As crianças na Natureza

Tânia Fukelmann Landau e Ana Carol Thomé organizaram um evento para conversar sobre as relações e a importância de uma educação que inclua a natureza no dia a dia das crianças. Aproveitamos e ouvimos um pouco a respeito desse conteúdo valorizado também pela versão provisória da Base Nacional Comum  Curricular.

O que as crianças podem aprender com a natureza?
O que aprendem neste contato direto e sensível?
O que pode ser realizado nas escolas e creches para fortalecer um trabalho com a natureza?

Escolas da Floresta 3Todos nós sabemos, pela experiência vivida, o quanto o contato sensível com as plantas, as árvores e demais seres vivos nos revigora e é agradável e primordial para nossa existência. Mesmo aqueles que moram nas grandes cidades, rodeados de tecnologias, asfalto, carros e muitos prédios, necessitam apreciar e sentir o perfume das flores, o verde das plantas, a brisa, o calor do sol e até mesmo os respingos da chuva.

O excesso de cuidados, a correria e a busca por uma vida mais prática muitas vezes terminam por nos afastar deste contato mais íntimo e vagaroso com a natureza, e por consequência, as crianças. Pequenos detalhes passam despercebidos, tais como uma estrela que surge no céu, uma nuvem que transforma seus contornos ou o caminho de uma formiga traçado no chão.

Ultimamente os brinquedos de plástico ganham amplitude, os terrenos, inclusive em algumas escolas, são cimentados ou recobertos com grama sintética. Até mesmo os vasos de flores e plantas naturais são substituídos pelos artificiais, pois dispensam água, o nosso cuidado e por consequência economizam nosso tempo.

Escolas da Floresta 1

Mas, quem cultiva o afeto pelos pequenos animais ou cuida de alguns vasos em suas casas sabe, apesar do trabalho que fazer isto nos dá, o quanto estes pequenos detalhes trazem elementos saudáveis e instigantes para suas vidas. Quem já teve a oportunidade de observar, pode notar a facilidade com que as crianças logo se apegam aos seus bichinhos de estimação como cachorros, gatos e até mesmo peixinhos e sabem o prazer que sentem regando o jardim ou comendo algo que foi por elas plantado. Isto é somente um pedacinho dos benefícios que a Natureza nos dá.

Quais aprendizados da relação crianças e natureza podem ser destacados?

Como as crianças podem aprender a cuidar sem ter do que cuidar?
Como valorizar a vida se vivem cada vez mais afastadas dos seres vivos?

O trabalho com a Natureza tem muito para acrescentar na qualidade de vida e desenvolvimento das crianças, o próprio contato com ela, em pequenos gestos, ensina um modo mais inteiro e harmonioso de crescer, se conhecer e conviver. Os laços mais estreitos com a Natureza nos ensinam que fazemos parte dela, colaboram para construção e ampliação de nossa consciência pessoal, planetária e ecológica.

Escolas da Floresta 5Não basta falar sobre as plantas, pintar árvores, escutar histórias e ver nos livros o que é necessário para preservar o meio ambiente. É preciso aprender com as mãos e o corpo inteiro, em contato com a água, o sol e a chuva, as folhas, bichos e a terra, colocando nosso aparato corporal completo para sentir, perceber e apreender os sentidos da Natureza.

Nos contextos atuais, a natureza está presente nas falas de educação ambiental de maneira abstrata e muitas vezes não é vivenciada. O contato com a natureza durante a primeira infância pode se resumir em uma palavra da língua inglesa: awe, que significa sentimento de veneração e respeito originado pelo maravilhamento e encantamento. Como falar de preservação, proteção, se não foi criado um vínculo? Gosto, logo cuido. Sábio Manoel de Barros nos diz que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem barômetros etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós.

A atenção e a concentração, capacidades tão indispensáveis para a aprendizagem, podem ser cultivadas neste entrosamento com a Natureza, assim como a curiosidade, a flexibilidade, a coragem para lançar-se ao desconhecido e a capacidade para encontrar soluções para alguns problemas.

O autoconhecimento e a consciência de pertencer ao universo mais amplo de relações pode ser o resultado de um contato mais sensível e íntimo com pequenas reservas naturais que cultivamos no dia a dia.

Brincar em um espaço onde a natureza é protagonista, no qual o corpo é vivido nas delicadezas, nas durezas, nas asperezas, nas sutilezas dos toques, dos sons, dos cheiros, dos olhares, dos gostos, ampliam os limites de descoberta pelas crianças, ou melhor, as deixa sem limites para experimentar. Henry David Thoreau diz que “a Terra é para ser mais admirada do que usada”. Mesmo sendo um dos maiores prazeres do corpo, olhar, observar, ficar quieto são atos confundidos com passividade, preguiça e solidão. É preciso que as crianças tenham tempo para contemplação. Atualmente, contemplar é uma ação que não é valorizada.

No entanto, embora saibamos da importância de nos aproximarmos mais dos ambientes naturais, nem sempre isto acontece no dia a dia corrido e intenso das nossas metrópoles, e nem sempre está no foco das escolas ou é devidamente contemplado no planejamento diário do trabalho com a crianças.

Como as instituições de Educação Infantil podem trabalhar a relação crianças e natureza?

