Quando o silêncio ensina: infância, experiência e reflexão na ação
O que acontece quando o adulto não interrompe, não explica, não acelera? Num dia frio de primavera, crianças de 3 a 4 anos brincavam no parque, sob os olhares atentos e caçadores de oportunidades de duas professoras. A professora Luciana e Michele, sua auxiliar, acompanhavam os grupos e as brincadeiras de faz conta que surgiam e se aprofundavam. De um momento para o outro, tudo mudou. Perto da professora Michele, um passarinho morto cai de uma árvore. As crianças, atentas e curiosas, correram para observar o animalzinho que não se movia. Num impulso quase automático, Michele se apressou para recolher o passarinho. Mas, numa troca de olhares sintonizados com a professora Luciana, decidiram permitir. Uma frase não pronunciada foi trocada entre as docentes: vamos acompanhar e ver no que dá? A história que se desenrolou entre essas professoras – que acompanho há anos – vai emocionar e provocar muitas reflexões:…
Uma escola Montessori na Holanda: a rotina como base da educação dos pequenos
Educar crianças pequenas é, antes de tudo, um compromisso com a escuta atenta e a multiplicidade de caminhos possíveis. Ao longo dos séculos XX e XXI, diferentes pensadores e experiências educativas ofereceram contribuições valiosas que seguem inspirando escolas ao redor do mundo. Para acolher essa diversidade, é preciso compreender que cada país, cultura e comunidade escolar carrega saberes únicos — e que há muito a aprender quando nos abrimos a esses encontros. Foi com esse olhar que visitei a escola montessoriana 2Voices, na Holanda, uma experiência que ampliou minha compreensão sobre a infância, a autonomia e o papel do ambiente na construção do conhecimento. Maria Montessori nasceu no final do século XIX na Itália (1870) e foi educadora, médica e pedagoga italiana. Em 1934, o regime fascista fechou muitas escolas montessorianas, e por conta disso, Montessori deixou a Italia. Depois de passar pela Espanha e pelo Sri Lanka, foi viver…
O que falta na observação e no registro pedagógico?
Será que a gente consegue saber tudo sobre observação, registro e reflexão? Não! Realizar uma observação proveitosa e um registro que alimente a reflexão exige aperfeiçoamento constante. Frustrante, não é mesmo? Mas essa é a essência da prática pedagógica que qualifica a atuação do professor e promove seu desenvolvimento profissional. Lembro que, depois de dois anos participando de um curso sobre registro com a Madalena Freire – um privilégio que guardo como tesouro, parece que saí com mais dúvidas do que quando entrei! No final da jornada com a mestra, cortar o cordão umbilical não foi fácil: como resolver as dúvidas que surgem no dia a dia? Como encerrar esse processo que parece aumentar a inquietação a cada encontro? Quando a turma partilhou esses sentimentos com a Madalena ela afirmou: “a intranquilidade nunca vai acabar!”. E, por isso, ela considerava sua missão cumprida. O bom professor precisa buscar aperfeiçoamento constantemente.…
Avaliar é acompanhar processos… sempre!
A avaliação acontece no caminho: na observação individual e coletiva das crianças, no registro das situações marcantes e esclarecedoras, na reflexão e organização das informações e na construção de instrumentos de avaliação, como os relatórios individuais. Se a avaliação é consequência da visão sobre um processo, então ela é contínua e começa agora! Seja quando for esse “agora”! Compreender a dimensão dessa questão ajuda a mudar o olhar para a avaliação e o ciclo virtuoso do processo de ensino: planejar, atuar, observar, registrar, refletir/avaliar, replanejar. Mas, para que o professor possa enxergar em seus registros as trilhas de aprendizagem percorridas pelas suas crianças, é preciso intencionalidade na observação e organização das informações levantadas nos registros. O que quero dizer com “intencionalidade e organização das informações”? É registrar a partir de critérios e se preparar para que os registros realizados ao longo do dia, durante a ação pedagógica, revelem informações que…
Escola, identidade e comunidade: aprendizagens com o Quilombo Muquém
O que a escola da comunidade quilombola Muquém tem a ensinar para as escolas brasileiras? A Escola Municipal Pedro Pereira da Silva pertence a única comunidade remanescente do Quilombo dos Palmares, no estado de Alagoas, e é um patrimônio da memória afro-indígena brasileira. Joyce Eiko Fukuda, parceira do Blog e dos livros de formação, e eu, Joyce Rosset, tivemos o prazer de conhecer e conversar com a equipe pedagógica da escola do Quilombo Muquém. O Quilombo Muquém guarda uma história antiga e profunda. Refúgio dos escravizados fugitivos das fazendas de cana da região, as terras que ficam no sopé da Serra da Barriga foram ocupadas há mais de 200 anos. Cizino (José Cizino de Oliveira), diretor administrativo, e Andréa do Nascimento Maia Gomes, coordenadora, nos contou que a região de Mata Atlântica era um ótimo esconderijo para os escravizados que conseguiam escapar em busca de liberdade. Estas pessoas se…
O que e como observar para avaliar: no início, no meio e no final do ano
