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Modelagem e desenho: conversas entre a bi e a tridimensionalidade

Quando desenham, pintam ou modelam, as crianças trabalham a representação de narrativas. Será que todas essas técnicas são importantes?
É mesmo necessário proporcionar oportunidades para que as crianças pesquisem a bi e a tridimensionalidade?
Conheça a visão das professoras Mariana Isnard Carneiro e Anielle Costa Maruchi, da Escola Vera Cruz, SP, na Palavra da Prática.

Observando a turma de crianças de 3 a 4 anos numa brincadeira com caixas, as professoras perceberam que as construções representavam cenários da casa, em especial, o quarto onde elas dormiam.

Atentas às narrativas que surgiam durante as atividades de desenho, Mariana e Ani notaram que as crianças expressavam o medo da hora de dormir. Como trabalhar essa questão? Como favorecer a expressão das crianças para que elaborem esse sentimento?

Tempo de Creche – Professoras, o trabalho com a bidimensionalidade, desenho e pintura, é comum na Educação Infantil. Já a tridimensionalidade é pouco explorada. Como veem essa questão?

Mariana e Anielle – Para nós, o centro dessa questão é o modo como nos relacionamos com a materialidade das massas e de outros materiais para modelar: as texturas e as sensações que provocam e a potencialidade das pesquisas que eles permitem.

É mais comum trazer a expressividade e a figuração por meio da investigação do desenho. Porém, expressar o pensamento com modelagem é um processo mais complexo.

Tempo de Creche – Quando planejam uma proposta, o que as leva a escolher a pesquisa bi dimensional ou a tri dimensional?

Mariana e Anielle – Nesse projeto [dos medos na hora de dormir] começamos pelo desenho porque pensamos nos registros gráficos. Depois, refletimos que talvez essa linguagem não fosse a melhor escolha para todas as crianças. Então passamos a oferecer concomitantemente as duas possibilidades para que os pequenos pudessem optar pelo modo particular de expressar as narrativas sobre os medos.

Desenho modelagem e narrativa

Tempo de Creche – Vocês observam diferenças nas narrativas elaboradas no desenho e na modelagem?

Mariana e Anielle – As narrativas estão a serviço da linguagem. As crianças não têm uma narrativa pronta quando começam a desenhar ou modelar. As narrativas são elaboradas enquanto elas desenham ou modelam.

Percebemos que a materialidade das massinhas e da argila dão as “dicas” para as crianças construírem as narrativas. Por exemplo, as narrativas podem se transformar completamente se um tubarão feito de massinha ficou com cara de casinha. Nesse sentido, a narrativa às vezes caminha em função do material.

Desenho e narrativa

As crianças contam para a gente o que estão desenhando ou modelando. Ocasionalmente trazem a produção já finalizada e nos explicam o que foi feito. Em outras situações, compartilhamos as produções com o grupo e percebemos que a narrativa de uma criança “cola” na da outra. Numa próxima oportunidade, as crianças continuam suas pesquisas a partir desse ponto. Nesse aspecto, desenho e modelagem são linguagens semelhantes e os percursos das experiências dependem de como o professor conduz o processo.

Tempo de Creche – Vocês podem dar dicas para o professor trabalhar a potencialidade da modelagem com as crianças?

Mariana e Anielle – O eixo central desse trabalho é pensar sobre o que o material provoca nas crianças, quais são suas características (propriedades do material) e como apresenta-lo para o grupo.

Assim, é preciso se distanciar da estrutura convencional de fazer modelagem com forminhas porque, nessas situações, a criança pesquisa mais as fôrmas e formatos do que os modos de representar seu pensamento.

Existem muitas dicas para trabalhar com massas, argilas e outros materiais para modelar. Para explorar toda a potencialidade é preciso planejar atividades pensando sobre:

  • Planos e bases – no chão (sobre uma folha de kraft, por exemplo), na mesa, no banco, na cadeira.
  • Postura da criança e interação com o corpo – sentada, de joelho, de pé, usando as mãos, descalça para sentir com o pé, para passar no corpo, perceber as marcas que o corpo deixa no material etc..
  • Cores das massas – oferecer uma cor, algumas ou várias?
  • Associar a modelagem a outros materiais – sucatas, materiais não estruturados; materiais comuns e do cotidiano (palito de sorvete, canudo, chave); materiais que produzem marcas (colheres, funis, peneiras, folhas e elementos naturais); brinquedos que podem ter usos diferentes do usual (subverter o uso).
  • Modos de apresentar as massas – pouca quantidade por criança, grande quantidade por criança, em blocos, no formato de bolinhas, blocos coletivos. Certa vez forramos o chão com uma folha de kraft, utilizamos um rolo de macarrão e abrimos uma placa de argila para as crianças se servirem. Mudar a forma de apresentar o material promove pesquisas diferentes.
  • Cenários [espaço propositor] – quais cenários podem trazer o brilho nos olhos das crianças?

