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Que tal incluir as manifestações culturais no calendário de 2019?

Escola é lugar de aprendizagem. E só aprendemos o que é significativo. As manifestações culturais são significativas?

Este pensamento pode parecer obvio, mas ele atravessa todas as ações pedagógicas, inclusive o que se comemora na escola. Parte fundamental do planejamento anual é o calendário das ações comemorativas. Reunimos trechos de postagens já publicadas sobre as manifestações culturais, falas provocativas de especialistas parceiras do Tempo de Creche e também um pedacinho do nosso livro Práticas comentadas para inspirar para propor uma reflexão coletiva sobre o tema.

Para começar a pensar…

Quais são as tradições da escola? Quais são as tradições da comunidade escolar (famílias e moradores do entorno)? O que celebrar para valorizar as raízes dessa comunidade e construir pertencimento? Que manifestações culturais abordar?

Quais celebrações e eventos são significativas para as crianças e ampliam o repertório cultural?

Quais manifestações culturais, celebrações e eventos trazem as famílias para mais perto da escola?

As datas comemorativas são tratadas como possibilidade de aprendizados ou se resumem em uma produção decorativa?

A pedagoga e especialista em Educação, Tânia Fukelmann Landau ressalta a importância das manifestações culturais na formação da criança. Antes mesmo do bebê nascer, ele já está imerso em uma cultura.

Da postagem da Tania, destacamos…

“Algumas mães cultivam a prática de acariciar a barriga, outras conversam com seus filhos e cantam para eles ainda escondidinhos no seu ventre músicas de sua infância. Este pode ser o início do sentimento de pertencimento a uma cultura.

Quando a criança inicia sua vida escolar nas creches, transcende o universo familiar e começa a ter contato com a diversidade de culturas presente no conjunto de tradições das crianças que compõem o grupo.

Por que isso acontece?

Ao entrar na escola, a criança vem com o “pacote inteiro” – traz consigo uma história, uma família e um modo peculiar de ser, viver e se relacionar que vem ancorado na sua experiência pessoal e doméstica, pois cada indivíduo e cada família é de um jeito, tem seus hábitos, tradições e costumes.

Neste período de planejamento anual, os diversos “pacotes inteiros” do próximo ano necessitam ser considerados e respeitados. É o momento para refletirmos sobre quais manifestações culturais vamos trabalhar e como vamos trabalha-las.

A pedagoga e professora de educação infantil, Ana Helena Rizzi Cintra, disse que numa das creches da Universidade de São Paulo – USP, onde trabalhou, não se comemoravam datas com temas como dia das mães, dia dos pais, dia da árvore, dia do professor ou dia do índio.

Na voz da Ana Helena…

“A gente (equipe da creche) pensa que são comemorações que podem não pertencer aos contextos das experiências das crianças, e essa não é a nossa proposta. Isto porque se tratam de temas escolhidos pelos adultos fora do diálogo efetivo com as crianças”.

 

Ana relata que muitos destes temas fazem parte de projetos, como os que abordam diversidade cultural. Outros temas trabalhados abordaram a questão de onde vem os bebês e outros tiveram como eixo as questões ambientais contemporâneas. Sendo assim, informações sobre comunidades indígenas, mães, pais ou árvores foram trazidas num contexto significativo para as crianças, uma vez que o constante diálogo com elas revelou o interesse por esses assuntos, muito diferente de trabalhar datas comemorativas como um currículo a priori.

Reflexões do nosso livro… (Práticas comentadas para inspirar: formação de professores da educação infantil – Editora do Brasil – MEC PNLD 2019)

Deise Miranda Barbosa, pedagoga e professora de educação infantil, conta que ao levar para uma turma as danças do Cacuriá, manifestação cultural maranhense, percebeu que ela funcionava com as crianças. A atividade se tornou uma brincadeira de corpo que atravessava a cultura popular.

A professora acrescenta que a proposta tinha os mesmos resultados com o Bumba meu boi e com o Maracatu, porque estas manifestações culturais têm um lugar no faz de conta, universo próximo ao da criança, com vestimentas específicas, personagens, falas de bichos, roda…, elementos típicos das brincadeiras das crianças.