Para desenvolver esta proposta algumas dicas são fundamentais:

  1. Procure dosar, ao longo do dia, momentos de atividades internas e outros de atividades ao ar livre com a crianças.
  2. Cultive plantas em vasos e pequenos canteiros, caso não tenha espaço na escola para um gramado.
  3. Deixe as crianças brincarem descalças, e em dias muito quentes até mesmo sem camiseta.
  4. Não evite sair se está um dia mais frio. Não existe dia ruim para brincar do lado de fora, mas roupas adequadas para o clima. No frio coloque agasalho, mas saia com as crianças. É importante que percebam suas necessidades corporais, somente elas sabem se estão com frio ou calor e a quantidade de agasalhos que as aquece. Ajuda-as se conhecerem, comece com estes detalhes. Pergunte se estão com frio, se precisam se aquecer mais.
  5. Organize um planejamento que considera as estações. Por exemplo, na primavera é bom observar os pássaros, deitar debaixo das árvores, cantar e brincar de roda na areia, perceber as plantas, observar o colorido das flores e desenhar os insetos que circulam. As chuvas de verão ensinam sobre o fluxo das águas, nutrem a curiosidade, acalmam e instigam ao mesmo tempo. Pense como aproximar as crianças destas percepções. Escute e imite o som dela batendo no telhado e na calha, encha bacias e reutilize a água para lavar o chão ou fazer uma tinta para o trabalho de artes. Se possível, arrisque um belo banho de chuva.
  6. Plante com as crianças, faça uma horta suspensa, cultive ervas para o chá que será servido no lanche. Deixe o aroma destas ervas invadir as salas e corredores. Organize um rodizio para que cuidem das plantas, semeando, regando e tirando o mato. Faça disto um hábito.
  7. Mesmo quando o espaço externo da escola é reduzido, podemos encontrar alternativas. Se não temos arvores e jardins, levamos os elementos naturais para dentro da sala como toquinhos de diferentes madeiras, conchas, pedras variadas, caixas de areia, folhas e flores desidratadas, sementes. Permitimos a livre exploração e criação com estes elementos.
  8. O fogo também é um elemento da natureza muito instigante para as crianças. Fazer atividades culinárias as aproximam dele, fogueiras na festa junina, contar histórias à luz de velas e fazer pinturas com giz de cera derretido. Basta tomar as devidas precauções para que tudo isto seja aproveitado em segurança. Uma vez assistidos pelos adultos, podem aprender que existem limites e que precisamos saber nos proteger dos perigos nesta relação com o fogo e em tantas outras que a vida nos apresenta.
  9. Experimente oferecer elementos da natureza durante as brincadeiras. Diferentes tipos de sementes, folhas, gravetos, penas, pedras, conchas, são elementos simples e que podem nos surpreender nas mãos das crianças.
  10. Pare e repare você, educador, no seu dia-a-dia, onde você encontra natureza. Dedique alguns segundos a mais na correria do cotidiano para observar as árvores do caminho, perceber plantas que nascem entre o cimento, fechar os olhos e sentir o vento no rosto. Permitir-se estar em contato com a natureza, fará a diferença quando fizer o mesmo com as crianças.

Balão-Para-Saber-MaisPara saber mais

A CONVERSO Assessoria Pedagógica organizou um encontro com a pedagoga e educadora Ana Carol Thomé que esteve em uma Escola da Floresta:

HISTÓRIAS DAS ESCOLAS DA FLORESTA 

  • Data: Sábado, 5 de março
  • Horário:
    • Credenciamento: 8h15 às 9h
    • Encontro: 9h às 12h
  • Local: Escola Tangará, Granja Viana, SP
Informações e inscrições
  • E-mail: secretaria.converso@gmail.com.
  • Fone: 11. 94440.2272

Balão-crédito-imagenswww.earlyworld.co.uk
www.cherubinsdaynursery.co.uk

barrinha colorida fininha

 

Ana-Carol

Ana Carol Thomé

Pedagoga, especialista em psicomotricidade e educação lúdica. Participa de diversas formações sobre primeira infância, brincar e arte para crianças e coordena o programa Ser Criança é Natural do Instituto Romã, que incentiva o contato das crianças com a natureza. Organiza a ação Doe Sentimentos e acredita no poder da infância e que o mundo pode ser melhor.

foto blog Tânia 10Tânia Fukelmann Landau
Fundadora e diretora da CONVERSO_ Assessoria Pedagógica. Pedagoga pela PUC-SP e Especialista em Educação Lúdica pelo ISEVEC. Colaboradora em projetos e publicação da Fundação ABRINQ. Membro da diretoria da Casa do Povo (instituição cultural). Atualmente se dedica integralmente à formação continuada de educadores e aos estudos sobre a infância.

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5 Comentários para As crianças na Natureza

  1. Paulete Stival diz:

    Amei a matéria, vcs estão de parabéns.

  2. Jane Maria De Lima diz:

    Amei sua escola espero um dia que todas juntem teoria e prática pois acredito que não existe melhor maneira de ensinar e aprende Parabéns!

  3. Ajussimeire diz:

    Amo fazer a leitura sobre criança e natureza, atuo na direção da Associação Quintal Mágico em Osasco, somos um verde diante de tanto cinza, fazemos todos os dias a diferença na vida dessas crianças, venham conhecer nosso espaço, aqui a natureza esta para criança assim como a criança esta para a natureza.
    beijos no coração

  4. márcia diz:

    Parabéns! Acompanho todas as postagens. Todas relevantes para pessoas interessadas na primeira infância. Esse é mais um texto que nos motiva a continuar construindo um currículo que respeite as necessidades das crianças em nossa creche. Obrigada!

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