modelagem com pés

As escolhas que o professor faz interferem nas produções das crianças. Assim é preciso refletir se as características dos materiais e suas potencialidades favorecem o que se quer investigar com a proposta.

Finalmente, é fundamental estar aberto para escutar o que as crianças trazem nesses momentos de experimentação. Certa vez observamos que um menino colocava um pedaço de massinha na sola do sapato. No início, isso incomodou. Mas acompanhando o processo, vimos que ele buscava marcar a massinha para representar as pedras de uma praia. Aí tudo fez sentido!Percurso reflexivo professoras Vera Cruz

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PARA SABER MAIS…

Anielle Costa MaruchiAnielle Costa Maruchi é pedagoga e pós-graduada em Gestão Pedagógica. Atua como professora de Educação Infantil da Escola Vera Cruz.

 

Mariana Isnard CarneiroMariana Isnard Carneiro é pedagoga e pós-graduada em Psicopedagogia. Atua como professora de Educação Infantil da Escola Vera Cruz.

 

 

Leia mais sobre espaço propositor e arte e expressão na Educação Infantil nas postagens:

Crianças, expressões artísticas e aprendizagem
Organização de propostas: garantia de brincadeira e aprendizado

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Em 2018, livro das autoras do Tempo de Creche

CAROS LEITORES DO TEMPO DE CRECHE,
após 3 anos construindo uma comunidade em torno da Educação Infantil, percebemos que estava na hora de sistematizar as nossas postagens e os excelentes conteúdos apurados nas conversas, entrevistas e depoimentos de 70 professores, pesquisadores e estudiosos da infância.
A Editora Edelbra fez o convite para escrevermos um livro e nós aceitamos!

Carta aos leitores

No início de 2018 será lançado o livro Educação Infantil: uma janela aberta para o mundo.

A publicação aborda a criança, a prática pedagógica e o território em que essa relação de amor e conquistas acontece.

Um livro em que textos e imagens se complementam.
Quadros organizadores e percursos reflexivos, nossas marcas, estão presentes.
Como no Blog, os conteúdos podem ser consultados a partir do que desperta o interessa no momento.

Reconhecemos que o ritmo das postagens diminuiu. Mas em breve retomaremos a velocidade dos nossos diálogos, numa plataforma digital revigorada e repleta de novidades.

Joyce, Angela e Maria Helena

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Rotinas não tão rotineiras

Uma situação tão instituída e corriqueira como a hora da soneca pode ser diferente? A dormida da tarde e outros momentos da rotina podem ganhar outros contornos?
Podem sim!

organização do espaço propositorNo CEI Nossa Turma, SP, as professoras Sandra Aparecida Ferrari Lima e Maria Aparecida Soares Santos (a Cida) organizaram uma proposta que envolvia tecidos coloridos de variados tipos. A expectativa era que os pequenos experimentassem modos de se vestir e usar os tecidos. Para garantir as criações, providenciaram fitas de elástico, para amarrar e manter os modelitos no corpo, e cabides para compor um espaço propositor.

Será que as crianças pensariam em se vestir com os tecidos?
Quais experimentações poderiam surgir?

Sala arrumada, instrumentos de registro e câmeras em mãos, era hora de chamar a turma que estava com a Cida no parque.

As crianças foram entrando e se maravilhando com o espaço transformado. Puxaram alguns dos tecidos pendurados e descobriram caixas com mais variedades. Como os tamanhos favoreciam o manuseio (1,0 x 0,70m e 1,0 x 1,40m), as crianças experimentaram usar o material como capa, colocar na cabeça como turbante e… aos poucos, saias, vestidos e pareôs foram surgindo a pedido dos pequenos e ajeitados com ajuda das professoras.

pesquisa das crianças

intervenção do professor

lanche sem interromper a atividadeO lanche chegou mas não interrompeu. O suco de fruta foi oferecido nos locais onde as brincadeiras aconteciam.

