Riscos X perigos: o que queremos para as nossas crianças?

Quem não andou por ruelas e terrenos inexplorados, cutucando algo descartado ou explorando as possibilidades de brincar numa grande árvore? Quem não juntou objetos e pedaços de plantas para fazer uma preciosa cabana? Quem não se sujou de lama e pisou prazerosamente em poças d’água? Será que estamos roubando de nossas crianças parte da uma infância culturalmente cultivada por centenas de anos? Em nome de uma “infância protegida” não estamos transformando as brincadeiras e os seus riscos em desafios simples e pouco expressivos?

Um dos destaques da mostra Ciranda de Filmes 2016 é o curta-metragem The Land da americana Erin Davis (Documentário, EUA, 2015). O filme persegue as atividades de um grupo de crianças que frequenta um playground incomum, localizado no País de Gales, Reino Unido.

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Por que incomum?

Porque esse parque, indicado para maiores de 5 anos, tem muitas sucatas; terra, barro e córrego; ferramentas como martelos, serrotes, pregos, pás e picaretas; tintas, árvores, educadores muito bem preparados e a permissão para construir e destruir tudo o que for possível.

No filme vemos um menino usando um serrote para construir uma imensa raquete. Também observamos crianças se pendurando de todas as formas em objetos propositalmente pendurados e um grupo experimentando queimar diferentes qualidades de papel num pequeno abrigo.

Loucura? Não! As crianças são acompanhadas de perto por educadores, chamados de playworkers, com formação específica para tirar o máximo das inteligentes brincadeiras que as próprias crianças propõem.

Vista 1Um dos playworkers afirma que uma das tarefas mais difíceis desse tipo de mediação é observar os grupos controlando a própria ansiedade. A interferência prematura nas brincadeiras, seja para conter possíveis perigos ou resolver problemas que as crianças são capazes de solucionar, pode diminuir as experiências e aprendizados decorrentes delas.

vistta 6Em outra cena vemos a equipe de educadores preparando o ambiente e os desafios para o dia seguinte. Refletindo sobre os interesses das crianças, eles resolvem pendurar um grande cano numa das árvores. No dia seguinte, no momento da abertura do parque, um pequeno frequentador identifica o novo balanço e dispara perguntas para o educador: quem pendurou o cano na árvore? Foi você? Com isso, o educador responde: não fomos nós! Já estava assim quando chegamos. Distanciando-se do grupo de crianças, o educador explica para o público: quando dizemos que o projeto é nosso, é como se limitássemos as possibilidades de exploração e inventividade das crianças. Quando a situação não tem um “dono”, as crianças se apropriam mais fácil e amplamente da proposta.

Mas o que isso tem a ver com a Educação Infantil?

Tudo!
Guardadas as proporções, precisamos transformar o nosso olhar viciado em superproteção. SUPER-protegendo as crianças, roubamos a oportunidade de desenvolverem a capacidade de avaliar riscos, a resiliência, a autonomia para fazer escolhas e lidar com as próprias fragilidades.

Vamos pensar um pouco mais…
Para Joan Almon, da Aliança Americana para a Infância (US Alliance for Childhood), acontecem poucos acidentes nos playgrounds, mesmo aqueles que podem sujeitar crianças a ousadias. Isso porque existe uma capacidade inata nos pequenos para avaliar os riscos que podem enfrentar.

Anualmente, nos Estados Unidos, mais de 2000 crianças passam por pronto-socorros em decorrência de acidentes ocorridos em todos os parquinhos americanos. Em dois anos, o Parque The Land não registrou nenhum acidente significativo.

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Porém, Joan ressalta que perigos e riscos são questões diferentes. Perigo é correr num campo de grama, pisar num caco de vidro escondido e se machucar. Perigo seria, também, se os playworkers preparassem pontes e passarelas para as crianças, sem se certificarem da sua resistência. Por outro lado, riscos são as incertezas de atravessar a ponte, empenhando-se em superar o desafio, acessando o controle dos movimentos, a concentração na tarefa e o planejamento. Esse processo proporciona inúmeras aprendizagens às crianças:

  • Controle motor
  • Desenvolvimento de estratégias
  • Foco
  • Controle emocional
  • Melhoria da autoestima com a conquista da tarefa

Um ambiente preparado e supervisionado por adultos responsáveis pode prever os verdadeiros perigos, eliminá-los e expor os recursos para favorecer o enfrentamento de riscos assegurados pela capacidade de avaliação das próprias crianças.

Ambientes externos, sujeitos ao clima e à temporalidade, com materiais organizados por profissionais, oferecem para as crianças a oportunidade de escolherem e decidirem sobre seus usos. Esses ambientes se tornam tão atrativos para os pequenos que são imediatamente usados em brincadeira criativas, significativas e, fundamentalmente iniciadas por eles. Nesse contexto as crianças experimentam com empenho a espacialidade, as propriedades físicas e químicas dos materiais, o planejamento de estratégias, as relações e a criação de complexos jogos simbólicos. Essas experiências profundas se transformam em aprendizagens que se conectam e se tornam suporte para a resolução de problemas em outras situações.

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Assim, o que aprendemos com o documentário, além da importância do enfrentamento de riscos por parte das crianças e da organização de espaços e materiais desafiadores, é a postura do adulto que acompanha e apoia as experiências das crianças.

Esperar para intervir, conter a ansiedade, apontar os perigos, interferir quando necessário e acreditar na capacidade dos pequenos são as premissas desse trabalho. Que, de fato, em nada difere do trabalho dos professores que têm a criança como centro, que escutam e acolhem o que vem delas e que acreditam nas experiências como forma de educar e desenvolver.

O filme The Land nos deixa com essas reflexões e muitas perguntas: quais capacidades estamos buscando desenvolver nas nossas crianças? Acreditamos mesmo na potencialidade dos nossos pequenos? Se sim, estamos permitindo e favorecendo experiências significativas?

TheLand_DVD_Cover Links para traliers do filme:
https://www.youtube.com/watch?v=kR7QeqLhhSA
https://www.youtube.com/watch?v=DKQe3HWPryo

Bibliografia
http://www.theatlantic.com/magazine/archive/2014/04/heyparents-leave-those-kids-alone/358631/

Leia mais em:
Natureza, riscos e brincadeiras numa discussão que dá o que pensar
As crianças na natureza
Escola da Floresta: crianças, Natureza e aprendizado

 

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