Brincar, uma linguagem que desenvolve

Tempo de Creche conversou com Gisela Wajskop sobre a cultura e as possibilidades do brincar, as conquistas na interação com os adultos e com outras crianças.

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Tempo de Creche – Como você vê o brincar na infância?

Gisela – A linguagem própria da infância é a brincadeira da criança. No meu entender essa linguagem só pode ser compreendida e valorizada na medida em que a criança vai ganhando espaço e autonomia nas relações sociais. A criança na interação com seus pares e nas atividades experimentais, busca compreender a vida dos adultos. Nessa medida, a linguagem do brincar ajuda as crianças a compreenderem os valores, atitudes, afetos e comportamentos dos adultos quando se colocam no lugar deles, utilizando objetos, gestos, movimentos ou ações lúdicas substitutas que os representam.

 Tempo de Creche – O que podemos perceber da brincadeira da criança?

Gisela – Observa-se em qualquer escola ou creche que as crianças brincam de bichos, monstros, polícia e ladrão, fadas e bruxas, mas esses temas e enredos não são naturais nas crianças e só ocorrem por meio do contato e vivências culturais no seio das comunidades em que vivem. Dependem das histórias que escutam, das festas e produções culturais das quais participam, dos almoços, jantares e outras atividades que partilham.

Nas culturas e locais onde as crianças podem ocupar espaços sem a tutela e supervisão constante do adulto, os grupos etários mistos constituem-se em ambientes de iniciação social e cultural importantes, no quais os pequenos podem aprender com os maiores as regras e as formas de representação associadas às culturas de cada localidade.

gisela 4A própria brincadeira de casinha, antes de estar presente nas creches/escolas, existe nas interações espontâneas de grupos infantis como maneira de experimentar, reproduzir ou modificar o modus vivendi dos grupos sociais aos quais as diferentes crianças pertencem. Por outro lado, insisto em que a brincadeira, mais do que um comportamento, é uma atividade linguística que é aprendida desde a mais tenra idade, na relação que os bebês estabelecem com seus cuidadores.

 

 

Tempo de Creche – E as brincadeiras violentas?

Gisela – Muitas vezes, na ânsia de compreender suas vidas, as crianças trazem temáticas muito violentas para suas brincadeiras. O papel da brincadeira como linguagem auxilia as crianças a darem nome ao que conhecem e vivenciam. Compreender esta função da brincadeira pode ajudar aos educadores a observarem suas ações e temas, e, assim, poder enriquece-la ou trabalhar as temáticas que se fizerem necessárias. Nessa medida, brincar de matar (mais humana) ou reproduzir cenas erotizadas nas brincadeiras (mais consumista e reprodutivista do mundo adulto atual) deve ser algo que os educadores não podem deixar de levar em conta e antecipar como possível de acontecer. Não é bom nem ruim! É apenas algo que interessa às crianças por alguma razão. Mudar a brincadeira depende de criar ambientes mais investigadores, criativos, coloridos, imaginativos por meio do uso de materiais expressivos ou visitas à praças, parques, audição de músicas e escuta de histórias.

Tempo de Creche – Para as crianças, brincar na escola, na praça e em casa é a mesma coisa? O tempo e o espaço de brincar tem influência na brincadeira?

gisela 1Gisela – A brincadeira muda em relação aos espaços e companheiros de brincadeiras. Na rua, quando autorizada pelos adultos, a brincadeira é menos didatizada e as crianças podem aprender, inclusive, os riscos de viver, o que é altamente positivo. Também o tempo que elas têm para brincar e os espaços criam desafios diferentes pelo tipo de objetos que encontram pela frente (subir em uma árvore é bastante diferente do que subir em uma sequência de bancos organizada pelo adulto, os tipos de riscos já foram antecipados e previstos).

Tempo de Creche – Qual o papel do adulto/ educador diante da brincadeira da criança? Você pode dar alguns exemplos práticos? 