Depois de uma hora de atividades intensas, os tecidos deixados de lado pelas crianças foram sendo recolocados nos cabides pelas professoras. Essa arrumação criou espaços menores e labirintos que provocaram novas explorações. Em pouco tempo surgiu a expressão “minha casa” entre as crianças. Foi a dica para a Sandra prender os panos e fazer tendas. As crianças entraram na brincadeira e uma grande tenda foi crescendo e ocupando toda a sala.

Escuta e intervençãoAs crianças não davam sinais de parar de brincar, mesmo sentido o cheirinho do almoço. Sandra e Cida convidaram a turma para lavar as mãos e deixar a sala livre para a arrumação dos colchonetes. Sandra garantiu para alguns grupos que os materiais ficariam disponíveis para que a brincadeira continuasse depois. As crianças se dirigiram ao refeitório com o corpo realizado e a garantia de que a brincadeira poderia continuar.

No meio daquela instalação viva e colorida, Sandra refletiu:
Não vou desmanchar nada disso! As crianças ainda estão com a brincadeira na cabeça!

A professora decidiu que os colchonetes seriam preparados sob as tendas. Com isso, os pequenos:

  • continuariam no faz de conta no momento da soneca;
  • pegariam no sono observando os tecidos, suas cores, transparências e o arranjo estético da composição;
  • acordariam num ambiente diferente e, se quisessem, poderiam continuar brincando.

Foi o que aconteceu.

Depois do almoço, as crianças deitaram nos colchonetes. Quase dava para ver os passeios da imaginação no breve momento entre deitar e pegar no sono.

hora do sono diferenteQuando acordaram, os pequenos retomaram o faz de conta proposto pelo cenário e aproveitaram os materiais mais uma vez.

Fica uma reflexão: a rotina deixa de ser rotina se incorporarmos elementos diferentes a ela?

Sim e não!
Sim, porque a rotina fica enriquecida e as crianças aprendem que podem ter voz sobre ela.
Não, porque os momentos estruturais continuam a ser respeitados, organizando e orientando o tempo e as necessidades das crianças.

Como favorecer novas intervenções e contornos para a rotina? Com escuta, criatividade e espírito brincante.

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PARA SABER MAIS…

O CEI Nossa Turma pertence à Associação Nossa Turma – São Paulo, SP. A instituição também mantém um projeto de contraturno escolar para crianças e adolescentes e projetos de profissionalização para jovens e adultos das comunidades do entorno do CEAGESP.

→ Leia sobre rotina e planejamento de propostas nas postagens:

 

 

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Como trabalhar as manifestações culturais brasileiras com os pequenos?

Numa conversa com a professora Deise Miranda Barbosa descobrimos alguns personagens dos folguedos que se aproximam das crianças da creche e compreendemos que as manifestações culturais brasileiras enriquecem os enredos das brincadeiras, valorizam a cultura e perpetuam as tradições.

Tempo de Creche – Conte um pouco como você descobriu a relação da Cultura popular com a infância?

Deise – Eu era professora de uma turma de Educação Infantil e também fazia parte do Pé no Terreiro, um grupo de danças brasileiras, que estava estudando o Cacuriá, uma dança maranhense.  Foi quando eu comecei a observar que estas danças eram brincadeiras. Levei a dança para a sala como um momento de brincadeira.

Observando as crianças brincarem, percebi que a dança funcionava, tornando-se um brincar com o corpo, com a cultura popular, num diálogo com as danças contemporâneas.

Bumba meu boiA proposta tinha os mesmos resultados com o Bumba meu boi e com o Maracatu, porque essas manifestações têm um lugar no faz de conta, universo próximo ao da criança, com suas roupas específicas, fantasias, personagens, falas de bichos, roda…, vários elementos das brincadeiras tradicionais das crianças.

Esses folguedos se aproximam do brincar da criança  porque inspiram a transformação em personagens. Quando um brincante do Cacuriá está brincando com a música do caranguejinho, e faz o gesto de tirar o caranguejo do pé do colega, ele está de fato tirando o caranguejo na imaginação, apesar de não ter nenhum caranguejo real ali.

