da Educação Infantil ofertada nas creches e pré-escolas. Partindo de dados de sua pesquisa – de que 72,4% da educação infantil brasileira é inadequada -, ela apresentou variáveis que poderiam levar o Brasil a enfrentar o desafio da qualidade. Palestra apresentada no Seminário Avaliação da Qualidade da Educação Infantil/ Fundação Carlos Chagas (junho de 2010 – São Paulo – SP) – O seminário divulgou a pesquisa Educação Infantil no Brasil: avaliação qualitativa e quantitativa – e discutiu suas implicações e desdobramentos. A pesquisa foi realizada em 2009 e 2010, em seis capitais brasileiras: Belém, Campo Grande, Florianópolis, Fortaleza, Rio de Janeiro e Teresina.
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