Arquivo do autor: Tempo de Creche

Google

Adaptação: emoções à flor da pele

Reunimos diversos pensamentos, depoimentos e práticas relacionadas à adaptação das crianças à creche e à pré escola no início do ano letivo. Essa situação geralmente perdura um mês e traz ansiedades e angústias de todos os lados: professores, famílias e crianças. Mas é também uma questão pensada e estudada. Conhecer visões sobre o assunto pode transformar o medo do desconhecido num primeiro passo para atravessar a porta de entrada!

Frato menina

Balão numero 1O primeiro passo na visão de alguns estudiosos

“O momento de visita de uma criança a um local (…) é inaugural, ou seja, ao mesmo tempo, inaugura um novo lugar e inaugura um novo você”.
Coordenadora do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca, Mila Chiovatto, em depoimento para o Bolg Tempo de Creche (“É preciso olhar o mundo com olhos de criança”. Henri Matisse) 

“Temos que ter o maior cuidado com este primeiro encontro [da criança com o local], o tempo inaugural. É preciso ter profissionais cuidadores do tempo inaugural. É o futuro que está sendo construído. É uma alta responsabilidade”
Luiz Guilherme Vergara, educador, curador e atualmente diretor do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, em depoimento para o Blog Tempo de Creche (“É preciso olhar o mundo com olhos de criança”. Henri Matisse) 

A escola é uma espécie de segunda casa das crianças. Elas vão passar boa parte do dia neste ambiente. Na realidade, a creche e a pré-escola são os primeiros espaços de uma sequência de lugares educativos, são as portas de entrada da vida escolar.

Para as famílias da Educação Infantil o ambiente da instituição é novo e desconhecido. Iniciar a apresentação do local com pais e responsáveis e, depois, deixar para eles a tarefa de conduzir a criança na sua primeira visita, vai assegurar aos pequenos que o local conta com a aprovação da família. Essa ação pode contribuir para:

  • Uma boa relação das crianças com o novo ambiente
  • Familiaridade e integração das famílias com a instituição
  • Construir parceria na adaptação da criança na creche

Em depoimento para o Blog Tempo de Creche, Anelise Csapo, supervisora do Núcleo Educativo da Casa das Rosas (SP),  (Primeiro dia na creche: um olhar novo de tudo) afirma: “Se a gente trabalhar instigando a criança a perceber o espaço como ela vê e como ela vai dispor das coisas, ela vai encontrar o “seu” espaço, ela vai começar a interagir, construir um espaço que seja aconchegante, que tenha acolhimento. Ao mesmo tempo, ela vai estar num momento de aprendizado, ela vai observar e ela vai trocar com outro, para criar uma coisa nova, mesmo que seja por intuição. Diferente de nós que pensamos o espaço como um todo, ela instintivamente vai pela curiosidade, percebendo, construindo o novo e se apropriando”.

Cida Perez, socióloga, ex secretária de educação da cidade de São Paulo (“É preciso olhar o mundo com olhos de criança”. Henri Matisse) destaca: “No primeiro dia da criança, em vez de dizer aqui é sua sala de aula ou, para os maiores, esta é a mesinha, a cadeirinha, este é o professor; vamos deixar  que ela entre e fale o que acha daquilo. Deixar que ela percorra a escola. Assim ela vai se enxergar no espaço que vai visitar diariamente e fazer desta visita um prazer”

Balão numero 2Algumas explicações

A entrada dos pequenos na creche é motivo de tensões pois nesse processo há angústias, curiosidades, mudanças e surpresas. Porém, é preciso saber que a adaptação não ocorre uma única vez. A cada novo ano, volta de férias, de um período de afastamento, acontece o recomeço.

Muitos sentimentos e emoções acometem os pequenos e demandam sensibilidade e delicadeza da equipe:

Frato tudo a seu tempo1)     O MEDO DE FICAR PARA SEMPRE NA ESCOLA – Apesar do acolhimento da professora é importante que as famílias esclareçam e incentivem a criança dizendo o que irá acontecer e que vão retornar para buscá-la.

2)     QUERER FICAR COM A MAMÃE – Claro que a criança deseja ficar com quem conhece, seja a mãe, a avó, o pai ou o cuidador. O vínculo com os professores e demais funcionários está apenas começando. Os professores devem fazer parceria com as famílias para construir o novo vínculo com as crianças. Para isso, algumas dicas fundamentais:
⇒ Não disputar o abraço, o colo, a atenção e o tempo dos pais com seus pequenos! Se o responsável se demorar na despedida, atrasar ou qualquer outra situação contrária às regras e combinados da adaptação, o melhor é esperar o momento passar e conversar com o familiar longe da criança.
⇒ Combinar com a equipe quais crianças “pertencerão” a cada educador, especialmente no período de construção de vínculo. É a ideia de adulto referência de Emmi Pikler. Ao ingressar num universo novo e estranho, o pequeno constrói vínculo mais facilmente com uma só pessoa. Assim, nos momentos de trocar, lavar as mãos, escovar os dentes, alimentar e, se possível na recepção e na saída, é fundamental que um dos professores faça todas essas ações. Ele será a referência da criança no novo ambiente. Depois, quando o pequeno estiver adaptado, será mais fácil ter toda a equipe dividindo as atenções.

3)     DESEJO DE PERMANECER COM O OBJETO TRANSICIONAL (Winnicott)- É interessante permitir que  criança traga algum objeto de casa, se quiser ou estiver acostumada. Essa é uma boa maneira de fazê-la se sentir reconfortada. É como se ela estivesse levando uma parte, um cheirinho de casa consigo. Aos poucos, a criança vai trocando o objeto transicional  por brinquedos e brincadeiras da escola.

4)     SEMPRE FALAR A VERDADE PARA A CRIANÇA – Isso é fundamental! Conversar com os pais para que não prometam aquilo que não farão ou não cumprirão:
⇒ Não fugir da criança sem dizer adeus. É importante se despedir dela, mesmo que ela chore.
⇒ Pedir aos pais que digam à criança que irão voltar e solicitar que voltem no prazo estabelecido ou sugerido.
⇒ Essencial não prolongar os momentos de despedida! Assim que se despedirem, instruir os pais para que deixem o espaço.

