Palavra de… Patrícia Auerbach: como ler livros para crianças? 

Ao conhecer os livros-imagem (sem texto) O Jornal e O Lenço, de Patrícia Auerbach, da Editora Brinque-Book, Tempo de Creche conversou com a autora sobre a importância da imagem para a criança e como se deu o processo de criação dos dois livros, que não têm texto, mas têm muito a contar.

Tempo de Creche – Qual foi a inspiração para os dois livros?

Pirata 1Patricia –  O Jornal nasceu de uma brincadeira em um dia de chuva, na casa da minha sogra, com meus filhos fazendo a maior bagunça. Tinha uma pilha de jornal do chão. Eu peguei uma folha e pensei, vou inventar uma coisa aqui. Comecei a fazer dobraduras e aquilo funcionou. Fiz um barquinho e meu filho olhou e disse – Um pirata!  Saiu incorporando um pirata. Eu ainda estava pensando o que ia fazer com aquilo e ele já era um pirata! Embarcamos nesta história e as crianças brincaram deliciosamente por um bom tempo.

A história do livro não nasceu no mundo das artes, da apreciação estética. Ela veio do mundo da experiência vivida. Os meus livros têm esta bagagem. O Jornal é imaginação aventureira destemida, guerreira. Eu pego uma espada e me sinto poderoso, eu me visto com um chapéu de jornal e assumo um personagem. A autonomia da criança vem de um objeto qualquer, um pano, uma garrafa, um guardanapo… parece que é chave para acessar um lugar de poder ser tudo, como na linda frase agora eu era herói (Aquarela de Toquinho).

Tempo de Creche – Como você faz a passagem da experiência vivida para os livros?

Menina no espelhoPatricia – O livro O Lenço sou eu. Quando criança, eu tinha a mania de brincar com a toalha de banho. Tomar banho sem ninguém por perto, me vigiando, foi uma conquista da autonomia. Depois de horas cantando no chuveiro, eu gostava de vestir a toalha e fingir que ela se transformava em várias coisas: o cabelo da Rapunzel, véu de noiva (eu estava casando!). No fim do livro tem a imagem de um espelho, uma referência ao grande espelho que tinha no meu quarto. Era na frente dele que eu brincava com a toalha e pensava no que eu podia fazer com ela. É uma memória afetiva.

Tempo de Creche – Como a escola recebe esse tipo de livro? Como o professor trabalha com o livro-imagem?

Patricia – As crianças adoram. É visível a potência criativa dos livros. Os professores vêm suas crianças nos personagens mas, às vezes, têm alguns receios. Então, digo para eles: vale tudo. Não tem certo, nem errado! Não existe uma maneira correta de “ler” este tipo de livro.

Por exemplo, eu gosto de fazer uma leitura cantada para o livro O Jornal. Eu canto a música Aquarela do Toquinho e vou virando as páginas com muita calma. Numa das páginas,  em que o menino (o personagem) tem uma ideia e começa a transformar o jornal em barquinho e chapéu, eu vou cantando:

Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo
E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo
Corro o lápis em torno da mão e me dou uma luva
E se faço chover, com dois riscos tenho um guarda-chuva
Se um pinguinho de tinta cai num pedacinho azul do papel
Num instante imagino uma linda gaivota a voar no céu
[…]

As pessoas conhecem essa música. Ela tem valor afetivo para uma geração, lembra a propaganda de lápis e a vontade de ter a caixa de lápis de cor. As pessoas carregam uma bagagem afetiva e, quando eu trago a música, elas jogam para dentro do livro.

NoivaPor isso eu digo que tudo é válido. Depende da bagagem da cada um. Essa é só uma das várias possibilidades de leitura desse tipo de livro. Além disso, cada momento pede uma leitura diferente. Em algumas ocasiões a leitura silenciosa funciona bem. Quando a turma está agitada, é melhor construir um enredo junto com o grupo. Se o professor está animado e disposto, ele se aventura na criação de uma versão. E não precisa ser sempre igual! A beleza é justamente pensar que existe uma infinidade de histórias e possibilidades dentro dos vazios (de texto escrito) do livro. Por isso é possível cantar, calar, contar.

