Aguçando os sentidos e construindo saberes

A museóloga e educadora de museus, consultora de Acessibilidade em Ação Educativa Inclusiva, Amanda Fonseca Tojal, valoriza educação para os sentidos como um recurso pedagógico para todas as crianças e principalmente para o estimulo na inclusão de crianças com deficiências.

Tempo de Creche – O que se deve proporcionar para uma criança que está começando a descobrir a vida?

 Amanda – O que eu tenho visto hoje em dia, cada vez mais, é a virtualização do nosso ambiente, a virtualização da nossa vida e da nossa comunicação. Claro que eu não estou criticando e não sou contra este tipo de tecnologia. Ela é muito importante. Ela é fascinante e este processo não tem retorno.

A questão é que a virtualização acaba muitas vezes diminuindo ou dando menos espaço para um trabalho de conhecimento sensorial, concreto e vivencial das crianças. As crianças passam muito mais tempo mexendo em equipamentos do que brincar de roda, estar perto da natureza, de interagir com objetos, conversar e se comunicar com outras crianças. Este afastamento está trazendo uma perda muito grande na questão do afeto, do reconhecimento e da estimulação pelos sentidos e os educadores tem que prestar muita atenção nisso. A Creche é um espaço para esta exploração. Para a exploração do concreto, para o reconhecimento do outro e também do meio ambiente, independentemente do nosso mundo virtual.

Tempo de Creche – E a criança com deficiência, como é para ela este contexto?

Para a criança com qualquer tipo de deficiência, seja ela uma deficiência sensorial, isto é, visual ou auditiva, intelectual, física, múltipla e/ou paralisia cerebral, será muito mais necessária essa forma de experimentação concreta. Por que esta experimentação será o contato real que ela terá com o mundo. No caso, por exemplo, da deficiência intelectual, ela vai precisar vivenciar muito o concreto, o palpável, pois ela terá dificuldades com os conceitos mais abstratos. O mesmo ocorrerá com a criança com paralisia cerebral, no caso de comprometimento da fala, da mobilidade dos membros ou de caminhar, pois a experiência concreta vai facilitar também o contato mais próximo e físico dela com os objetos e o mundo que a cerca.

Tempo de Creche – O que nós temos que fazer?

Amanda – Trazer esta concretude, isto é, estimular na criança essa experiência concreta. Se falamos na arte, ou em qualquer linguagem artística, é trazer para o concreto esta experiência, o palpável. Se uma criança vai se aproximar de uma pintura, de uma obra de arte, ela tem que vivenciar isto muito mais. Será necessário desenvolver uma alfabetização para os sentidos.

Outra questão muito importante é o brinquedo. O brinquedo também tem que ser sensorial, ele tem que trazer esta concretude de construção, de cheiro, de toque, de afeto e de aproximação prazerosa com esse objeto. O brinquedo tem que ter um apelo sonoro, tem que ter um apelo olfativo. A criança com deficiência tem que ser ainda muito mais estimulada do que uma criança sem deficiência.

Isso é muito importante.

Para uma criança com deficiência, o mundo virtual é muito mais abstrato. Ele é muito mais difícil de ser reconhecido. Se você não estimula a experiência sensorial, você está reduzindo estímulos fundamentais para o seu desenvolvimento físico e emocional, e, consequentemente para a sua inclusão na sociedade.

Tempo de Creche – Em relação às descobertas das crianças com deficiência. Como você vê?

Amanda – Como já afirmei anteriormente, vejo como prioridade a estimulação pelos sentidos (visual, tátil, auditivo, olfativo, gustativo e espacial / cinestésico). Nós educadores temos que estimular a alfabetização dos sentidos nas nossas crianças.

Eu vivenciei, e acho que vários professores vivenciaram os métodos baseados na “livre expressão” muito aplicados nas décadas de 60 e 70 no Brasil. Foi um momento que a arte, dentro da escola, caminhava desta forma. Alguns anos depois, outros métodos passaram a criticar a “livre expressão”, e eu, já como educadora de museus, passei a criticá-la também.

Tempo de Creche – Por quê?

Amanda – Porque era um método que estimulava o “deixar fazer” e ponto final. Tanto fazia o resultado, o que foi desenvolvido pelo aluno. A criança que já era auto estimulada, ela ia e fazia as atividades. Eu que era uma criança muito interessada na criação artística, que gostava de arte, tanto que acabei sendo profissional nesta área, fazia com prazer. Já outras crianças que não tinham tanto interesse, ou mais dificuldades acabavam se desinteressando, pois não havia um educador ali para desafiá-las, buscar meios de estimulá-las para a criação artística.

Penso que hoje, o professor ou educador voltou a ter um papel preponderante no desenvolvimento criativo de uma criança, sem que isso venha a tolher a sua criatividade. Ele deve ter um papel de mediador, auxiliar a criança a encontrar o seu caminho criativo, e isso vale para crianças com ou sem deficiência.

No caso de crianças com deficiência será necessário também a utilização de recursos de acessibilidade que possam auxiliar esses alunos no desenvolvimento de suas atividades, como réplicas de objetos ou reproduções em relevos de imagens bidimensionais, no caso de crianças com deficiência visual, objetos referenciais e jogos sensoriais para crianças com deficiência intelectual, enfim, tudo que puder servir de estímulo tanto visual, tátil, olfativo como sonoro.

Porém, as respostas devem partir da criança. A criança vai explorar, vai encontrar a sua resposta. Devemos, portanto, ficar atentos às respostas trazidas pelas crianças, aproveitando essas respostas como forma de desenvolvermos mais estímulos.

Tempo de Creche – E o papel do educador? Qual sua postura?

Amanda – Então, o educador não é uma pessoa que está lá de uma forma passiva, como eu vivenciei na “livre expressão”, no tempo que eu era criança. O educador tem um papel importante nesse processo.  Ele deve estar sempre atento para ampliar a curiosidade e a necessidade de exploração dessa criança, deve sempre pensar “no que mais eu posso produzir ou fazer para levar esta criança para frente”? O olhar para esta criança tem que ser muito mais atento. A inclusão não é colocar “todos na mesma panela”, mas perceber a singularidade, a diversidade desta criança, estar acompanhando o desenvolvimento desta criança permanentemente também.

A creche que trabalha com inclusão tem que ter um educador que vai acompanhar esta criança de uma forma mais atenta. Além disso, a creche tem que ter uma infraestrutura para viabilizar esta inclusão. Volto a afirmar que a Inclusão não é só “colocar todos dentro da mesma panela”.

Para mim o direito de igualdade é também o respeito pela diversidade.

Devemos, portanto, respeitar a singularidade de cada criança, conhecendo as suas necessidades e o que precisamos realizar para contribuirmos efetivamente em seu desenvolvimento e no seu potencial criativo, pessoal e coletivo.

Balão Para Saber MaisNa próxima semana Tempo de Creche irá contar sobre a exposição Sentir pra Ver, coordenada por Amanda Tojal, no Memorial da Inclusão, no Memorial da América Latina, São Paulo.

Você também pode ler os posts Brincar com tablets e celulares é aprendizado para crianças pequenas? e Por que Heloisa? nos ensina a pensar o conceito da deficiência.

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Amanda TojalAmanda Fonseca Tojal

Museóloga e educadora em museus, consultora de Acessibilidade em Ação Educativa Inclusiva, mestre e doutora em Ciências da Informação pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo.

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