5)     FAMÍLIAS DEVEM EVITAR PERGUNTAR À CRIANÇA SE ELA QUER IR À ESCOLA – Conversar com as famílias sobre essa questão pois a decisão de frequentar a escola deve ser tomada por pais e responsáveis e não pela criança. É comum que a grande maioria dos pequenos  prefere ficar em casa, onde o ambiente é conhecido por eles e são tratados com prioridade total. Você não preferiria isso também?

Assim, fundamentalmente, a adaptação é a construção de uma relação criança-escola-famílias que tem que ser alimentada para ganhar solidez.

Balão numero 3Ambientes e propostas

Em muitos casos, embora a criança esteja aparentemente adaptada à rotina escolar, pode ocorrer uma espécie de retrocesso. Ou seja, depois de alguns dias chegando bem à creche e se mostrando disposta, a criança passa a não querer mais frequentar a escola. Esse fato pode ter muitas causas, a mais frequente é a ausência de novidades no espaço escolar ou até a presença de regras que regem os grupos sociais, às quais o pequeno não está habituado.

Frato espera

Explicando melhor, há crianças que exploram todo o ambiente em poucos dias, que adoram entrar na escola, pegar brinquedos e se divertir em todos os lugares oferecidos pela professora. Aí, as novidades acabam! Em casa, a criança prevê o que irá acontecer (ou não acontecer!) na escola e…. não quer mais voltar.

Também existe a criança que é única ou quase única em casa e, de um dia para o outro, passa a ter que esperar a sua vez para beber água, ir com todo o grupo lavar as mãos ou aguardar a vez para brincar.

A organização dos espaços na educação infantil é reconhecida como o “terceiro educador” (Lella Gandini). No período de adaptação, os desafios apresentados pela escola podem encorajar as crianças a participar das propostas, criar um clima positivo de pesquisas e descobertas, relacionamentos e interação, possibilitando melhores oportunidades para estabelecer uma conexão com a escola. Planejar uma sala acolhedora com cantos e propostas variadas e desafiadoras, que se alternam, é uma estratégia para apresentar inovação e instigar a vontade de voltar para a escola.

Outro aspecto fundamental da construção da relação criança-professor-escola é a escuta. Compreender o que as crianças estão “dizendo” é importante para identificar mudanças de rota e novas ações. O professor precisa estar preparado para ler as atitudes e contribuições (as respostas) da criança. Não é só a palavra, mas todo o corpo que fala. Este momento é uma novidade para os pequenos e uma novidade para os professores também.

Balão numero 4O olhar da Psicologia

As reações da criança à separação da mãe têm sido colocadas entre o protesto e angústia. (Bowlby, 1973/1993). O protesto da separação é a resposta da criança quando a mãe a deixa (choro, gritos, birra, jogar-se no chão etc.). A angústia de separação é o sentimento que fica na criança (tristeza, angústia, sofrimento verdadeiro).

Frato resistênciaBowlby definiu algumas formas de comportamento que são indicativas do medo despertado pela separação e pelo contato com pessoas e lugares estranhos. Exemplos destes comportamentos são:

  • olhar de cautela
  • inibição da ação (a criança fica parada, sem fazer nada)
  • expressão facial assustada
  • tremor ou choro
  • busca de abrigo
  • esconder-se
  • agarrar-se a alguém

Estas formas de comportamento, indicativas de medo, são seguidas por três tipos de resultados previsíveis: imobilização, distância crescente do que as “ameaça” e proximidade crescente de quem ou do que fornece proteção. Os sentimentos e a delicadeza das emoções da adaptação precisam ser reconhecidos pelos profissionais das escolas e também pelas famílias.

Cada contexto tem suas particularidades e, se as características individuais da criança são ou não compatíveis com o contexto da creche, ela se adaptará mais ou menos rapidamente. Assim, podemos entender a adaptação à creche como um processo gradual, em que cada criança precisa de um período de tempo diferente para conhecer, lidar com as emoções do estranhamento e se sentir confortável e acolhida. É importante respeitar os ritmos singulares e não impor um período pré-determinado para o processo acontecer.

Balão numero 5Na prática

Balão na PráticaEm 2007, no Colégio Farroupilha, em Porto Alegre, durante a entrevista com as famílias, a professora Edimari Rodrigues Romeu pediu fotos das crianças com os parentes e com os animais de estimação. Pediu também que que fossem enviados os brinquedos preferidos: é importante que elas encontrem objetos pessoais na escola, justifica a professora. Isso dá a sensação de extensão de casa na instituição.

A professora preparou um ambiente colocando almofada e os brinquedos recebidos sobre um tapete colorido de EVA. Em paralelo, fez cópias dos retratos, confeccionou um painel plastificado e fixou-o na parede, numa altura acessível ao grupo.

As imagens originais foram utilizadas em álbuns individuais. A professora colou as fotos em folhas de sulfite dobradas, digitou as legendas com o nome das pessoas e a situação, por exemplo, Pedro com seus avós no parque. Para garantir maior durabilidade, também plastificou o material. Com o furador, fez dois orifícios em todas as páginas e as uniu com barbante. Como a intenção era deixar os álbuns acessíveis às crianças, ela tomou o cuidado de não usar grampeador nem fio de náilon.

Apesar da liberdade para explorar os espaços da sala, a professora percebeu que “em alguns momentos, as crianças ficavam um longo período olhando e observando seus parentes e os dos colegas” nas fotografias. Mas nem todos se acalmavam vendo a imagem das famílias. No início, era comum alguns chorarem de saudade. Quando isso acontecia, a educadora pegava a criança no colo e conversava sobre o momento em que se reencontrariam com as famílias novamente. Um de seus argumentos era a proximidade da hora de saída. Com os pequenos que ainda não andavam, a estratégia era levá-los ao painel ou fixar as fotos plastificadas no chão. Durante o ano, Edimari refez o material algumas vezes por causa da manipulação, mas isso não foi problema! O que importa mesmo é o bem-estar da turma.