Por que isto acontece?

Denise explica que esses folguedos inspiram as crianças a se “transformarem” nos personagens. Quando um brincante do Cacuriá está brincando com a música do caranguejinho, e faz o gesto de tirar o caranguejo do pé do colega, ele está de fato tirando o caranguejo na sua imaginação.

Ao trabalhar com as culturas populares os educadores trazem três aspectos importantes para as crianças:

  • ao dialogar com a faixa etária do grupo, a manifestação contextualizada deixa de ser apenas uma atividade;
  • as improvisações criadas pelas crianças são bem vindas e dialogam com a liberdade da arte contemporânea;
  • o resgate das brincadeiras tradicionais de infância.

Para que tudo isso ocorra, é preciso promover as manifestações despertando nas crianças o interesse e a vontade de conhecer… por elas próprias: pesquisando em conjunto, conversando com familiares e outros profissionais que talvez conheçam a cultura e fugindo das “explicações” e discursos desconectados do que é significativo.

A Bernúncia, o Bumba meu boi, o Jacaré boiô e outras manifestações culturais que trazem animais como personagens, despertam encantamento nas crianças de 0 a 3 anos e frequentemente são incorporadas ao faz de conta.

Uma professora de berçário (4 a 12 meses), movida pelo desejo de compartilhar nossa cultura, se tornou parceira da turma e mergulhou na brincadeira popular trazendo o Boitatá.

No começo foi preciso construir o boitatá no imaginário das crianças.

Como a professora fez isso?

Escolheu tecidos com os quais confeccionaria a grande cobra e os deixou disponíveis para que as crianças brincassem livremente. Os tecidos acompanharam o grupo nas histórias, nas brincadeiras de esconder e de vestir. A interação com os materiais preparou as crianças para transformação na cobra gigante!

Cobrindo uma peneira grande com um tecido e colando dois olhos, a professora a  fez a cabeça. Depois, levou a parte do personagem para sala e convidou as crianças a olharem para o objeto. Circulou pelo espaço cantando a já conhecida cantiga que embalou e acompanhou as brincadeiras do Boitatá.

Ao observar os olhos e as mãozinhas das crianças, ávidas por tocar na cabeça do animal, a professora cobriu o objeto com um tecido e completou a confecção da grande cobra brasileira.

A delicadeza do ato fez com que as crianças, ao contrário de sentirem medo, se encantassem e se aproximassem daquele elemento enorme. Narrando a história, grudando aqui e ali, ela permitiu que os pequenos vivenciassem a transformação do tecido em Boitatá. Dali a brincar de “engolir” os bebês foi um pulo!

Qual o resultado dessa estratégia?

Todos queriam entrar no Boitatá e, mesmo compreendendo que a música dizia que a cobra engole quem sorri, os bebês pulavam e batiam palmas excitados, porque achavam que a diversão estava em ser engolidos e ficar junto com o grupo debaixo do tecido.

O Boitatá foi a escolha feita pela professora que nos relatou esta interessante experiência, mas nosso país é rico em folguedos e brinquedos culturais, como os mamulengos, o cavalo marinho, o siriá e seus passos de siri e o conhecido bumba meu boi, com suas diferentes celebrações.

Nossas manifestações culturais compõem um repertório grande, diverso e dialógico com a infância. São enredos que instigam a imaginação. Aproveite para pesquisar e levantar com a equipe pedagógico novas possibilidades para trabalhar as manifestações e celebrar nossas riquezas culturais

Tânia Fukelmann Landau fala da importância das manifestações culturais na formação da criança
Ana Helena fala sobre datas comemorativas na creche
Como trabalhar as manifestações culturais brasileiras com os pequenos?

Tânia Fukelmann Landau – fundadora e diretora da CONVERSO_ Assessoria Pedagógica. Pedagoga pela PUC-SP e Especialista em Educação Lúdica pelo ISEVEC. Colaboradora em projetos e publicação da Fundação ABRINQ. Membro da diretoria da Casa do Povo (instituição cultural). Atualmente se dedica integralmente à formação continuada de educadores e aos estudos sobre a infância.

