Tânia Fulkelmann Landau fala da importância das manifestações culturais na formação da criança

brincadeiras Território do Brincar Num texto interessante e apetitoso, Tânia Fukelmann Landau, pedagoga e especialista em Educação Lúdica, fala ao Tempo de Creche, reconhecendo a importância das tradições culturais na primeira infância uma vez que a sociedade em que ela se desenvolve é determinante para a sua formação. Destaca também a produção de cultura da criança, com a valorização e reconhecimento dos conteúdos produzidos por parte de quem educa.

Tempo de Creche – Neste período em que planejamos o calendário do ano, como você vê as manifestações culturais e a educação para a primeira infância?

Tania Fukelmann Landau imagem

Tânia – Mesmo antes de nascer o bebê já está imerso em uma cultura. Algumas mães cultivam a prática de acariciar a barriga, outras conversam com seus filhos e cantam para eles ainda escondidinhos no seu ventre. Dedicam um tempo pessoal para prepararem o quarto, o enxoval com as roupas e imaginam como será o pequeno. Listam possíveis nomes e se inspiram em diversas fontes nestas alternativas. cartaz filme BébésFato é que isto tudo pode parecer natural, no entanto não é bem assim. Todas estas escolhas estão ancoradas em hábitos e práticas de determinados ambientes sociais. Estas são formas que conhecemos de preparo humano para a chegada dos descendentes, mas não são as únicas. No documentário Bebés gravado pelo cineasta francês Thomás Balmès podemos testemunhar como mães de diferentes lugares cuidam de formas diversas de sua prole durante o primeiro ano de vida. Podemos afirmar que as crianças, por serem introduzidas nestas diversas práticas culturais, desde muito cedo, podem desenvolver um sentimento de pertencimento e identidade. Este já seria um bom motivo para pensarmos nas manifestações culturais que estarão presentes na escola da primeira infância, considerando que, adotá-las é sempre uma escolha ancorada nas nossas crenças, convicções, ideais, rupturas e tradições.

cenas filme Bébés

Ao ingressar na escola, as crianças passam a ter um contato maior com a diversidade de culturas que permeiam, mas também transcendem o universo familiar. É hora de pensar nesta imersão em seus pequenos detalhes.
Com o início de um novo ano, nasce também o desejo de ver e rever nossos percursos para poder aprimorá-los. É um momento propicio para refletirmos sobre nossas crenças, ideais e escolhermos práticas que conversam melhor com algumas perspectivas.

  • Balão Dúvida pO que oferecemos às crianças?
  • Quais as atividades culturais adotadas nesta escola?
  • O que pertence ao nosso patrimônio cultural da infância?

Sem dúvida alguma, se acreditamos na existência de uma criança ativa, engajada, competente, sujeito de sua própria vida, podendo exercer o direito de ser criança e ter infância, o espaço para as manifestações artísticas e as brincadeiras são a resposta mais apropriada para estas questões. É por meio das cantigas, cantos, acalantos, danças, filmes, jogos, brincadeiras, contos e outras linguagens lúdicas e expressivas que a criança poderá criar suas raízes, ganhar voz, se socializar, desenvolver a criatividade e seu potencial investigativo e amoroso com a vida.

Você se lembra desta cantiga? Ciranda, cirandinha / Vamos todos cirandar! / Vamos dar a meia volta / Volta e meia vamos dar  Se brincou é bem provável que nunca esqueceu. Pode ser que na hora de recitar um versinho consiga apenas dizer batatinha quando nasce esparrama pelo chão… Isto não acontece à toa. Mesmo crescidos levamos conosco um manancial de experiências que quando vividas de forma significativa e afetiva passam a fazer parte da nossa pessoa. Nem sempre entendemos muito bem como estes pequenos fragmentos sobrevivem conosco, mas sabemos que algumas memórias constituem a nossa história. Portanto, em uma conclusão mais direta, as vivencias da criança na escola são de fundamental importância para a construção da sua história. Não são as únicas, mas deixam marcas no seu modo de ser e estar no mundo. Podemos entender também que as crianças, até mesmo os bebês, não somente se apropriam das tradições culturais, mas são produtoras de culturas, pois são também criadoras e inventivas no seu modo de conceber o mundo, se envolvem em ações propositivas. É nesta intersecção entre produção e apropriação que a escola deve prever oportunidades para a criança conhecer, criar e transformar. Mesmo aquelas bem pequenas, interagem entre elas e constroem um mundo próprio e manifesto por inúmeras linguagens verbais e essencialmente as não verbais. Cabe a escola fazer escolhas e criar espaços e tempos para garantir as aproximações de um legado de infância e as manifestações culturais das crianças. É hora de pensar em um cotidiano escolar interativo, alguns marcos e prever eventos no calendário. Nesta escola vamos comemorar a festa junina? Terá Mostra Cultural? Levaremos as crianças para o teatro? Que tipo de teatro é esse? E o dia do índio, da consciência negra, do soldado, todos eles são substanciais para nossas crianças, respondem as suas necessidades, curiosidades e raízes? O que é transmitido e o que será oferecido para o exercício da liberdade, fruição e expressão da imensidão infantil? Não se trata de construir um roteiro de datas comemorativas. Em primeiro lugar, é preciso saber o que faz sentido para aquela comunidade, naquele contexto local. E, principalmente, o que faz sentido para aquelas crianças naquele momento, bem como o que dialoga com o entorno e com as famílias. O calendário tem que ser minimamente organizado, mas também aberto e flexível para que contemple os percursos coletivos construídos com as crianças ao longo do ano.