As crianças foram ficando tranquilas dentro do novo ambiente. Para demonstrar aos pais e responsáveis ansiosos, a educadora elaborou uma Documentação Pedagógica específica: fez fotos de diferentes situações, como a brincadeira no tanque de areia, a hora do lanche, o abraço apertado no novo brinquedo querido e os olhares felizes em direção ao mural. Diz a professora: “as crianças aprendem a ficar longe da família e, com isso, se apropriam dos espaços da creche“.

Mafalda fazer melhor

Balão na PráticaSugestão para uma reunião de equipe sobre o tema Adaptação

Esta postagem pode auxiliar no aprofundamento do tema nas reuniões de equipe. Sugerimos separar a equipe em cinco grupos, imprimir cada tópico da postagem separadamente e entregar para os grupos lerem. Depois, solicitar que cada grupo:

  • Converse sobre o conteúdo
  • Faça um pequeno resumo das ideias do(s) texto(s) para apresentar para os outros grupos
  • Levante duas ou três ideias que mais chamaram a atenção (positiva ou negativamente), pensando no porquê da escolha para apresentar para todos
  • Planeje ações e propostas para preparar uma sala desafiadora, atividades que possam revelar características individuais (que tal uma sequência diária de cantos diferentes?) e estratégias para comunicar aos pais e responsáveis sobre o período de adaptação.

As discussões e reflexões trazem luz ao processo, acalmam a ansiedade da equipe e podem promover uma boa entrada de todos na creche.

barrinha colorida fininha

Balão Para Saber MaisLeia também:
Adaptação em processo: você já é o brinquedo favorito das suas crianças
Professoras sabidas: seis dicas práticas para a adaptação

BIBLIOGRAFIA:

  • ADAPTAÇÃO – quem se adapta a escola: pais ou filhos?, de Maria Elisa Neves de Oliveira
  • A reorganização do espaço da sala de educação infantil: uma experiência concreta à luz da Teoria Histórico-Cultural
  • O Ingresso e Adaptação de Bebês e Crianças Pequenas à Creche: Alguns Aspectos Críticos, de Adrea Rapaport
  • Adaptação bem feita – Bebês e crianças pequenas se sentem à vontade quando a creche acolhe as famílias e os objetos pessoais de todos – Revista Nova Escola
Postado em Desenvolvimento Infantil, Postura do Professor | Tags , , , , | Clique para deixar um comentário!

Educação infantil faz diferença?

Feliz 2018!
Feliz Educação Infantil!
Abrimos as postagens deste ano com uma conversa em torno da reportagem publicada nesta segunda feira (8/01/2018), pelo jornal O Estado de São Paulo: “Só o acesso à educação infantil não é suficiente”.
Participaram do bate-papo a psicóloga e orientadora educacional da Escola Criarte, SP, Joyce Eiko Fukuda; a pedagoga e formadora, Lucila Silva de Almeida, e as três autoras do Tempo de Creche, Angela Rizzi, Maria Helena Webster e eu, Joyce M. Rosset.

IMG_6778 2

A reportagem do jornal apresenta uma entrevista realizada com a Professora Dana McCoy, da Escola de Educação de Harvard, renomada universidade americana. Na entrevista a professora compartilha as conclusões de uma importante pesquisa que analisou 22 estudos científicos publicados entre 1960 e 2016, para responder à questão: a Educação Infantil faz diferença na qualidade de vida das crianças e dos futuros adultos?

A pesquisadora conclui que sim. E nós, participantes dessa conversa, também!

A resposta pode parecer óbvia para nós que diariamente dedicamos estudo, trabalho árduo e amor nas creches e escolas do país. Mas essa resposta também pode ser entendida como ponto de partida para que perguntas mais importantes sejam formuladas.

Dana McCoy ressalta que a qualidade da educação praticada é o ponto crucial dessa questão. Educação infantil de qualidade tem sim impacto na vida das pessoas e pode proporcionar experiências que ajudam crianças a construir recursos para lidar com contextos difíceis, a exemplo de “famílias com severos problemas de adversidade, como violência e pobreza”, apontado pela pesquisadora. Segundo ela, “nesses casos, uma educação infantil de qualidade pode ter um papel de proteção”.

Então quem é responsável pela educação infantil?

Lucila responde que essa responsabilidade é compartilhada entre as famílias e a escola. Em qualquer contexto, é esta parceria que insere as crianças no mundo, apresenta-as à cultura e aos valores – experiências primordiais para toda vida.

É uma educação das sutilezas, daquilo que aos adultos parece simples, mas que é extremamente desafiador e complexo para os pequenos. Uma ajuda para que a criança possa descobrir que não está só no mundo e que há diferentes jeitos de se estar nele.

São parcerias com papeis diferenciados. À escola cabe estabelecer um espaço de desenvolvimento, socialização e aprendizagem, em que o afeto esteja naquilo que é proposto e disponibilizado às crianças.

Com isso, a escola favorece a vivência de novos e diferentes jeitos de cuidar e ser cuidado; se apresenta como um lugar de aprendizagem em que o brincar está garantido.

De fato, a pesquisadora comenta sobre a importância da garantia do tempo de brincar livre para a criança. O que pensar sobre isso?

Para a Angela, um possível desdobramento desse aspecto é tempo que é reservado ao brincar na rotina da escola.

O que normalmente é compreendido como livre nas creches e pré-escolas?

É o tempo que o professor “permite” às crianças nas atividades não dirigidas e, frequentemente, ele (professor) fica livre para fazer outra atividade (como as decorações das paredes, algumas lembrancinhas etc.). Neste caso, o professor se omite e não enriquece as propostas com sua interação e intervenções.

Na reportagem, Dana cita como resultados do brincar com liberdade de escolha o desenvolvimento da criatividade e a aprendizagem do funcionamento do mundo e do relacionamento entre as crianças. Mas, para que as crianças possam explorar as brincadeiras de forma independente ou com outras crianças, esse tempo de autonomia deve ser planejado e acompanhado pelo professor.

Fala-se então de “qualidade”. Quais seriam os critérios para realizar uma educação de qualidade?