Ana Helena Rizzi Cintra – pedagoga e professora de Filosofia , especialista em Dança e Consciência Corporal. Atua como professora da Creche Oeste da Universidade de São Paulo e professora de Filosofia para o ensino médio.

Deise Miranda Barbosa – pedagoga, professora de educação corporal no litoral paulista e foi professora da educação infantil da Escola Vera Cruz.

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Cultura brasileira na Educação Infantil: como fazer essa conexão?

 

Ano vai, ano vem, as questões que envolvem a cultura na Educação Infantil trazem reflexão, discussão, conteúdos estimulantes e também certos desconfortos. Trouxemos as palavras da educadora Tania Fukelman Landau, que valoriza o território cultural no trabalho de formação que realiza nas creches, da educadora Cibele Racy, que coloca em prática uma intensa vida cultural na EMEI Nelson Mandela, SP, sob sua direção há mais de 12 anos, e da arte-educadora e brincante, Rosane Almeida, cofundadora do Instituto Brincante, SP.

aula de jongo

Tempo de Creche – Qual deve ser o olhar da Educação Infantil para Cultura?

Cibele – Compreendemos hoje que a escola não pode ser um território apartado de seu contexto histórico e social e dessa forma não poderia estar distante das mais diversas formas de expressão cultural, sendo por si só uma delas. Não se trata apenas de reproduzi-las no contexto escolar, mas inseri-las como objeto de estudo e trabalho no currículo da unidade. Continue lendo..

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Crianças e histórias infantis. Aprendem? Como e por quê?

Com o início do semestre temos uma ótima oportunidade de fazer uma revisão nos materiais de utilização constante pelas crianças como os livros da biblioteca. É parte do processo de introdução ou ampliação dos temas de interesse das crianças a seleção de livros que ficarão à disposição dos pequenos durante certo período. É o fortalecimento da relação crianças e histórias.

Mas como escolher? Histórias fantásticas, de animais ou descrições da realidade?crianças lendo 3

Pesquisadoras Caren M. Walker, Alison Gopnik [da Universidade da Califórnia, Berkeley] e Patricia A. Ganea [da Universidade de Toronto], em estudo recente publicado no periódico científico Child Development, enfatizam a importância das diferentes oportunidades para as crianças de aprenderem informações que elas não podem experimentar diretamente – especialmente no que diz respeito a fenômenos não observáveis, por meio da leitura de ficção.

Sabemos que as histórias nos ajudam, desde muito cedo, a compreender o mundo que nos cerca, mas como isso funciona? É também assim que as crianças aprendem com as histórias infantis? Mas como e por quê?

crianças lendo

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Protagonismo Infantil em 4 falas

campo de experiencias corpo trepa-trepaO PROTAGONISMO INFANTIL foi o tema que levantou mais comentários da série de postagens sobre o documento provisório da Base Nacional Comum Curricular . O documento provisório da Base não utiliza essa expressão como conceito central, mas como adjetivo de “PARTICIPAÇÃO” para ressaltar a escuta e a valorização da voz da criança.

Ao considerar as formas das crianças aprenderem, a “PARTICIPAÇÃO” foi transformada em direito:

PARTICIPAR, com protagonismo, tanto no planejamento como na realização das atividades recorrentes da vida cotidiana, na escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo linguagens e elaborando conhecimentos.

Assim, participar com protagonismo e fazer escolhas foram termos escolhidos para se aproximar da questão do protagonismo da criança. Porém, nos questionamos:

Por que não valorizar o conceito de PROTAGONISMO? O que o uso desse termo causa nos educadores que os fazem reagir de formas tão diversas?

Tempo de Creche foi atrás de algumas respostas para este questionamento e conversou com quatro educadoras e estudiosas da criança. Conhecemos diferentes caminhos que levam a pensar na escuta acolhedora dos interesses e pesquisas que as crianças trazem e na reflexão equilibrada do professor ao ponderar e dimensionar os desafios dos conteúdos mais importantes para serem trabalhados com suas crianças.

Como você explica o protagonismo infantil?