Gisela – Quanto menores são as crianças, mais o adulto tem uma importância crucial na observação detalhada do que fazem e sobre o que estão interessadas. Os adultos tem um papel fundamental em criar ambientes que propiciem a investigação, a curiosidade, o uso da linguagem para expressar-se. Isso significa organizar, arrumar, atualizar, mexer, mudar os espaços de acordo com as necessidades de uso das crianças. O arranjo espacial não pode virar um elefante branco onde as coisas estão todas lá, mas ninguém mexe ou depois de mexer tem de ser arrumadas e voltam para o lugar. A brincadeira, por ser uma atividade que depende e enriquece o pensamento e a linguagem infantil, tem uma característica muito dinâmica. Assim, se o educador observa as crianças fazendo de conta de fazer comidinhas, ele pode introduzir no dia seguinte, na roda de conversa, diferentes panelas de alumínio e informar às crianças que vai colocá-las no espaço da casinha. Pode também pedir às crianças que tragam sementes de casa, tal como um punhado de arroz, feijão, ervilha ou mesmo pedrinhas que forem encontrando no caminho. A valorização positiva da brincadeira é sentida pelas crianças quando elas podem observar e vivenciar o seu enriquecimento pelos adultos. Outra intervenção importante, a partir da qual estou realizando uma pesquisa-ação em algumas instituições na periferia de São Paulo, é a disponibilização de bons livros literários, com imagens, frases e objetos que podem ser também disponibilizados como cenário do brincar. Eles podem enriquecer e disparar novas brincadeiras.

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Tempo de Creche – Que outras ações dos adultos facilitam a brincadeira?

Gisela – Disponibilizar ferramentas de rearranjo espacial é outro papel do adulto. Por exemplo, deixar ganchos presos nas paredes para que as crianças, especialmente as mais velhas, possam trançar tecidos, barbantes ou fitas para construir paredes ou casinhas imaginárias. Mostrar uma vez como se faz e elas poderão fazer sozinhas em seguida.

Criar espaços diversificados, aproveitando toda a superfície da sala, evitando empurrar a brincadeira para os cantos. Observar, escutar e criar espaços inusitados pode ser não apenas uma experiência rica, investigativa e criativa para as crianças mas, principalmente para os adultos que, ao desenvolver um pensamento e um fazer mais flexível e criativo, sem rancores moralistas, poderão construir com as crianças uma escola mais interessante e enriquecedora!

Cultura-e-históriaHistórico do desenvolvimento da brincadeira na Educação Infantil

A brincadeira ou a atividade do brincar vem sendo estudada há muito tempo em relação ao desenvolvimento infantil, pelo menos desde o final do século XIX, quando as crianças apareceram na cena social como sujeitos diferenciados dos adultos com alguma vida própria. Coincidiu, em nossa sociedade, com a criação das primeiras propostas e instituições educativas para a infância (Fröebel, Montessori, Owell). De lá pra cá, durante o século XX, tanto a psicologia e a psicanálise como outras ciências humanas tais como a antropologia e a sociologia avançaram bastante o conhecimento sobre a brincadeira. Na realidade, de acordo com o Professor Gilles Brougère, de quem sou fã, e dos estudos que deram origem à sociologia da infância, tais como Philippe Aries e tantos outros, somados as leituras da psicologia sociocultural (Vygotsky e Elkonin) a brincadeira é uma atividade linguística (mais do que simbólica) que foi sendo transferida do teatro, da dança e dos diversos ritos e mitos (lembramos aqui de Huizinga) vivenciada comunitariamente e oralmente pelo conjunto das comunidades, como uma linguagem própria da infância.

Balão-Para-Saber-MaisLeia também no Tempo de Creche os post: Natureza, riscos e brincadeiras numa discussão que dá o que pensar; Rotina é um recurso de aprendizagem?; Falta de uso do corpo e os problemas de ansiedade.

 

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Mais informações

ESTUDOS E PRÁTICAS CONTEMPORÂNEAS NA PRIMEIRA INFÂNCIA

  •  A Brincadeira de faz-de-conta como espaço de construção de narrativas infantis com Gisela Wajskop 
  • Idealização e realização: CONVERSO Assessoria Pedagógica
  • Data: 24 de outubro
  • Horário: 9h às 12h e 13h as 16h
  • Local: Rua Bartira, 580 Perdizes – São Paulo/SP
  • Informações e inscrições: secretaria.converso@gmail.com
  • Tels. 94440 2272 – 3864 8201 – 3228 0809

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Pós-Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação: Formação de Formadores da PUC/SP. Visiting Scholar no Ontario Institute for Studies in Education, University of Toronto, departamento de Currículo, área de formação de professores, 2014. Doutora em Educação, USP, 1995. Mestre em Educação: História, Política, Sociedade, PUC/SP. Pesquisadora colaboradora do Núcleo de Estudos e Pesquisas e Desenvolvimento Profissional Docente vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Educação: Formação de Formadores da PUC/SP.

 

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