Joyce Eiko responde:

Pode ser interessante pensarmos aqui a partir das respostas da professora Dana. Ela fala da importância de um “ambiente físico seguro e envolvente”, das interações afetuosas e estimulantes com as crianças, e das condições de formação do professor. Cada um desses aspectos pode ser entendido de infinitas maneiras! Assim, podemos desdobrar essas ideias:

  • Como entendemos que um ambiente é seguro? Falar sobre um ambiente seguro não quer dizer ausente de riscos. É só a partir de um ambiente seguro que a criança se permitirá explorar o espaço e o corpo, experimentar-se nas relações, enfim, correr riscos em termos motores, afetivos e cognitivos.
  • Como construir novos olhares para o que chamamos envolvimento? Dizer que um ambiente é envolvente pode abarcar sentidos diversos: como provocador da criatividade, convidativoàs interações e, ao mesmo tempo, acolhedor das emoções em sua diversidade. O envolvimento dá contorno ao corpo e à experiência, e é isso que permite que a criança se lance para novas descobertas.
  • É possível ampliar nossa compreensão sobre afeto e estímulo? Trabalhar para a construção de interações afetuosas e estimulantes envolve especialmente aquilo que é pequeno e singelo, como um balbucio, um gesto ou um olhar – osilêncio entre as canções ou pausas no meio das conversas que convidam ou estimulam a fala.
  • Como criar outros olhares para a questão da formação? Pensar em condições de formação do professor é refletir sobre políticas públicas, mas é também considerar o dia a dia da creche: como as relações se estabelecem em equipe, como se lida com erros, como se superam as adversidades. Fundamentalmente: como se constroem contextos de aprendizagem não somente para as crianças, mas também para os educadores.

A professora também afirma que “uma educação infantil de qualidade permite que as crianças desenvolvam habilidades sociais, emocionais e cognitivas que as ajudam a ter mais sucesso na vida escolar”.

Segundo Maria Helena, essa é uma afirmação que, em si, não gera discordância, mas é certo que ela nos leva a pensar em desafios: no dia a dia das creches, como são trabalhadas as habilidades sociais e emocionais?

Diante de tamanha valorização do aspecto cognitivo em nossa sociedade, há um trabalho que de fato valorize e promova as outras habilidades?

É interessante pensarmos que o olhar e a escuta para a singularidade de cada criança constrói, como outra face da mesma moeda, um trabalho com a diversidade no convívio coletivo. E bem sabemos que isso não é tarefa fácil! Congregar diferentes pensamentos, culturas, histórias e conviver com as singularidades é um aprendizado que se inicia na educação infantil, mas nunca termina.

Para Joyce Eiko, os profissionais que trabalham no cotidiano das creches e escolas, em todos os níveis de ensino, sabem o quanto as habilidades sociais e emocionais tendem serem vistas como “subsidiárias” da cognição, como se fossem requisitos ou fatores que devem ser trabalhados com um fim: o aprimoramento da inteligência. “João não consegue aprender porque não para quieto! Maria não presta atenção na atividade porque é muito agitada! Pedro não avançou nada neste semestre (referindo-se somente às atividades consideradas “pedagógicas e dirigidas”).

Sim, afirma Maria Helena, o olhar para as habilidades sócio emocionais como fundantes de todo ser humano e como “conteúdos educativos” parece estar em construção. Embora já “batidos no discurso”, entender os diversos aspectos como entrelaçados ainda é um desafio na prática.

Assim, é fato que essas habilidades são (e muito!) trabalhadas nas creches. Todos os dias, por todos os educadores. Talvez o desafio seja construir a intencionalidade dessas ações, a reflexão sobre elas como conteúdo pedagógico, e isso pressupõe valorizar as interações mais simples, que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia atribulado com tantas atividades.

Ao meu ver (Joyce M. Rosset), pesquisas de impacto na Educação são sempre delicadas e difíceis de realizar devido à variedade de abordagens, vieses e contextos levados em consideração. Buscam-se respostas definitivas e resultados generalistas. Assim, para que possamos aproveita-las vale mantermos as premissas de que mais importante do que as respostas são as perguntas que conseguimos formular, e que as respostas construídas são valiosas como passos para mantermos as ideias em movimento.

O fato é que sabemos o valor da Educação Infantil e o quanto ela representa para as nossas crianças e suas famílias. Os resultados são palpáveis. Mas é preciso ir além e tecer redes de diálogo e construção para arriscar pensar em conjunto, considerando todas as perspectivas e indo além das respostas já conhecidas. Na verdade, vestindo um pouco da avidez das crianças que ousam pensar diferente só para ver onde vai dar!

Desejamos que o tom deste ano seja pautado no diálogo, no compartilhamento de ideias e na ousadia de rever o velho e experimentar o novo.

Postado em Desenvolvimento Infantil, Palavra de... especialista | Tags , , , , , , , | 1 Comentário

Parece que foi ontem… quase 2018!

cartão boas festas 2017-2018

Caros leitores,

Parece que foi ontem que começamos a compartilhar nossas jornadas com os profissionais da Educação Infantil.

Muito já passou…

380 postagens, 1800 imagens, 1000 comentários, 100 participações de especialistas, professores, coordenadores e gestores, quase 30 mil assinantes e 2 milhões e seiscentos mil acessos. Tudo isso porque formamos uma comunidade aberta, engajada, disposta a trocar, contribuir e se inFORMAR. Um time de pessoas preocupadas com a criança pequena.

E 2018 promete…

… temos uma a Base Nacional Comum Curricular aprovada para explorar e testar, um livro a ser publicado que organiza e sintetiza as nossas crenças, novas postagens no Tempo de Creche e um país que está se auto-avaliando para se reinventar.

Desejamos continuar juntos em 2018, de coração e mentes abertas para olhar a criança, aprender com ela e construir uma Educação sempre melhor.

Boas festas!