Nesta faixa etária a criança acredita mesmo na imaginação. Muitas vezes ela nem separa o que é imaginação do que é real, como os brincantes da cultura popular, crianças, adultos, idosos, que, enquanto brincam, vestem o personagem. É esta crença no personagem que aproxima os dois universos.

Tempo de Creche – No que você embasa o seu trabalho com a cultura popular?

Deise – Em três frentes: cultura popular, dança contemporânea e suas improvisações e brincadeiras tradicionais da infância. Estes três lugares dialogam com o universo da brincadeira. Percebi que a criança que está brincando, está dançando.

Proponho um espaço para que a criança crie novas relações com o próprio corpo e crie novos movimentos. A criança, assim, se relaciona com a cultura popular e com as danças contemporâneas, ao mesmo tempo que brinca e se identifica com este universo apresentado de forma gostosa e divertida.

Tempo de Creche – Quais personagens dos folguedos você apresenta para as crianças de 0 a 3 anos?

Jacaré PoiôA Bernuncia, o Bumba meu boi e o Jacaré boiô, porque são todos personagens bichos e a faixa etária de 0 a 3 anos tem um encanto por animais, que logo são incorporados no faz de conta favorecendo o desejo de se transformar nos personagens. É um repertório que tem um diálogo muito próximo com a infância. É um lugar em que a imaginação é muito forte.

Tempo de Creche – Como você constrói significados a partir desses contextos?

Deise – Eu escolho conteúdos que dialogam com a faixa etária.
Com os bem pequenos elejo o que favorece o faz de conta. Os bichos encantam, geram medo, mas logo são imitados. Para os maiores, eu trago desafios como o deslocamento espacial, como filas, troca de lugares, rodas, caracóis, serpentear, e o uso de materiais, que podem compor as brincadeiras, como peneiras, chapéus, fitas, tecidos…

Outro ponto é olhar para o universo que a manifestação traz no seu bojo: onde os personagens do Bumba meu boi podem morar? O que eles comem? Por onde eles andam? A ideia é provocar as crianças corporalmente. Por exemplo, para chegar à casa da Catirina (personagem do Bumba meu boi) tem um caminho em que podemos inventar uma ponte para as crianças brincarem de se equilibrar; inventar galhos altos e baixos provoca ter que mudar a forma de se deslocar.

Onça PintadaTempo de Creche – Como você aproxima os personagens das crianças?

Deise – Pela literatura. Primeiro eu conto a história. Depois as crianças brincam de se transformar nos personagens com muita improvisação e dança. Todos querem ser a Catirina, o Pai Francisco, o boi… todo mundo experimenta um pouquinho de tudo, com liberdade para chegar até a criação.

Tempo de Creche – Por que levar esses enredos da cultura popular para crianças pequenas?

Deise – Por três razões:

  • Para trabalhar a identidade cultural brasileira. É papel da escola tornar acessível este repertório cultural, ao qual, muitas vezes, as crianças não têm acesso.
  • Como possibilidade de abordar a questão racial. Muitas das danças, folguedos e ritmos são de origens afro-brasileiras e indígenas.
  • Para aproximar as crianças da diversidade de manifestações regionais. Por exemplo, as crianças das regiões  sul e sudeste também precisam conhecer a cultura nordestina. Outra questão é contemplar as culturas das diferentes famílias e suas origens, com isso se trabalha também a autoestima das crianças.

Para saber mais

 

Deise MDeise Miranda Barbosairanda Barbosa é pedagoga, professora de educação corporal no litoral paulista e foi professora da educação infantil da Escola Vera Cruz.

Leia mais sobre esse tema nas postagens:

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Educação Infantil: negócio lucrativo ou iniciativa emancipadora?

Será que a primeira infância está se tornando um negócio para o mundo, antes mesmo de ser reconhecida como etapa fundamental da educação do ser humano?
Como a sociedade brasileira está lendo a Educação Infantil?
Na mesma semana tivemos uma entrevista com a prêmio Nobel, James Heckman, economista e agora estudioso dos impactos econômicos da educação infantil. A TV paga apresentou um programa dedicado aos negócios lucrativos voltados à primeira infância (Mundo SA, Globo News) .
O que pensar de tudo isso?

Captura de Tela 2017-09-24 às 17.02.07O programa de TV até apresentou produtos interessantes. Mostrou um fabricante de brinquedos para parquinhos, reconhecido pela ONU, que propõe inovações para desafiar as crianças a experimentar novos movimentos, equilíbrio e estratégias para interagir. Outro fabricante desenvolveu jogos que possibilitam adequações para atender crianças especiais.

