Uma experiência prática de cidadania na Educação Infantil

É possível trabalhar vida em sociedade e cidadania na Educação Infantil? Como despertar nas crianças pequenas aspectos da democracia? Uma EMEB* da região do ABC, SP, diz que isso é possível e que as crianças desenvolvem responsabilidade pelo coletivo com muita seriedade. É importante ressaltar que as crianças em questão têm entre 3 e 6 anos de idade.

BilheteO bilhete ao lado foi recebido pela escola, enviado por uma mãe de aluna de quatro anos. No texto ela comunica a preocupação da filha que, por motivo de doença, iria faltar à reunião do “Conselho Mirim da Escola”, ao qual pertence como representante de sua turma. Pasmem!!! A pequena de quatro anos, imbuída do exercício de atividades realizadas em prol do coletivo, ficou preocupada em “faltar” com sua responsabilidade! Será que alguém ainda duvida das habilidades e capacidades das crianças pequenas?

A escola, uma ilha de natureza e calor humano, está localizada numa comunidade árida e carente da região do ABC, próxima à cidade de São Paulo. A sensação de aridez se traduz nas condições precárias de urbanização da região e pela falta completa de zonas verdes. A escola que, juntamente com a creche e o fundamental, formam “o quarteirão da educação”. A proximidade muro a muro das três instituições favoreceu o diálogo entre elas e transformou o espaço em referência de convivência e participação de crianças e famílias.

livro 1

Em 2013 a escola pensou em ampliar a participação das crianças na vida da comunidade escolar. Elaboraram então o Projeto Conselho Mirim, que faz parte do Projeto Político Pedagógico, como uma maneira de envolver as crianças nas questões escolares de forma programática. A equipe pedagógica foi preparada e as crianças também. O excelente livro de história Se criança governasse o mundo…*, de Marcelo Xavier, foi uma referência para a introdução do tema da cidadania na Educação Infantil.

Cada turma elege um representante que participa das reuniões do conselho, uma vez por mês. Os conselheiros, mediados pelos professores, são incumbidos de levar as propostas, que ficam mais no campo dos sonhos e desejos. Outra função do representante da turma é compartilhar com os colegas de sala o que foi discutido e ficou definido.

eleição de representante da turma

Em todo o processo, os professores mediam as conversas utilizando diversos recursos para adequar as discussões e o entendimento às faixas etárias dos grupos: desenhos, imagens, vídeos, cartazes, arquivos em Power point e músicas.

1a reunião do Conselho Miriam

Na reunião do dia 14 de julho de 2016, as crianças escolheram temas que dizem respeito aos espaços coletivos e ao convívio social na escola. As turmas encaminharam seus sonhos para o conselho e um grande painel com o resultado das votações foi colocado numa das paredes:

  • Dia da pintura de rosto e fantasia
  • Avião de brinquedo
  • Dia da massinha
  • Pula-pula (cama elástica)
  • Comidas: bolo, refrigerante, algodão doce, sorvete, espaguete
  • Brincadeira da pescaria
  • Painel de decisõesPipoca
  • Piscina de Bolinha
  • Bonecas Barbie, Ken e Dora
  • Bicicletas
  • Fruta todo dia
  • Quadra coberta
  • Livros de Bruxa
  • Brinquedo Dragão Guerreiro do King Fu Panda
  • Família na Escola: o irmão jogar bola na escola ou o pai vir ensinar a jogar futebol
  • Chão da quadra colorido e mesas também
  • Bambolês novos
  • Bexigas
  • Pipa
  • Mais carrinhos da Hot Weels e caminhão grande do Batman
  • Bumerangue para brincar na quadra
  • Apresentação de Palhaço e Mágico
  • Roda-roda
  • Paredes e mesas coloridas

painel com resoluções do Concelho Mirim

Alguns dos “sonhos” já foram realizados! A direção e a equipe estão buscando formas para realizar os outros.

registro das reuniões do Conselho Mirim

Quais as possíveis aprendizagens das crianças ao experimentar esse processo?