Postado em Imagens | Tags , , | 7 Comentários

O encantamento das brincadeiras com barcos

Tempo de verão pede água!
Lagos, rios, mares, tanques e até recipientes com água atraem o olhar nos dias de calor. A transparência, o movimento, a cor e a lembrança das sensações refrescantes invadem a imaginação. Um brinquedo que pertence a esse universo, desde que infância é infância, são os barcos. Meticulosamente elaborados, construídos com materiais acessíveis ou até os mais simples, de papel, desafiam os movimentos e a criação de estratégias para compor enredos de aventuras.

Barcos feitos com caixasNeste semestre, alguns professores em formação com a equipe do Tempo de Creche (pelo Programa Desafios IMPAES 2017) arriscaram resgatar as brincadeiras com barcos em sequências didáticas que deram muito o que pensar…

O pensar dos professores…
Os professores foram desafiados a pensar sobre a cultura da brincadeira tradicional para levantar histórias e informações interessantes e alimentar a imaginação e os saberes das crianças. Pesquisaram materiais e testaram estratégias para construir os barcos. Os professores também planejaram os cenários para que as brincadeiras acontecessem: bacias, baldes, bandejas e calhas com água azul para encantar e aproximar das ilustrações dos livros.

Construção de barcos de brinquedo

O pensar das crianças…
brincando com barcos com calha
O antigo meio de transporte foi trabalhado com as turmas por meio de livros de histórias, imagens e filmes pesquisados na internet. As rodas de conversa propuseram um diálogo sobre os materiais e os modos a serem utilizados na construção das embarcações.

Com barcos prontos e crianças preparadas e ansiosas, as experiências foram intensas! Cada turma vivenciou um cenário diferente, já que o clima, os espaços das creches e as faixas etárias das turmas variaram:

As brincadeiras aconteceram em dias de sol e dias nublados.
Alguns barcos boiaram com facilidade.
Outros barcos demandaram delicadeza no manuseio.
Velas pequenas não apresentaram resistência ao vento.
Velas de tecido impulsionaram os barcos.
Mãos, pés e até o corpo todo fizeram companhia para os barcos.
Certos movimentos feitos com as mãos provocaram ondas e “maremotos”.
Calmaria e sossego trouxeram sonho e poesia!

brincadeira com barquinhos

As crianças elaboraram histórias de aventura, se frustraram quando os materiais não respondiam aos desejos, se empenharam para solucionar problemas, compreenderam algumas propriedades da água e dos materiais.

brincadeira com barcos na creche

Os professores acompanharam os processos, provocaram as crianças com perguntas e sugestões e aprenderam com suas práticas. Refletiram sobre o que viveram e planejaram novas peripécias.

Nesse percurso aconteceu de tudo… até conversa de pescador!

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

BarquinhoLeia sobre outras propostas com água e acesse e imprima uma historinha sobre barcos oferecida pelo Tempo de Creche:

Postado em Brincar e Aprender, Planejamentos e Atividades | Tags , , , , , | Clique para deixar um comentário!

Modelagem e desenho: conversas entre a bi e a tridimensionalidade

Quando desenham, pintam ou modelam, as crianças trabalham a representação de narrativas. Será que todas essas técnicas são importantes?
É mesmo necessário proporcionar oportunidades para que as crianças pesquisem a bi e a tridimensionalidade?
Conheça a visão das professoras Mariana Isnard Carneiro e Anielle Costa Maruchi, da Escola Vera Cruz, SP, na Palavra da Prática.

Observando a turma de crianças de 3 a 4 anos numa brincadeira com caixas, as professoras perceberam que as construções representavam cenários da casa, em especial, o quarto onde elas dormiam.

Atentas às narrativas que surgiam durante as atividades de desenho, Mariana e Ani notaram que as crianças expressavam o medo da hora de dormir. Como trabalhar essa questão? Como favorecer a expressão das crianças para que elaborem esse sentimento?

Tempo de Creche – Professoras, o trabalho com a bidimensionalidade, desenho e pintura, é comum na Educação Infantil. Já a tridimensionalidade é pouco explorada. Como veem essa questão?

Mariana e Anielle – Para nós, o centro dessa questão é o modo como nos relacionamos com a materialidade das massas e de outros materiais para modelar: as texturas e as sensações que provocam e a potencialidade das pesquisas que eles permitem.

É mais comum trazer a expressividade e a figuração por meio da investigação do desenho. Porém, expressar o pensamento com modelagem é um processo mais complexo.

Tempo de Creche – Quando planejam uma proposta, o que as leva a escolher a pesquisa bi dimensional ou a tri dimensional?

Mariana e Anielle – Nesse projeto [dos medos na hora de dormir] começamos pelo desenho porque pensamos nos registros gráficos. Depois, refletimos que talvez essa linguagem não fosse a melhor escolha para todas as crianças. Então passamos a oferecer concomitantemente as duas possibilidades para que os pequenos pudessem optar pelo modo particular de expressar as narrativas sobre os medos.

Desenho modelagem e narrativa

Tempo de Creche – Vocês observam diferenças nas narrativas elaboradas no desenho e na modelagem?

Mariana e Anielle – As narrativas estão a serviço da linguagem. As crianças não têm uma narrativa pronta quando começam a desenhar ou modelar. As narrativas são elaboradas enquanto elas desenham ou modelam.

Percebemos que a materialidade das massinhas e da argila dão as “dicas” para as crianças construírem as narrativas. Por exemplo, as narrativas podem se transformar completamente se um tubarão feito de massinha ficou com cara de casinha. Nesse sentido, a narrativa às vezes caminha em função do material.

Desenho e narrativa

As crianças contam para a gente o que estão desenhando ou modelando. Ocasionalmente trazem a produção já finalizada e nos explicam o que foi feito. Em outras situações, compartilhamos as produções com o grupo e percebemos que a narrativa de uma criança “cola” na da outra. Numa próxima oportunidade, as crianças continuam suas pesquisas a partir desse ponto. Nesse aspecto, desenho e modelagem são linguagens semelhantes e os percursos das experiências dependem de como o professor conduz o processo.

Tempo de Creche – Vocês podem dar dicas para o professor trabalhar a potencialidade da modelagem com as crianças?

Mariana e Anielle – O eixo central desse trabalho é pensar sobre o que o material provoca nas crianças, quais são suas características (propriedades do material) e como apresenta-lo para o grupo.

