Dia do Índio: muito mais do que uma pena na cabeça

O que é importante comemorar no “Dia do Índio”?
Como falar sobre a cultura indígena para as crianças pequenas?
Qual cultura indígena estamos valorizando: as nossas culturas brasileiras ou uma cultura importada e falsificada, com penachos de papel na cabeça?

indios 4Quando o Brasil foi descoberto, havia cerca de 1000 povos indígenas no território nacional. Hoje temos 215 povos. Existiam aproximadamente 900 línguas e, hoje, apenas 180.

A influência dos europeus transformou essa cultura complexa e variada desde a chegada em terras brasileiras. Mas os povos que resistiram preservam seus saberes com garra e nós, pessoas das cidades, precisamos valorizar e ajudar a preservar essas culturas que compõe a diversidade cultural que é característica do nosso país.

Preservar o conhecimento das culturas indígenas no trabalho escolar é fazer chegar às crianças os índios brasileiros de verdade. Sem formatos e alegorias importadas da TV, do imaginário americano e dos livros de história da época do descobrimento.  A cultura indígena também não se limita a uma roupa ou coreografia desconectada de contexto e de realidade.

Conhecemos os povos e as diferentes culturas da nossa cidade ou região?

Na postagem Vamos conhecer e brincar com a música indígena brasileira? falamos dos índios brasileiros a partir da música de várias etnias e na Brincando com a cultura indígena  sobre a pintura corporal.

Capa Kaba Darebu_Capa Kaba DarebuHoje escolhemos o livro de história do antropólogo e professor, Daniel Munduruku e da ilustradora Marie-Thérèse Kowalczyk, Kabá DareBu, da Editora Brinque-Book.

O enredo parte da história de vida de um índio brasileiro do povo mundurucu, da etnia do autor. Por isso, o livro é carregado de memórias de infância e sentimentos legítimos. Como não é uma história linear, pode ser lido aos poucos para as crianças e deve ser deixado no canto de leitura para ser folheado pelos pequenos. As bonitas ilustrações de Marie-Thérèse Kowalczyk podem inspirar temas de pesquisa e muitas conversas.

Daniel fala das moradias e dos bichos de estimação de seu povo: papagaios, micos, e outros. Fala das brincadeiras dos meninos e das meninas. Fala da alimentação e da pintura corporal. Fala da vida como ela é!

Ao ler o livro para as crianças o professor pode preparar algumas perguntas para iniciar e instigar diferentes conversas. Estas são algumas sugestões que devem ser adaptadas ao seu grupo de crianças:

Captura de Tela 2016-04-01 às 10.34.19Seguir com desafios e provocações por uma das direções propostas no livro já é suficiente para trazer uma parte genuína da cultura indígena para perto das crianças.

índios 5

Lembra que as crianças pequenas precisam sentir as experiências com o corpo todo?

A partir desse princípio, pesquisar as pinturas corporais indígenas pode se transformar num enredo que desperte muitos interesses. Uma dica para desenvolver a pesquisa com os pequenos é imprimir alguns grafismos indígenas e pendurar por toda a sala, na altura dos pequenos, como provocação visual. Depois, selecionar algumas das cores mais utilizadas nas pinturas corporais (vermelho, preto, amarelo e marrom) e propor desenhos individuais e coletivos.

Para continuar na pesquisa dos riscos, mas desafiando novos gestos com outros materiais:

→ Preparar caixas ou caixotes forrados com papel ou cartolina de cor contrastante no fundo.
→ Forrar, por cima do papel colorido, uma plástico transparente, tomando cuidado para assentar o plástico nas bordas e colar o excesso com fita adesiva.
→ Colocar um pouquinho de areia fininha (peneirada), em quantidade suficiente para preencher o fundo, sem que se forme uma camada espessa.
→ Buscar riscadores para desenhar na areia, além dos próprios dedinhos: palitos de churrasco com a pontinha cortada para garantir segurança, garfos de plástico ou de metal, palitos de sorvete etc.

Areia

As caixas podem ser individuais ou coletivas, mas no primeiro momento, não devem ser muito profundas para favorecer os movimentos mais fluidos e amplos do desenho. Podemos esperar que algumas crianças utilizem a areia para outras experiências, como pegar, segurar, transferir, derrubar entre outras. Tudo é possível! Contudo, colocando uma camada de areia fina o suficiente para preencher toda a superfície, sem criar grandes volumes, talvez induza às brincadeiras de riscar.

TintasAprofundando os rabiscos, provocados com as imagens dos grafismos, as historias da cultura indígena e os desenhos, pode-se propor a pintura corporal. Segundo Daniel Munduruku, as tinturas corporais são feitas basicamente de urucum, óleo de jenipapo e carvão, e ficam na pele de uma semana a 15 dias. Testamos algumas composições que podem atender à experiência, permanecendo na pela até ser lavada com água e sabão: misturamos colorau, açafrão da terra, canela e pó de carvão ao óleo de cozinha.