Mas o que destoou foram os negócios dedicados à “educação” dos pequenos. Sim, educação entre aspas!

Educação, antes de tudo, é uma questão de emancipação, desenvolvimento social e melhoria de qualidade de vida da sociedade. É um assunto sério e complexo para ser transformado em investimentos que gerem lucro para poucos e clientes “satisfeitos”.

O âmbito da Educação pertence às políticas de estado, se constituem em pilar da sociedade e da cultura. É fruto de pesquisas e estudos que atravessam séculos. Avança-se com muita dedicação, ciência e trabalho compartilhado globalmente.

O programa Mundo S/A apresentou escolas, espaços para brincar e até um SPA para bebês. Falava-se, fundamentalmente, em estimular as crianças. Não foram pronunciadas palavras como curiosidade, experiência, cultura e natureza, estruturantes dos processos de aprendizagem e construção de conhecimentos.

Curiosidade e vivências significativas acontecem com crianças motivadas, isto é, quando têm desejo (interno) de aderir às propostas, de brincar, pesquisar e viver experiências para aprender.

Já o estímulo é externo.

Representa a ação de quem estimula e, portanto, pode estar descolada da criança, seus desejos e encantamentos. Uma educação baseada em estímulos está mais centrada no professor e nas metodologias do que nas crianças e suas características e culturas.

Então, o que está acontecendo com a visão de primeira infância?

Estamos vivendo tempos delicados…

Por um lado, temos a entrevista com o Nobel James Heckman que destaca seus métodos científicos criados para avaliar a eficácia de programas sociais e, mais recentemente, os programas voltadas à primeira infância. Para ele, até os 5, 6 anos, a criança aprende em ritmo espantoso, e uma educação qualificada nessa fase será valiosa para toda a vida:

(…) faço contas o tempo inteiro. Uma delas é especialmente impressionante: cada dólar gasto com uma criança pequena trará um retorno anual de mais 14 centavos durante toda a sua vida. É um dos melhores investimentos que se podem fazer. (James Heckman)

imagem Veja James Heckman

As nações que valorizam iniciativas de educação voltadas à primeira infância o fazem na qualidade de políticas públicas e não como nichos de mercado e de negócios! Públicas ou particulares, as escolas devem seguir diretrizes nacionais criteriosamente pensadas e elaboradas.

Captura de Tela 2017-09-24 às 17.07.59Por outro lado, temos a 3a versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que disciplinariza a Educação Infantil, contradizendo a forma de ser e estar no mundo das crianças pequenas.

O currículo proposto pela Base conduz professores a pensar mais enfaticamente sobre objetivos de aprendizagem do que a construir uma postura voltada à escuta e interação, elaboração de propostas desafiadoras e provocativas, apoiadas na observação das crianças e na reflexão sistemática da própria prática.

A BNCC atual procura indicar o que se espera que a criança aprenda, elencando um número limitado de objetivos que subestima as possibilidades de aprendizagem das crianças e de ensino de professores sensíveis e estudiosos, que articulem cuidado e educação e entendam as crianças como seres holísticos e capazes de fazer escolhas.

Finalmente, caminhando em direção à valorização da educação da primeira infância, pela primeira vez o MEC lança o Programa Nacional para o Livro Didático, PNLD 2019, voltado aos professores de Educação Infantil. Porém, o edital corre o risco de derrapar na oferta de livros voltados à manualização de práticas descoladas dos contextos de cada escola e, especialmente, de cada grupo de crianças.

Entre metodologias, lucros, receitas prontas e educação infantil de qualidade, quais caminhos escolhemos trilhar?

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Fontes:

capa-2549 Revista VEJA de 27 de setembro de 2017, edição nº 2549

Programa Mundo S/A, canal Globo News https://globosatplay.globo.com/globonews/v/6157564/

3a versão da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), disponível em http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_publicacao.pdf

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O registro das crianças pequenas é o desenho

Para Madalena Freire o registro ajuda a sistematizar o pensamento. Mas isso também se aplica às crianças pequenas?
Sim!
Então, como ajudá-las a registrar e elaborar aquilo que estão experimentando?