Assim, é preciso se distanciar da estrutura convencional de fazer modelagem com forminhas porque, nessas situações, a criança pesquisa mais as fôrmas e formatos do que os modos de representar seu pensamento.

Existem muitas dicas para trabalhar com massas, argilas e outros materiais para modelar. Para explorar toda a potencialidade é preciso planejar atividades pensando sobre:

  • Planos e bases – no chão (sobre uma folha de kraft, por exemplo), na mesa, no banco, na cadeira.
  • Postura da criança e interação com o corpo – sentada, de joelho, de pé, usando as mãos, descalça para sentir com o pé, para passar no corpo, perceber as marcas que o corpo deixa no material etc..
  • Cores das massas – oferecer uma cor, algumas ou várias?
  • Associar a modelagem a outros materiais – sucatas, materiais não estruturados; materiais comuns e do cotidiano (palito de sorvete, canudo, chave); materiais que produzem marcas (colheres, funis, peneiras, folhas e elementos naturais); brinquedos que podem ter usos diferentes do usual (subverter o uso).
  • Modos de apresentar as massas – pouca quantidade por criança, grande quantidade por criança, em blocos, no formato de bolinhas, blocos coletivos. Certa vez forramos o chão com uma folha de kraft, utilizamos um rolo de macarrão e abrimos uma placa de argila para as crianças se servirem. Mudar a forma de apresentar o material promove pesquisas diferentes.
  • Cenários [espaço propositor] – quais cenários podem trazer o brilho nos olhos das crianças?

modelagem com pés

As escolhas que o professor faz interferem nas produções das crianças. Assim é preciso refletir se as características dos materiais e suas potencialidades favorecem o que se quer investigar com a proposta.

Finalmente, é fundamental estar aberto para escutar o que as crianças trazem nesses momentos de experimentação. Certa vez observamos que um menino colocava um pedaço de massinha na sola do sapato. No início, isso incomodou. Mas acompanhando o processo, vimos que ele buscava marcar a massinha para representar as pedras de uma praia. Aí tudo fez sentido!Percurso reflexivo professoras Vera Cruz

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

Anielle Costa MaruchiAnielle Costa Maruchi é pedagoga e pós-graduada em Gestão Pedagógica. Atua como professora de Educação Infantil da Escola Vera Cruz.

 

Mariana Isnard CarneiroMariana Isnard Carneiro é pedagoga e pós-graduada em Psicopedagogia. Atua como professora de Educação Infantil da Escola Vera Cruz.

 

 

Leia mais sobre espaço propositor e arte e expressão na Educação Infantil nas postagens:

Crianças, expressões artísticas e aprendizagem
Organização de propostas: garantia de brincadeira e aprendizado

Postado em Palavra da prática | Tags , , , , , , , , , | 1 Comentário

Em 2018, livro das autoras do Tempo de Creche

CAROS LEITORES DO TEMPO DE CRECHE,
após 3 anos construindo uma comunidade em torno da Educação Infantil, percebemos que estava na hora de sistematizar as nossas postagens e os excelentes conteúdos apurados nas conversas, entrevistas e depoimentos de 70 professores, pesquisadores e estudiosos da infância.
A Editora Edelbra fez o convite para escrevermos um livro e nós aceitamos!

Carta aos leitores

No início de 2018 será lançado o livro Educação Infantil: uma janela aberta para o mundo.

A publicação aborda a criança, a prática pedagógica e o território em que essa relação de amor e conquistas acontece.

Um livro em que textos e imagens se complementam.
Quadros organizadores e percursos reflexivos, nossas marcas, estão presentes.
Como no Blog, os conteúdos podem ser consultados a partir do que desperta o interessa no momento.

Reconhecemos que o ritmo das postagens diminuiu. Mas em breve retomaremos a velocidade dos nossos diálogos, numa plataforma digital revigorada e repleta de novidades.

Joyce, Angela e Maria Helena

Postado em Acontece | Tags , , | 7 Comentários

Rotinas não tão rotineiras

Uma situação tão instituída e corriqueira como a hora da soneca pode ser diferente? A dormida da tarde e outros momentos da rotina podem ganhar outros contornos?
Podem sim!

organização do espaço propositorNo CEI Nossa Turma, SP, as professoras Sandra Aparecida Ferrari Lima e Maria Aparecida Soares Santos (a Cida) organizaram uma proposta que envolvia tecidos coloridos de variados tipos. A expectativa era que os pequenos experimentassem modos de se vestir e usar os tecidos. Para garantir as criações, providenciaram fitas de elástico, para amarrar e manter os modelitos no corpo, e cabides para compor um espaço propositor.

Será que as crianças pensariam em se vestir com os tecidos?
Quais experimentações poderiam surgir?

Sala arrumada, instrumentos de registro e câmeras em mãos, era hora de chamar a turma que estava com a Cida no parque.

As crianças foram entrando e se maravilhando com o espaço transformado. Puxaram alguns dos tecidos pendurados e descobriram caixas com mais variedades. Como os tamanhos favoreciam o manuseio (1,0 x 0,70m e 1,0 x 1,40m), as crianças experimentaram usar o material como capa, colocar na cabeça como turbante e… aos poucos, saias, vestidos e pareôs foram surgindo a pedido dos pequenos e ajeitados com ajuda das professoras.

pesquisa das crianças

intervenção do professor

lanche sem interromper a atividadeO lanche chegou mas não interrompeu. O suco de fruta foi oferecido nos locais onde as brincadeiras aconteciam.

Depois de uma hora de atividades intensas, os tecidos deixados de lado pelas crianças foram sendo recolocados nos cabides pelas professoras. Essa arrumação criou espaços menores e labirintos que provocaram novas explorações. Em pouco tempo surgiu a expressão “minha casa” entre as crianças. Foi a dica para a Sandra prender os panos e fazer tendas. As crianças entraram na brincadeira e uma grande tenda foi crescendo e ocupando toda a sala.

