Rede de trocas e construção coletiva para minimizar a solidão pedagógica

Creches públicas, entre outras instituições, ainda encaram a construção das equipes gestoras como estratégia política. As dificuldades enfrentadas por profissionais recém empossados são inúmeras e a continuidade do trabalho qualificado exige medidas criativas que buscam uma integração em rede. É nesse âmbito que a FLUPP – Fundação Lúcia e Pelerson Penido desenvolve alguns de seus programas no Vale do Paraíba (SP) e Vale do Araguaia (MT).

Conversamos com Eduarda Penido Dalla Vecchia, diretora executiva da FLUPP, sobre essa experiência.

Tempo de Creche – Acompanhando o trabalho formativo da FLUPP, como você vê a gestão das creches?

Eduarda – Um dos primeiros pontos é a questão de estar coordenador, sendo ainda  professor.

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Nas creches públicas, a cada mudança de governo o quadro de profissionais é alterado. Assim, a cada quatro anos a equipe que faz a gestão da creche é modificada. Essas equipes geralmente são compostas por professores escalados para ocuparem cargos de coordenação por um período. Sem experiência em gestão, os coordenadores têm dificuldade em acompanhar as salas de aula, desconhecendo o que está sendo proposto. Com isso, surgem as dificuldades de desenvolver os mecanismos de qualificação e de alinhamento dos trabalhos. Coordenadores e coordenadoras estão então num momento em que são colocados com chefes dos professores, contudo, na realidade, foram seus pares em anteriormente e serão seus pares no futuro. Apresentam dificuldade para atuarem de forma incisiva com quem foi colega de equipe, mesmo tendo segurança e embasamento sobre aquilo que propõem.

A FLUPP atua em cidades pequenas e, nesses contextos, a proximidade entre os profissionais é ainda maior. Assim, existe a preocupação das coordenadoras serem duras demais no momento em que são chefes e, posteriormente, ao regressarem na equipe de professores, sofrerem “consequências” por conta de suas ações.

Outra situação que levantamos nas formações do Programa VIM-Valorizando uma Infância Melhor, está relacionada à ausência de sentimento de participação de alguns membros que, apesar de presenciarem as formações e integrarem a construção coletiva dos projetos políticos, não se sentem coautores e nem responsáveis.

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Com isso, as formações promovidas pela FLUPP trabalharam muito na definição dos papeis dos profissionais da Educação: do gestor, do diretor e do coordenador. É  muito importante construir com as equipes gestoras o que cada cargo necessita para ser desenvolvido. Em muitas situações esses educadores não têm perfil para o cargo que ocupam. Isto leva a situações em que recorrem ao autoritarismo, à não delegação de ações, à dificuldade no falar, se comunicar e não dar conta de cuidar das responsabilidades. Em muitos casos conseguimos eliminar a “carga autoritária” e favorecer a compreensão das funções do cargo, bem como a melhor forma de conduzi-lo. Também desenvolvemos a compreensão de ser mais participativo, mais inclusivo, possibilitando que cada coordenador pudesse se colocar no lugar do outro. É difícil ser gestor!

Tempo de Creche – Que outros pontos foram trabalhados nessa construção dos papeis?

Eduarda – Compreendemos outro ponto muito importante: momentos de troca entre gestores e a formação de uma rede. Este ano, no momento de abertura do programa VIM, a FLUPP reuniu novos gestores e os mais antigos, propondo uma rede de troca para que discutissem sobre o que podem fazer juntos, tanto no sentido de compartilhar experiências, quanto de pleitear em conjunto, se tornando mais fortes. Esta proposta gerou encontros das equipes gestoras em pólos, mantendo uma periodicidade mensal.

Esse compartilhamento começou com uma das ações do Programa denominada Pé na Escola, na qual diretores e coordenadores de quadro cidades do Vale do Paraíba se reuniam mensalmente e visitavam uma escola. Observavam problemas e refletiam sobre soluções e encaminhamentos para questões relacionadas a espaços, relações com as famílias, situações administrativas, enfim, boas práticas. Uma real troca de experiências.

Começamos a disseminar os trabalhos do grupo no Facebook e nos seminários, onde abrimos um espaço para as boas práticas. Isto fez a rede de trocas e o grupo crescerem muito. Cada participante foi encontrando soluções ao olhar para a situação problema e planejar formas de apresentá-la para os colegas. Isto gerou uma aproximação entre os participantes, trouxe novas ideias para a gestão, que foram sendo adaptadas a cada contexto. São pequenas estratégias que podem gerar boas soluções.

Por fim, isto alivia um pouco a angústia porque fica claro que todos têm problemas e que eles muitas vezes são comuns.

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Balão-Para-Saber-MaisNa opinião da pesquisadora Bernadete Gatti, da Fundação Carlos Chagas (FCC), o primeiro passo a ser dado [para instituir as trocas de experiências] é estabelecer uma periodicidade. Uma vez por mês, por exemplo. “É importante que o processo seja contínuo e sistematizado”, salienta. Outro ponto a ser considerado é contar sempre com a presença de um mediador capacitado para dar substância às discussões e colaborar para aprofundar os conhecimentos. “Caso contrário, vira uma conversa qualquer, sem valor”, alerta.

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EduardaEduarda Penido Dalla Vecchia – Graduada em Biologia pela USJT e em Psicologia pela PUC – SP e pós-graduada em Administração pela FGV – SP. Diretora Executiva da FLUPP – Fundação Lucia e Pelerson Penido, uma fundação familiar criada em 2011 com a missão de contribuir para o desenvolvimento dos indivíduos através da educação criando oportunidades e restituindo a capacidade de sonhar. A FLUPP apoia e opera projetos de Educação no Vale do Paraíba (SP) e no Vale do Araguaia (MT).

A FLUPP  – Fundação Lúcia e Pelerson Penido – desenvolve os programas: VIM (Valorizando uma Infância Melhor), VEM (voltado para a Educação Básica), o PED (Programa de Promoção da Educação). Além disso, desenvolve o Projeto Melhores Cabeças que visa incentivar bons alunos a serem professores.

 

 

 

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