Bebês a partir de 6 meses podem aprender a segurar riscadores e experimentar fazer as primeiras marcas no suporte. Riscando, rabiscando e brincando, os pequenos vão desenvolvendo o desenho e percebendo que o modo como movimentam os dedos, a mão, o punho, o cotovelo o ombro e o corpo todo, determina a forma das marcas.

Nesse ponto os desafios de brincar de desenhar vão ficando mais complexos e interessantes. Buscar controlar os traços, repeti-los e modificá-los, instiga as crianças a buscarem soluções.

O desenho assim, conquista mais detalhamento.

Os resultados desse desenvolvimento não ficam marcados somente no papel. Aspectos cognitivos são trabalhados e o cérebro aprende a controlar o corpo e usar o desenho como expressão dos pensamentos, emoções e memórias.

É justamente aí que reside o recurso do registro infantil. Como o registro feito por nós, adultos, conquista qualidade à medida em que é praticado.

Registro em desenho Projeto Amiguinha Santa MarinaNo CEI Santa Marina, em São Paulo, as crianças de 3 a 4 anos desenham todos os dias. Nas ocasiões em que as professoras percebem que experiências significativas precisam ser elaboradas e repensadas, toca desenhar!

Experimentaram algo novo?
Entusiasmaram-se com uma história?
Estão trabalhando num projeto?
Precisam pensar sobre um acontecimento?

Mãos no riscador!

É incrível notar a qualidade do desenho dos pequenos do Santa Marina! Crianças que facilmente expressam suas ideias no papel e também oralmente.

Numa das pré-escolas que visitei na Suécia, crianças na faixa de 2 a 3 anos tinham pequenos cadernos de campo para registrar as observações que faziam ao pesquisar os girassóis que haviam plantado no jardim da escola.

Registros das crianças Suécia

Na Escola do Bairro, SP, as crianças registram por meio de desenhos o que pesquisam na natureza e também o que encontram nos livros sobre o assunto. O processo de levantar elementos, selecionar o que deve ser desenhado e elaborar o desenho, convoca o cérebro a pensar sobre as experiências, organizar informações, relacioná-las àquilo que já é conhecido e criar novas conexões. Isso é desenvolver conhecimentos!

Registro de pesquisa Escola do Bairro

Na EMEI Nelson Mandela, SP, os desenho andam de mãos dadas com o letramento. Uma intimidade que conecta a escrita aos símbolos desenhados pelas crianças a partir de 4 anos.

Registros das crianças Nelson Mandela

É fácil notar os caminhos expressivos dos pequenos quando vemos os registros realizados pela criança escolhida para ser o “diretor por um dia”.

Nesse projeto interessante, que merece uma postagem exclusiva, no final de um dia de visitas e levantamentos, a criança-diretora registra na sua prancheta as necessidades e problemas da EMEI e faz sugestões. Alguns registros possuem mais desenhos. Em outros, observa-se a escrita espontânea. Em alguns podemos ver uma mistura de letras, palavras e símbolos. Depois de elaborá-los, a criança se reúne com a diretora Cibele Racy, para ler os registros, discutir sobre os achados e encaminhar providências.

Registros Diretor por um Dia Nelson Mandela

Crianças podem registrar sistematicamente suas experiências, emoções e aprendizados. É só ajudá-las oportunizando o exercício frequente do desenho e desenvolvendo o trabalho a partir dessa documentação.

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PARA SABER MAIS…

Leia mais sobre o desenho na infância nas postagens:

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Um guia para a jornada do relatório individual

janela vitralA hora do relatório individual! Nessa época, escolas, professores e coordenadores se encontram numa temporada de muito trabalho. É o momento de colocar em teste os registros do professor e a seleção de materiais produzidos pelas crianças. Mais do que isso, é a hora de pensar sobre todas as reflexões realizadas no período. É o momento de compor uma narrativa que expresse a trajetória de cada criança, com suas singularidades e conquistas. É também a hora de dar a devolutiva para as famílias, estreitar as relações e chegar ao próximo semestre com uma parceria solidificada e comprometida.
Se você já fez e entregou seus relatórios, pode utilizar os roteiros que propomos nesta postagem para acompanhar suas observações e registros e facilitar o trabalho do final do próximo semestre.

brincando no canteiro• Quais registros foram feitos?
• Quais reflexões apontaram as jornadas de aprendizagem das crianças?
• Quais questões quero responder por meio dos relatórios?
• Quais foram os meus principais desafios no semestre e quais os desafios encarados pelas crianças?
• Quais narrativas importantes tornam visíveis as aprendizagens?
• Como traduzir as experiências em palavras? Dá para traduzir as emoções? Continue lendo..