Escuta e intervençãoAs crianças não davam sinais de parar de brincar, mesmo sentido o cheirinho do almoço. Sandra e Cida convidaram a turma para lavar as mãos e deixar a sala livre para a arrumação dos colchonetes. Sandra garantiu para alguns grupos que os materiais ficariam disponíveis para que a brincadeira continuasse depois. As crianças se dirigiram ao refeitório com o corpo realizado e a garantia de que a brincadeira poderia continuar.

No meio daquela instalação viva e colorida, Sandra refletiu:
Não vou desmanchar nada disso! As crianças ainda estão com a brincadeira na cabeça!

A professora decidiu que os colchonetes seriam preparados sob as tendas. Com isso, os pequenos:

  • continuariam no faz de conta no momento da soneca;
  • pegariam no sono observando os tecidos, suas cores, transparências e o arranjo estético da composição;
  • acordariam num ambiente diferente e, se quisessem, poderiam continuar brincando.

Foi o que aconteceu.

Depois do almoço, as crianças deitaram nos colchonetes. Quase dava para ver os passeios da imaginação no breve momento entre deitar e pegar no sono.

hora do sono diferenteQuando acordaram, os pequenos retomaram o faz de conta proposto pelo cenário e aproveitaram os materiais mais uma vez.

Fica uma reflexão: a rotina deixa de ser rotina se incorporarmos elementos diferentes a ela?

Sim e não!
Sim, porque a rotina fica enriquecida e as crianças aprendem que podem ter voz sobre ela.
Não, porque os momentos estruturais continuam a ser respeitados, organizando e orientando o tempo e as necessidades das crianças.

Como favorecer novas intervenções e contornos para a rotina? Com escuta, criatividade e espírito brincante.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

O CEI Nossa Turma pertence à Associação Nossa Turma – São Paulo, SP. A instituição também mantém um projeto de contraturno escolar para crianças e adolescentes e projetos de profissionalização para jovens e adultos das comunidades do entorno do CEAGESP.

→ Leia sobre rotina e planejamento de propostas nas postagens:

 

 

Postado em Coordenador e Gestor, Tempo, Espaço e Materiais | Tags , , , , | Clique para deixar um comentário!

Como trabalhar as manifestações culturais brasileiras com os pequenos?

Numa conversa com a professora Deise Miranda Barbosa descobrimos alguns personagens dos folguedos que se aproximam das crianças da creche e compreendemos que as manifestações culturais brasileiras enriquecem os enredos das brincadeiras, valorizam a cultura e perpetuam as tradições.

Tempo de Creche – Conte um pouco como você descobriu a relação da Cultura popular com a infância?

Deise – Eu era professora de uma turma de Educação Infantil e também fazia parte do Pé no Terreiro, um grupo de danças brasileiras, que estava estudando o Cacuriá, uma dança maranhense.  Foi quando eu comecei a observar que estas danças eram brincadeiras. Levei a dança para a sala como um momento de brincadeira.

Observando as crianças brincarem, percebi que a dança funcionava, tornando-se um brincar com o corpo, com a cultura popular, num diálogo com as danças contemporâneas.

Bumba meu boiA proposta tinha os mesmos resultados com o Bumba meu boi e com o Maracatu, porque essas manifestações têm um lugar no faz de conta, universo próximo ao da criança, com suas roupas específicas, fantasias, personagens, falas de bichos, roda…, vários elementos das brincadeiras tradicionais das crianças.

Esses folguedos se aproximam do brincar da criança  porque inspiram a transformação em personagens. Quando um brincante do Cacuriá está brincando com a música do caranguejinho, e faz o gesto de tirar o caranguejo do pé do colega, ele está de fato tirando o caranguejo na imaginação, apesar de não ter nenhum caranguejo real ali.

Nesta faixa etária a criança acredita mesmo na imaginação. Muitas vezes ela nem separa o que é imaginação do que é real, como os brincantes da cultura popular, crianças, adultos, idosos, que, enquanto brincam, vestem o personagem. É esta crença no personagem que aproxima os dois universos.

Tempo de Creche – No que você embasa o seu trabalho com a cultura popular?

Deise – Em três frentes: cultura popular, dança contemporânea e suas improvisações e brincadeiras tradicionais da infância. Estes três lugares dialogam com o universo da brincadeira. Percebi que a criança que está brincando, está dançando.

Proponho um espaço para que a criança crie novas relações com o próprio corpo e crie novos movimentos. A criança, assim, se relaciona com a cultura popular e com as danças contemporâneas, ao mesmo tempo que brinca e se identifica com este universo apresentado de forma gostosa e divertida.

Tempo de Creche – Quais personagens dos folguedos você apresenta para as crianças de 0 a 3 anos?

Jacaré PoiôA Bernuncia, o Bumba meu boi e o Jacaré boiô, porque são todos personagens bichos e a faixa etária de 0 a 3 anos tem um encanto por animais, que logo são incorporados no faz de conta favorecendo o desejo de se transformar nos personagens. É um repertório que tem um diálogo muito próximo com a infância. É um lugar em que a imaginação é muito forte.

Tempo de Creche – Como você constrói significados a partir desses contextos?

Deise – Eu escolho conteúdos que dialogam com a faixa etária.
Com os bem pequenos elejo o que favorece o faz de conta. Os bichos encantam, geram medo, mas logo são imitados. Para os maiores, eu trago desafios como o deslocamento espacial, como filas, troca de lugares, rodas, caracóis, serpentear, e o uso de materiais, que podem compor as brincadeiras, como peneiras, chapéus, fitas, tecidos…

Outro ponto é olhar para o universo que a manifestação traz no seu bojo: onde os personagens do Bumba meu boi podem morar? O que eles comem? Por onde eles andam? A ideia é provocar as crianças corporalmente. Por exemplo, para chegar à casa da Catirina (personagem do Bumba meu boi) tem um caminho em que podemos inventar uma ponte para as crianças brincarem de se equilibrar; inventar galhos altos e baixos provoca ter que mudar a forma de se deslocar.

Onça PintadaTempo de Creche – Como você aproxima os personagens das crianças?

Deise – Pela literatura. Primeiro eu conto a história. Depois as crianças brincam de se transformar nos personagens com muita improvisação e dança. Todos querem ser a Catirina, o Pai Francisco, o boi… todo mundo experimenta um pouquinho de tudo, com liberdade para chegar até a criação.