Uma dúvida comum entre os professores de educação infantil é o que e como observar as crianças para conhecê-las individualmente, ter uma noção do grupo e avaliar seus percursos de aprendizagem e desenvolvimento. Já publicamos diversas postagens sobre as estratégias para acolher as crianças no início do período letivo e favorecer as observação ao longo do ano. No final da postagem você encontra algumas delas. Nesta postagem vamos falar sobre avaliação e a importância do registro nas primeiras semanas do ano letivo para estabelecer um ponto de partida para as avaliações que se seguem no decorrer do ano. Para a pesquisadora e formadora inglesa Anitra Vickery, a finalidade da avaliação é monitorar os processos de aprendizagem da criança e favorecer o desenvolvimento com propostas adequadas. Anitra ressalta que a avaliação também tem o propósito de registrar os sucessos alcançados na escola. Com isso, pergunto: Como constatar os avanços da criança…
Alimentação saudável: aprendizagem apoiada em significados
Do ponto de vista de uma criança, o que significa considerar um alimento bom ou ruim ? O que elas entendem por saudável e não saudável? Será que apresentar pirâmides alimentares e dar explicações nutricionais são estratégias adequadas e suficientes?Nesta postagem propomos reflexões e sugestões práticas para elaborar um projeto transversal de educação alimentar saudável nas escolas da infância. E, no final da publicação, compartilhamos um relato Sobre as conquistas da Creche da Associação Bênção de Paz, da Vila Carrão, em São Paulo. A documentação sensível e poética, aponta os caminhos de uma jornada vitoriosa de transformações dos processos de alimentação dos bebês da unidade. Acompanhe os percursos das crianças, dos professores e dos gestores desta escola, visualizando o arquivo em PDF no final da postagem. Já presenciei professores fazendo longas explanações para crianças pequenas sobre os males do açúcar, da gordura, da fritura, das farinhas… mas não observei carinhas…
Observação generosa: a dificuldade de observar e registrar a realidade
Por que é tão difícil registrar?Por que as informações apontadas nos registros, às vezes, não nos dizem nada?Estou no final de um projeto de formação desenvolvido com uma rede municipal de ensino de São Paulo e, revendo os meus próprios registros, decidi compartilhar alguns pensamentos com os leitores do Tempo de Creche. A linha mestra do projeto foi construir aprendizados da prática pedagógica a partir de discussões e reflexões de momentos de brincadeira espontânea das crianças, gravados em vídeos realizados pelos professores. A cada encontro formativo, assistíamos a vídeos com duração de 2 a 4 minutos e discutíamos sobre as ações das crianças e as propostas dos professores. Num dos encontros, “gastamos” 1 hora e 30 minutos assistindo o mesmo vídeo, descrevendo e interpretando as cenas de brincadeira de faz de conta vividas por dois grupos de meninas. A cada repassada, novos trechos chamavam a atenção dos professores e…
Presente para a Educação Infantil: Catálogo de jogos e brincadeiras africanas e afro-brasileiras
Quais são as brincadeiras de origem africana brincadas no Brasil e nos países africanos de língua portuguesa? Um grupo de pesquisadores se interessou pelo tema e nos presenteou com o Catálogo de jogos e brincadeiras africanas e afro-brasileiras, um linda publicação gratuita, que reúne brincadeiras tradicionais do Brasil, de Angola , de Cabo Verde, da Guiné-Bissau, de Moçambique e de São Tomé e Príncipe.As organizadoras do e-book (livro digital) são Helen Pinto, Luciana Soares da Silva e Míghian Danae. O autor das ilustrações (um deleite para os olhos!) é Rodrigo Andrade. Participaram do levantamento das brincadeiras: Pedro Nguvu (Angola), Luliane Sousa (Brasil), Jacica Fernandes (Cabo Verde), Yacine Tavares (Guiné-Bissau), José Maye (Guiné Equatorial), Hercinia Wasse (Moçambique), Quezia Miranda (São Tomé e Príncipe). A editora, que realizou o trabalho primoroso de edição do livro é a Aziza, que aliás, possui diversas publicações de literatura infantil africana para contar – bem…
Check list da Documentação Pedagógica
Afinal, o que é importante pensar ao elaborar a documentação pedagógica? Antes de responder a esta pergunta, é preciso falar sobre a escuta pedagógica, o registro e a famosa reflexão sobre os registros. Por quê? Porque uma documentação que considera as vozes da criança e do professor necessariamente passa pela qualidade da observação, do registro e da retomada de todas as informações colhidas para o processo reflexivo. Pois é, está tudo tão interligado que ultimamente tenho pensado que uma boa documentação pedagógica é fruto de um processo qualificado de ensino, porque ela é a ponta de um iceberg, que tem uma base gigante que engloba o trabalho pedagógico intencional. Até aqui estamos dando voltas sem chegar à prática, não é mesmo?É que sendo a documentação o resultado de uma prática de ensino qualificada, é preciso ter clareza sobre: Quem estamos educando – uma criança passiva, cuja participação está em participar…