Tempo de Creche – Você trabalha com formação de professores para promover a leitura de livros ilustrados. Pode nos contar sobre essa ação?

Patricia – No livro contemporâneo as palavras e as imagens se combinam para criar uma mensagem. São histórias que se ouvidas no rádio não funcionariam. Além de ler o texto, é preciso ver a imagem para que a narrativa aconteça. A velha história do professor ler primeiro e depois mostrar a imagem não traz significado. A criança precisa ver a imagem junto com o texto e, assim, cria-se a interação que às vezes se contradiz e às vezes se complementa. Por isso é fundamental que os professores compreendam que as duas linguagens se articulam, textos e imagens, para criar a narrativa. Muitas pessoas não  pensam nisso.

Fiz uma pesquisa, que acabou sendo o tema do meu mestrado, para compreender as formas de se trabalhar os livros na sala de aula: os cuidados que o professor precisa ter e o que ele precisa saber para trabalhar com as crianças e fazer com que o livro chegue até elas.

Tempo de Creche – Quais foram os resultados dessa pesquisa?

Patricia – Antes, é preciso entender que o professor faz uma adaptação quando faz a leitura do livro na sala. Por que digo isso?

professora mostrando livro 1Porque o livro é pensado para ser lido sobre uma mesa, no colo, de pertinho e na nossa mão. No máximo com a pessoa que está ao lado, duas, três. É para ser uma situação aconchegante e próxima. No momento em que fazemos uma leitura para um grupo de 20, 30 ou até 40 crianças, é preciso fazer uma adaptação. Essa não é a função primordial do livro. Portanto, precisamos tomar alguns cuidados.

professora mostrando livroA começar pela maneira como o grupo se senta e se organiza ao redor do leitor do livro. Como crianças vão ter acesso às imagens do livro? Por isso, é preciso sentar o mais perto possível. O leitor deve se sentar um pouco mais alto, para que todos possam visualizar as imagens. Nas rodas com grupos de 30 crianças, aqueles que se sentam no lado oposto do leitor, ficam 3 metros distantes do livro. Por outro lado, as crianças que ficam perto, mas ao lado do professor, vêem o livro de lado ou por breves instantes, quando a professora vira o livro em sua direção. Isso não é suficiente.

Algumas escolas projetam as imagens das páginas dos livros quando trabalham com turmas muito grandes. É valido? Sim é valido. Mas essa é mais uma adaptação e, também, exige alguns cuidados. As crianças precisam ter o livro perto para compreender que a projeção – ampliada e desbotada – não é o “objeto livro”. Essas situações precisam ficar claras.

Outro ponto importante é a postura do professor durante a leitura. Ele está atento à história, saboreando o que está lendo ou só está repetindo as falas do enredo burocraticamente? Ele está confortável? Como ele segura o livro?

Tempo de Creche – Qual o ponto de partida para trabalhar com os livros ilustrados e os livros-imagem?

Patricia – Tempo! A criança precisa de tempo para decodificar as duas linguagens (a verbal e a imagética). O professor precisa de tranquilidade para respeitar o tempo de construção de sentidos.

Pirata 1Todos os livros têm vazios. Os meus têm muitos espaços em branco. O professor não precisa ficar aflito e se perguntar: o que eu faço com está página? Eu invento, conto uma história ou, simplesmente, viro a página? Eles se sentem perdidos porque estão acostumados com os livros em que está tudo dito e explicado. Neste sentido, é mais fácil ler um livro de texto, não ilustrado ou pouco ilustrado, em que as ilustrações não dialogam com o texto.

A leitura é uma experiência silenciosa, que exige tranquilidade e pausas. Onde os espaços em branco precisam de respiro, para que a criança possa preenche-los à sua maneira, com a bagagem e experiência própria.