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FELIZ DIA DA EDUCAÇÃO INFANTIL!

Nós temos um dia especial para celebrar!
Crianças, educadores e famílias reunidos em torno de uma educação mais do que especial. Um currículo que garante a singularidade, a liberdade de conteúdos para pesquisar e descobrir, as experiências de viver brincando, se expressando e amando. Pode ser melhor?
Desejamos que toda a Educação se inspire na Educação Infantil!

 

dia da EI

Professores de crianças pequenas …
…são adultos que lembram da própria infância todos os dias.
…convivem com aventuras que ultrapassam as barreiras do possível
…são criativos, sonhadores e cheios de imaginação
…são fluentes em brincadez!

Crianças pequenas que frequentam escolas de Educação Infantil…
…vivem intensamente a própria infância,
…inventam aventuras que levam a mundos diferentes todos os dias
…são criativas, sonhadoras e cheias de imaginação
…são fluentes em brincadez!

Todos os dias os profissionais que trabalham com crianças pequenas têm a oportunidade de viver a alegria da criança.
Desejamos a todos os colegas e leitores do Tempo de Creche um dia repleto de alegrias… como sempre!

 

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Cantos de atividades para revelar projetos

Temas identificados a partir dos interesses das crianças desafiam e envolvem o grupo. Em quais situações o professor pode observar as crianças e pesquisar o que as instiga? Cantos de atividades diversificadas ajudam, porém é preciso renovar as provocações.

Os momentos de brincadeira favorecem a observação mais distanciada e orientam o professor a identificar o que encanta as crianças, as conquistas e as dificuldades. Ao ampliar as possibilidades de inventar e imaginar, amplia-se também as oportunidades de observar novas brincadeiras e pesquisas. Cantos de atividades diversificadas favorecem as brincadeiras mais autônomas e a busca do professor por novos interesses e caminhos para planejar propostas. Mas os velhos cantinhos já brincados e rebrincados devem ser transformados para renovar o repertório de brincadeiras. Simples detalhes proporcionam mudanças:

Canto de casinha

  • Acrescentar novos elementos como sementes, pedrinhas e folhas para enriquecer as “comidinhas”;
  • Preparar uma cesta com alguns retalhos de tecidos para que as crianças construam vestimentas para elas próprias e para as bonecas;
  • Providenciar caixas de sapato ou de papelão para colecionar os objetos, organiza-los e até servir como camas e bercinhos.

Cestos de pedras e plantas Continue lendo..

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Projetos: um quadro organizador para planejar e construir

Observar, escutar e acolher os interesses das crianças são os passos iniciais para construir projetos. Parece um processo corriqueiro e fácil. Mas está longe disso! Professores precisam ativar antenas de percepção e sensibilidade para intuir, refletir, criar e planejar práticas que provoquem as crianças, promovam brincadeiras e as despertem para questionamentos. Essa é a matéria prima para identificar temas e construir projetos com elas.

Como fazer isso acontecer?
Uma prática realizada no CEI Nossa Turma, SP pode ajudar a pensar.

As cores estão chamando a atenção de um grupo de crianças de 2 anos e de suas professoras também. A turma quer conhecer, aprender os nomes e pesquisa-las nos objetos do cotidiano, nos desenhos que fazem diariamente e nas pinturas.

Acolhendo e encaminhando esse interesse, as professoras Sandra Aparecida Ferrari Lima e Maria Aparecida Soares Santos (a Cida) têm planejado e desenvolvido diversas propostas envolvendo o tema. Cida utilizou um jogo de dominó comum para desafiar os pequenos a encontrar pecinhas com bolinhas amarelas, verdes, azuis etc. Os coloridos objetos do dia a dia também são estímulos para que as professoras brinquem com os pequenos fazendo perguntas sobre as cores.

atividade com pincel de espuma e pregadorRecentemente um pedaço de espuma de estofado caiu nas mãos da Sandra e inspirou uma interessante proposta de arte. Ela cortou o material em pequenos cubos, arranjou pregadores de roupas e criou pinceis originais.

Forrando com papel kraft uma grande mesa que fica na quadra, as professoras organizaram um espaço confortável e convidativo para a pintura. Continue lendo..

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