Os Kaiapós (Kayapos), entre outras etnias, utilizam dedos e palitos para pintar o corpo. No entanto, é possível pintar braços, pernas, barrigas e os rostos também com pincel, no caso de propor que as crianças pintem a si próprias e aos colegas. Os professores podem ajudar quando solicitados pelas crianças. O clima da cultura pode ser intensificado com um fundo musical de canções indígenas. Depois de pintados e prontos, é só soltar o corpo e criar uma comemoração!

A compositora e pesquisadora Marlui Miranda fez um bonito trabalho com o coral da USP gravando uma canção (Kworo-kango) dos índios Kayapós, cantada e dançada num rito de fertilização do solo para o plantio da mandioca. O vídeo está disponível com a letra da cação e imagens da dança dos Kaiapós.

cenas do filme

Apresentar filmes, trazer canções autênticas e ler um livro de boa qualidade sobre o tema vai preparar o imaginário do grupo e aproximar os interesses das crianças do espirito de celebração. Ao passo que, fazer “brotar” o Dia do Índio do “nada”, não despertará um interesse autêntico dos pequenos pela cultura indígena e transformará as propostas dos professores numa festa superficial que não constrói de fato aprendizagens. Partir do ponto de vista que provoca a curiosidade e a pesquisa garante propostas consistentes e envolventes. Quem sabe, a cultura indígena captura o interesse das crianças levando-as a descobertas que vão além do diminuto dia 19 de abril?

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Quer saber mais sobre as culturas indígenas e o livro Kabá DareBu ? Pode pesquisar em:

  • Editora Brinque-Book, valor R$ 36,30, no link https://www.brinquebook.com.br/kaba-darebu.html
  • Daniel Munduruku – É um escritor e professor brasileiro. Pertence à etnia indígena Mundurucu. Histórias de Índio é outro de seus livros.
    http://www.danielmunduruku.com.br/
  • Netuno Borun Krekmun – tem um blog e notícias atualizadas
    http://blog-do-netuno.blogspot.com.br/2010/09/pinturas-indigenas-e-seus-significados.html
  • Museu do Índio – um museu de saberes e de rituais
    http://www.museudoindio.gov.br/
  • Vídeos sobre pinturas corporais https://www.youtube.com/watch?v=88LFzg7bLKM

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Os autores se apresentam!

autorDaniel Munduruku 

Sou um índio que estudou na cidade desde pequeno, mas fui criado numa aldeia próxima a Belém. Aprendi com meu avô o que é ser índio; aprendi os segredos da floresta, do voo dos pássaros, a reconhecer a voz da nossa Mãe, a Terra.

MatêMarie-Thérèse Kowalczyk

Chamo-me Maté (pronuncia-se Matê). Nasci na França, em Saint-Étienne. Sempre gostei muito de livros com histórias de exploradores, índios, cachoeira, onças…
Quando vim ao Brasil, em 1979, me apaixonei pelo país e por sua gente. Para ilustrar a história do meu amigo Daniel Munduruku, usei aquarela, guache e até colagens de pintura em seda.

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6 Comentários para Dia do Índio: muito mais do que uma pena na cabeça

  1. Maria Rosângela diz:

    Eu sempre quis aprender mais sobre o como trabalhar com as crianças pequenas a questão indígena, de uma maneira lúdica, para proporcionar uma aprendizagem significativa.

  2. Olá sou professora de educação infantil e gosto muito de aprender sobre as Crianças acrxriaue as mais variadas experiências é que fazem a qualidade na educação de nossas Crianças. Aproveito para parabenizar vcs pelas sugestões dadas. Temos mesmo que trocar as nossas práticas de sala de aula. Deixo aqui um site para conhecerem nosso projeto com músicas para as crianças.site: http://www.cantandocomascriancad.com.br.

    Facebook: Grupo Cantando com as Crianças

  3. Myrella diz:

    Queria saber se esse livro Kaba Darebu tem para baixar ou ler online? Porque procurei em vários sites e não encontrei, aguardo a resposta, obrigada !!

  4. LiVIA diz:

    Queria saber a opinião de vcs. Acham pertinente contar a violenta história do Índio Galdino para crianças de 4 anos – infantil I ? Pergunto pois a professora do meu filho contou pra ele, e ele ficou muito impressionado.

    • Livia,
      É uma situação delicada…
      Nós, do Tempo de Creche, acreditamos num trabalho que parte dos aspectos positivos. Falar da cultura indígena para valoriza-la e desenvolver com as crianças um olhar respeitoso para a diversidade pode começar com conteúdos mais instigantes e poéticos. Abordar os contos indígenas, a arte das pinturas corporais, a estrutura das famílias e o senso de preservação da natureza pode construir conhecimentos significativos sem precisar esbarrar em situações negativas. Essa é a nossa crença!
      Grande abraço

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