Vivemos num mundo em que o silêncio é visto como perda, associado ao tempo mal gasto. Isso é absurdo, porque ninguém cria sem o vazio. É no vazio que podemos fazer conexões.

Tempo de Creche – Existe alguma proposta específica para trabalhar o livro- imagem?

rapunzelPatrícia – Eu defendo que o mediador deste tipo de livro só precisa abrir portas: leitura silenciosa, inventar uma história, amanhã inventar outra, permitir que as crianças inventem as suas próprias histórias. Assim, os pequenos vão compreendendo a potência dessa interação. Outra possibilidade é fazer frases incompletas para as crianças completarem.

Ao permitir a narrativa criada pelas crianças é possível que surja outra história no meio da leitura do livro. Se a história inventada ficar sem pé e cabeça, tudo bem! Que tal começar outra? Vamos tentar de outro jeito? Estas são as experiências de viver as histórias em branco. É muito bonito. A poesia está aí. É uma relação diferente que se estabelece entre o livro e a criança.

O importante é aceitar que não existe uma fórmula. Não existe uma história única sendo contada. E, se pararmos para pensar, fica fácil perceber que qualquer livro é assim. O que está registrado nas páginas é a intenção do autor. A versão dele para os fatos, mas para cada leitor a história contada ganha contornos diferentes. Essa é a beleza!

Para saber mais, 

jornal_capa

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O Jornal, 2012, Brinque-Book
O Lenço, 2013, Brinque-Book

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patriciaPatricia Auerbach

Formada em Arquitetura e Publicidade com especialização em História da Arte pela New York University e em desenho pela School of Visual Arts (NY) e pedagoga, pelo Instituto Singularidades de São PauloHoje, autora e ilustradora de livros infantis, arte-educadora e professora do Pró-Saber São Paulo.

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5 Comentários para Palavra de… Patrícia Auerbach: como ler livros para crianças? 

  1. Marina Tanzi diz:

    Montei um projeto com jornais velhos inspirado no livro O Jornal da Patrícia Auerbach para criança de 3 anos. O resultado alcançado com as criança pequenas foi excelente.
    O projeto contém o desenvolvimento de atividades como: a confecção de brinquedos de jornais pelas crianças com o auxilio do professor, roda de leitura, confecção de papel reciclado e papel machê.
    Primeiro eu faço a leitura do livro O jornal para as crianças. Depois eu escondo uma pilha de jornais velhos na sala de aulas.
    Ao encontrarem a pilha de jornais que estava escondida na sala de aula, as crianças se reúnem em uma roda de conversa para discutir quais brinquedos e brincadeiras podemos realizar aproveitando aqueles jornais.
    Como produto final do projeto, as crianças confeccionam papel reciclado e papel machê reaproveitando os brinquedos confeccionados de jornais que já estão desgastados pelo uso.
    O papel reciclado assim o como o machê produzidos pelas crianças são aproveitados nas aulas de artes da turma.

    • Olá, Marina. Obrigada pelo retorno e por partilhar as atividades do projeto com jornais e brincadeiras. Você não esclarece a idade das crianças de sua turma e o tempo do projeto. Conte mais detalhes. Abraço

      • Marina Tanzi diz:

        Montei este projeto para trabalhar com o maternal II (crianças de 3 anos completos). A duração é de 20 dias.

        • Obrigada, Marina! Você gostaria de ver publicada sua experiência?
          Envie para a gente texto mais detalhado e fotos que revelem o processo e as conquistas das crianças[autorizadas para a publicação no blog, quando necessário, isto é, quando é possível identificar as crianças], Nome completo da escola e das professoras que participaram do projeto. Abraço

          • Marina Tanzi diz:

            Adoraria ter uma experiência publicada por vocês. Vou organizar o material e enviarei para vocês. Muito obrigada pelo convite.

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