Tempo de Creche – Por que levar esses enredos da cultura popular para crianças pequenas?

Deise – Por três razões:

  • Para trabalhar a identidade cultural brasileira. É papel da escola tornar acessível este repertório cultural, ao qual, muitas vezes, as crianças não têm acesso.
  • Como possibilidade de abordar a questão racial. Muitas das danças, folguedos e ritmos são de origens afro-brasileiras e indígenas.
  • Para aproximar as crianças da diversidade de manifestações regionais. Por exemplo, as crianças das regiões  sul e sudeste também precisam conhecer a cultura nordestina. Outra questão é contemplar as culturas das diferentes famílias e suas origens, com isso se trabalha também a autoestima das crianças.

Para saber mais

 

Deise MDeise Miranda Barbosairanda Barbosa é pedagoga, professora de educação corporal no litoral paulista e foi professora da educação infantil da Escola Vera Cruz.

Leia mais sobre esse tema nas postagens:

Postado em Ampliação Cultural | Tags , , , , | 2 Comentários

Educação Infantil: negócio lucrativo ou iniciativa emancipadora?

Será que a primeira infância está se tornando um negócio para o mundo, antes mesmo de ser reconhecida como etapa fundamental da educação do ser humano?
Como a sociedade brasileira está lendo a Educação Infantil?
Na mesma semana tivemos uma entrevista com a prêmio Nobel, James Heckman, economista e agora estudioso dos impactos econômicos da educação infantil. A TV paga apresentou um programa dedicado aos negócios lucrativos voltados à primeira infância (Mundo SA, Globo News) .
O que pensar de tudo isso?

Captura de Tela 2017-09-24 às 17.02.07O programa de TV até apresentou produtos interessantes. Mostrou um fabricante de brinquedos para parquinhos, reconhecido pela ONU, que propõe inovações para desafiar as crianças a experimentar novos movimentos, equilíbrio e estratégias para interagir. Outro fabricante desenvolveu jogos que possibilitam adequações para atender crianças especiais.

Mas o que destoou foram os negócios dedicados à “educação” dos pequenos. Sim, educação entre aspas! Continue lendo..

Postado em Desenvolvimento Infantil, Postura do Professor | Tags , , , , | 4 Comentários

O registro das crianças pequenas é o desenho

Para Madalena Freire o registro ajuda a sistematizar o pensamento. Mas isso também se aplica às crianças pequenas?
Sim!
Então, como ajudá-las a registrar e elaborar aquilo que estão experimentando?

Bebês a partir de 6 meses podem aprender a segurar riscadores e experimentar fazer as primeiras marcas no suporte. Riscando, rabiscando e brincando, os pequenos vão desenvolvendo o desenho e percebendo que o modo como movimentam os dedos, a mão, o punho, o cotovelo o ombro e o corpo todo, determina a forma das marcas.

Nesse ponto os desafios de brincar de desenhar vão ficando mais complexos e interessantes. Buscar controlar os traços, repeti-los e modificá-los, instiga as crianças a buscarem soluções.

O desenho assim, conquista mais detalhamento.

Os resultados desse desenvolvimento não ficam marcados somente no papel. Aspectos cognitivos são trabalhados e o cérebro aprende a controlar o corpo e usar o desenho como expressão dos pensamentos, emoções e memórias.

É justamente aí que reside o recurso do registro infantil. Como o registro feito por nós, adultos, conquista qualidade à medida em que é praticado.

Registro em desenho Projeto Amiguinha Santa MarinaNo CEI Santa Marina, em São Paulo, as crianças de 3 a 4 anos desenham todos os dias. Nas ocasiões em que as professoras percebem que experiências significativas precisam ser elaboradas e repensadas, toca desenhar!

Experimentaram algo novo?
Entusiasmaram-se com uma história?
Estão trabalhando num projeto?
Precisam pensar sobre um acontecimento?

Mãos no riscador!

É incrível notar a qualidade do desenho dos pequenos do Santa Marina! Crianças que facilmente expressam suas ideias no papel e também oralmente.

Numa das pré-escolas que visitei na Suécia, crianças na faixa de 2 a 3 anos tinham pequenos cadernos de campo para registrar as observações que faziam ao pesquisar os girassóis que haviam plantado no jardim da escola.

Registros das crianças Suécia

Na Escola do Bairro, SP, as crianças registram por meio de desenhos o que pesquisam na natureza e também o que encontram nos livros sobre o assunto. O processo de levantar elementos, selecionar o que deve ser desenhado e elaborar o desenho, convoca o cérebro a pensar sobre as experiências, organizar informações, relacioná-las àquilo que já é conhecido e criar novas conexões. Isso é desenvolver conhecimentos!

Registro de pesquisa Escola do Bairro

Na EMEI Nelson Mandela, SP, os desenho andam de mãos dadas com o letramento. Uma intimidade que conecta a escrita aos símbolos desenhados pelas crianças a partir de 4 anos.

Registros das crianças Nelson Mandela

É fácil notar os caminhos expressivos dos pequenos quando vemos os registros realizados pela criança escolhida para ser o “diretor por um dia”.

Nesse projeto interessante, que merece uma postagem exclusiva, no final de um dia de visitas e levantamentos, a criança-diretora registra na sua prancheta as necessidades e problemas da EMEI e faz sugestões. Alguns registros possuem mais desenhos. Em outros, observa-se a escrita espontânea. Em alguns podemos ver uma mistura de letras, palavras e símbolos. Depois de elaborá-los, a criança se reúne com a diretora Cibele Racy, para ler os registros, discutir sobre os achados e encaminhar providências.

Registros Diretor por um Dia Nelson Mandela

Crianças podem registrar sistematicamente suas experiências, emoções e aprendizados. É só ajudá-las oportunizando o exercício frequente do desenho e desenvolvendo o trabalho a partir dessa documentação.

♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦♦

PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre o desenho na infância nas postagens:

Postado em Campos de Experiências, Postura do Professor | Tags , , , , | Clique para deixar um comentário!