Musicalização no dia a dia de bebês e crianças

Tempo de Creche conversou com a musicista e psicóloga, especialista em musicalização para crianças e bebês, Andréa Franco Schkolnick. Para Andréa a música é um meio expressivo e não a finalidade do trabalho com crianças.

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Tempo de Creche – Como é o universo da música para a criança de 0 a 3 anos?

Andréa – Realizo um trabalho de música com bebês desde 2006 e de lá para cá muita coisa mudou.

Inicialmente, minha maior preocupação era a pesquisa de músicas e brincadeiras  para esta faixa etária. Procurava escolher instrumentos mais adequados e que não oferecessem riscos para o bebê. Músicas para movimentos de balançar, embalar e pular ou mesmo para chamar a atenção da criança na comunicação verbal (por exemplo, músicas com sílabas que se repetem ou com as vozes de animais).Tudo era planejado por que eu achava que assim estaria próxima do mundo e dos interesse das crianças, podendo compreendê-las melhor e elas se sentindo à vontade.

Naquela época, entendia que o mundo da música era algo a ser apresentado para a criança pequena e que esta, por sua vez, estaria absorvendo de alguma maneira aquelas informações.

Tempo de Creche – E o que mudou?

Andréa 1Andréa – Após anos de prática e de estudos, meu trabalho foi se transformando e hoje entendo que o foco de qualquer trabalho infantil é a própria criança, isto é, o repertório e as brincadeiras são importantes mas são elas o centro (protagonismo) do trabalho. Ao trazer uma música ou brincadeira, observo a reação de cada um dos bebês e permito que cada um possa se relacionar à sua maneira com aquilo que está sendo apresentado. Não existe uma única forma de manusear os instrumentos,  como não  há uma forma esperada para a criança  dançar, pular ou até mesmo tentar balbuciar uma canção.

O momento da musicalização é uma possibilidade divertida da criança aprofundar suas descobertas naturais num ambiente rico em sons, texturas e brincadeiras. Mas tudo acontece de acordo com o momento de cada criança: é ela quem encaminha o desenrolar das oficinas.

A música torna-se um meio e não a finalidade do trabalho. 

 Tempo de Creche – Como os pais reagem a isto?

Andréa – Alguns pais ficam muito ansiosos, pois esperam que seu filho aprenda algo mais padronizado, objetivo. Então, procuro orientá-los da importância de permitir que a criança se relacione com as atividades propostas de acordo com sua própria curiosidade e com o momento em que ela se encontra. É muito importante respeitar as necessidades de exploração para que a criança possa sentir segurança para se expressar e participar.

Andréa 2Além de orientá-los, procuro incluí-los nas sugestões de canções e brincadeiras, possibilitando um resgate da própria infância da família.

Assim, o universo da música para crianças de 0 a 3 anos, na minha visão, é mais uma possibilidade que ela tem de pesquisar  o mundo e a si mesma dentro deste grande processo que está vivenciando.

Tempo de Creche – Como o professor de Educação Infantil, quando não tem uma formação específica em música, pode trabalhar a musicalização?

Andréa – O professor de educação infantil que não tem formação específica em música também poderá trazer a musicalização para as crianças. A música é um forma de expressão e cada educador precisa, inicialmente, descobrir em si mesmo esta possibilidade. Poderá experimentar o canto, a exploração de sons em seu próprio ambiente, a possibilidade de fazer música com os recursos disponíveis que podem ser até mesmo suas palmas ou sons feitos em seu próprio corpo.

Costumo nas oficinas para educadores leva-los a vivenciar o processo de descoberta sonora em si mesmos, para conhecê-lo antes de desenvolver com as crianças. Neste trabalho, a criatividade dos professores é uma grande aliada. Além disso, considero importante que eles possam vivenciar um pouco das possíveis sensações infantis.   Não acredito que existam “receitas” para trabalhar música com crianças, mas o educador estará melhor preparado se passar por uma sensibilização sonora. Assim, por exemplo, conseguirá  adentrar o mundo da crianças, sentirá como ela olharia para um chocalho pela primeira vez e de que maneiras poderia se relacionar com ele.

Tempo de Creche – O que avançou neste sentido?

Andréa – Tenho notado que as atividades voltadas para as crianças pequenas têm sido muito difundidas. Cada vez mais estão surgindo oficinas de música, dança e artes para bebês e crianças pequenas. Creio que as crianças estão tendo um acesso cada vez maior às brincadeiras e atividades de musicalização.

De fato, há uma preocupação dos profissionais em desenvolverem um trabalho adequado para esta faixa etária o que os leva a uma pesquisa e aproximação deste mundo. Isso é muito interessante.

Porém, não podemos nos esquecer de que as crianças de 0 a 3 anos vivem um momento de muitas descobertas ,explorações e vivências corporais que precisam ser respeitadas. Por isso, não acho saudável apresentar um excesso de estímulos e informações, afinal, elas ainda não têm  recursos para processar tanto conteúdo. Acredito que o mais valioso  é estarmos dispostos a viver momentos prazerosos e felizes com nossas crianças, onde elas tenham o apoio de seus pais e educadores para  experimentar o mundo e enfrentar  seus desafios, podendo, assim, crescer com autoconfiança.

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barrinha colorida fininha

AndréaAndréa Franco Schkolnick é educadora musical com formação em Psicologia. Atualmente leciona piano para todas as faixas etárias e realiza trabalhos de musicalização para bebês e crianças na Casa do Brincar ,no Conservatório Beethoven e na escola Jacarandá. Ministra também oficinas para pais e grupos de supervisão para educadores e profissionais que trabalham com bebês/crianças pequenas e que tenham interesse em usar a música em seu trabalho.

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