Para Alice Proença o protagonismo só pode ser visto em função de uma relação. Ora eu sou protagonista, ora eu sou coadjuvante. Ser coadjuvante significa que eu estou criando um meio para o outro poder ser o ator principal.

campo de experiencias identidade

A Denise Nalini parte para análise do termo: eu sempre penso no desmonte dos termos. A gente tem um monte de conceitos e eles não estão desmontados, desse modo, cada um entende o que quer. É assim que acontece com o protagonismo infantil. Entendemos a criança como capaz, no sentido da capacidade de aprender e de construir um conhecimento. Ela, enquanto criança, está em processo de formação e não tem condições de dizer “olha eu quero aprender isso e aquilo”. Ela precisa do olhar do educador para fazer a tradução de suas necessidades, que tem um papel fundamental no processo de desenvolvimento e acompanhamento da criança.

Josca Barouk também segue pela definição do termo protagonismo: se entendermos a vida como um palco e a criança como o ator principal da sua vida, ainda assim não quer dizer que ela pode tudo e nem de que ela prescinda de atores coadjuvantes, do diretor ou do roteirista. Então, tem muita gente que confunde protagonismo com deixar fazer tudo. Uma professora me contou que um menino de quatro anos chegou na escola, num dia muito quente, com a blusa de lã do irmão de oito anos. Ele não conseguia andar porque estava tropeçando. A mãe falava “mas ele quis!”. Olha só! A criança quer usar uma roupa de lã, de um menino mais velho para ir para a escola, mal conseguindo se movimentar e num dia quente. Basta ele querer? Pode uma criança escolher tudo o que vai comer? A hora de dormir? Os programas que vai assistir? Qual é o papel do adulto? Por outro lado, o adulto precisa regrar tudo? Então o que é esse protagonismo? A gente sempre foi protagonista da nossa vida, mas tem educadores que cerceiam a criança achando que só tem uma maneira de viver as experiências. Portanto, está nos olhos e na escuta do adulto perceber como a criança está se manifestando e em que pontos a criança pode fazer suas escolhas adequadamente.

Tânia Fukelmann Landau parte de um questionamento: como as crianças podem construir suas próprias narrativas? É preciso aguçar o olhar e a sensibilidade para escutá-las, e elas não falam somente com a boca. Dizem-nos com seus gestos, movimentos, olhares e inúmeras expressões. Precisamos aprender a interpretar e dar visibilidade para suas ideias, pensamentos e representações do mundo.

Como os educadores compreendem o protagonismo da criança?

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Diálogos sobre relações: famílias e creches unidas na educação I

As relações humanas são tão naturais que acontecem mesmo que não se troque nenhuma palavra. O ser humano é todo relação: qualquer sensação que detectamos a partir de outros seres humanos, nos provoca emoção e estabelece relações. Passamos informações através do nosso rosto, da roupa que usamos, do cheiro, da postura e obviamente das palavras. E, com essa bagagem, travamos as nossas relações.

Para o filósofo Vilém Flusser* as diferenças fazem parte da existência humana e ajudam a gerar mais conhecimento. Nesse contexto, as pedagogas Tania Fukemann Landau e Lena Bartman Marko escreveram diálogos sobre as relações envolvidas no ambiente das creches e instituições de educação. São sete capítulos para refletir e inspirar as ações dessa delicada relação e as possibilidades de construir um ambiente favorável ao desenvolvimento e educação das crianças e das comunidades abrangidas pela instituição. 

1. CONSTRUINDO DIÁLOGO E APOIO ENTRE FAMÍLIA E CRECHE

Quando uma criança entra na escola ela vem com o “pacote inteiro” – traz consigo uma história, uma família e um modo peculiar de ser, viver e se relacionar que vem ancorado na sua experiência pessoal e doméstica, pois cada indivíduo e cada família é de um jeito, tem seus hábitos, tradições e costumes.

Tarsila do Amaral

 

De modo geral, a família se alterou. Avós, tios e vizinhos não tem mais composto a vida cotidiana do arranjo familiar, assim, os espaços de troca e convívio tornaram-se escassos e os pais não sabem muito com quem podem contar em caso de necessidade, quando precisam de apoio ou de algum esclarecimento para suas dúvidas e incertezas. A correria do dia a dia invadiu as casas e transformou a relação com os filhos. Continue lendo..

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