  • As crianças percebem que são ouvidas. Aquilo que elas pensam e expressam tem valor.
  • O exercício de sonhar, pensar sobre os desejos, expressá-los e refletir sobre eles.
  • A partir das diferentes escolhas individuais, exercitar a concordância de ideias que resulta na escolha do grupo
  • Organizar o pedido, encaminhá-lo e aguardar as etapas do processo.
  • Entender que o percurso organizado das discussões e solicitações dão certo! Ou não! E abre-se uma oportunidade para trabalhar a frustração e a possível reelaboração de estratégia.

Apresentação do Conselho Mirim

Não existe Conselho Mirim na sua escola?

Não tem problema! Existem várias situações que podem ser trabalhadas com as crianças desde cedo. A partir de 18 meses, o processo de escolha deve ser desenvolvido na esfera individual. Por exemplo, com a possibilidade de escolha entre:

  • cantos de atividades diversificadas
  • dois sabores de suco
  • alguns brinquedos/brincadeiras
  • cores de um material de artes
  • Cor da roupa
  • Percursos e caminhos
  • Entre outras!

A partir de 3 anos as crianças podem também ser consultadas sobre a cor escolhida para pintar o brinquedo do pátio ou o armário da sala! Se querem bolo de brigadeiro na comemoração do aniversariante do mês, ou se preferem de doce de leite. É uma questão de afinar o olhar para perceber as situações do cotidiano que podem ser aproveitadas para exercitar a escuta e o consenso. É possível conversar com duas ou três crianças a princípio, levantar pequenas “discussões” e, depois, ampliar o número de participantes interessados em decidir.

Quando as crianças têm oportunidade para pensar e decidir coletivamente sobre aspectos do cotidiano que despertam seus interesses, começam a exercer a cidadania na dimensão de sua faixa etária. Sentem-se mais integradas ao ambiente da escola e tornam concreto o sentido de coletividade. Assim, as bases da cidadania são construídas e vivenciadas na prática e transformam-se em aprendizagens para a vida. A equipe da EMEB do ABC pensou numa maneira criativa e adequada de formar adultos críticos, que se importam com o entorno e se posicionam em relação a ele. Um exercício mais que possível de cidadania!

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PARA SABER MAIS…

→ * Por conta do período eleitoral não podemos divulgar o nome da EMEB – Escola Municipal de Educação Básica – do ABC que realiza esse trabalho consistente. Mas podemos dizer que ela está sob a direção da Jane Bezerra da Silva e coordenação da Raquel Gonçalves dos Santos Carneiro. Assim que o período eleitoral acabar, acrescentaremos à postagem o nome da escola.

Marcelo_Xavier_Divulgacao_2014→ O livro Se a criança governasse o mundo… de Marcelo Xavier, foi escrito em 2003 e fala sobre uma terra governada por crianças, onde não existe violência e os desencontros se transformam em encontros divertidos e alegres. Um dos focos do livro são as soluções que as crianças elaboram para os problemas, pensadas com o coração. O livro foi recomendado para crianças pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil em 2003 e selecionado pelo Plano Nacional do Livro Didático/PNLD-SP, em 2004.
Um trecho para se deliciar:

“Se criança governasse o mundo…
… o trânsito seria uma maravilha.
Guerras, se existissem, não teriam tiros nem bombas.Terminariam sempre bem, com amigos e inimigos guardados juntos na caixa da paz.
Os bancos teriam dinheiro pra todos. Feito ali mesmo, rapidinho.
Fome? Não haveria. Comida? Seria feita sem fogo: salada de grama, farofa de areia, bife de caco de telha e suco de mentirinha.
Cada um teria sua casa, móveis , camas quentinhas pros filhos. E carinho, muito carinho.
A TV e o rádio contaria histórias e só dariam boas notícias:
– Hoje tem espetáculo!
– Desinventaram a injeção!
– Tempestade de sorvete prevista pra hoje à tarde!
O jornal “DE VEZ EM QUANDO” publicaria recados, retratos, curiosidades, convites, jogos, perguntas e ideias, muitas ideias. Jornalismos feito à mão: tinta, cola, tesoura, pincel e, naturalmente, papel.
…”

Leia mais sobre esse tema nas postagens:

 

 

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2 Comentários para Uma experiência prática de cidadania na Educação Infantil

  1. Érika de Oliveira diz:

    Boa tarde.
    Gostaria de adquirir esse livro: “Se criança governasse o mundo”.
    O que devo fazer para conhecer melhor essa história?
    Aguardo contato

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