imagem comemorações Algumas decisões são pautadas na importância que damos para preservar e perpetuar algumas tradições culturais, outras surgem pela necessidade ou pela história de determinada comunidade. Ainda teremos aquelas decisões agendadas que surgem ancoradas nos propósitos que desejamos implantar. E, por fim, muitos eventos nascem das demandas das próprias crianças, quando devidamente escutadas e interpretadas.

setaAlguns exemplos para ponderarmos:

  • Definir ou não se faremos uma festa Junina na escola nos desafia a pensar em muitas variáveis. Vamos comemorar a Festa Junina e /ou o Halloween? Devemos ou não fazer a festa Country? Qual destas propostas condiz melhor com o intuito de preservar, perpetuar e valorizar as manifestações populares típicas do Brasil? O que nos confere, e às nossas crianças, um maior enraizamento e sentimento de pertencimento? Estes são nossos objetivos? Podemos fazer isto de outras maneiras?
  • Nossa comunidade é substancialmente composta por filhos de bolivianos, o que podemos fazer para acolher estas comunidades, respeitar as diversidades e suas manifestações, como incluí-los e também alargar o conhecimento de todos?
  • Nossa escola é bilíngue, o que faz sentido para as crianças nesta perspectiva multicultural?
  • Queremos incentivar a leitura nas famílias e estimular este prazer pela literatura com as crianças. O que podemos fazer? Podemos agendar uma semana literária, convidar as famílias para contarem ou escutarem histórias?
  • As crianças ficaram instigadas e curiosas para saber de onde vem o mel das abelhas. Podemos alimentar esta curiosidade e buscar respostas com uma visita ao apiário local?

Esta e outras escolhas, uma vez priorizadas precisam ser previstas no calendário e devem nortear, de alguma maneira o cotidiano das crianças, envolvendo-as nos preparativos e nos processos para que possam ser impregnadas de sentido por elas. Para além destes marcos e datas agendadas, temos que pensar neste cotidiano das crianças. Como será o dia a dia delas nestes espaços? O que eles possibilitam? As crianças brincam? Do que brincam? Com quem brincam? Como brincam? Com o que brincam? Cantam? Dançam? Escutam histórias? Manuseiam e exploram diferentes materiais? Podem sentir, experimentar sensações com o corpo inteiro? Se movimentam com liberdade, segurança e autonomia? Os materiais, ambientes, espaços e o próprio tempo assinalam possibilidades de inserção e interpretação cultural para as crianças. Quais são os seus interesses, necessidades e potenciais? Ao longo do ano é preciso garantir tempos e espaços para conhecer esse mundo infantil, as expressões e conhecimentos que emergem dele. Para tanto, é preciso estar atento aos gestos, movimentos, emoções, sorrisos, choros, olhares e demais linguagens das crianças. Agendar e prever no calendário encontros, como uma Mostra Cultural, para compartilhar estes conhecimentos com as crianças e sobre as crianças e seus percursos na escola, pode ser uma boa maneira de favorecer as trocas, dar voz às crianças e maior visibilidade às suas competências e expressões culturais. É também um modo de educar o olhar dos adultos para que reconheçam estas manifestações e valorizem a infância como um período importante na vida de todos e da sociedade.

Balão Para Saber MaisO trailer do filme Bebês, de Thomás Balmès, citado pela Tânia, pode ser visto no YouTube, assim como alguns trechos. Conheça mais sobre o Território do Brincar, autor das fotos de brincadeiras das crianças brasileiras, que ilustram este post, no site do Território do Brincar e nos posts da Renata Meirelles, educadora e fundadora desta iniciativa que pesquisa a infância em nosso país. Veja os post Renata Meirelles fala sobre tanque de areia e o tempo do brincar e Renata Meirelles conta como surgiu o livro Cozinhando no quintal

Leia também: Passeando pela cultura, descobrindo a festa juninaA arte pinta da festa juninaBrincando com as culturas indígenas; Vamos conhecer e brincar com a música indígena brasileira

barrinha colorida fininha

 

Tânia Fukelmann Landau

Fundadora e diretora da CONVERSO_ Assessoria Pedagógica. Pedagoga pela PUC-SP e Especialista em Educação Lúdica pelo ISEVEC. Colaboradora em projetos e publicação da Fundação ABRINQ. Membro da diretoria da Casa do Povo (instituição cultural). Atualmente se dedica integralmente à formação continuada de educadores e aos estudos sobre a infância.

 

 

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2 Comentários para Tânia Fulkelmann Landau fala da importância das manifestações culturais na formação da criança

  1. Karen diz:

    Ótimo texto! Li com meu grupo de professoras para nortear as ações pedagógicas do ano. Provocativo, nos faz refletir sobre a necessidade de deixar para trás antigos hábitos enraizados em uma cultura escolar que não nos cabe mais. Gratidão!

    • Oi, Karen! Obrigada pelo contato. Ficamos contentes em contribuir com a reflexão de seu grupo de professores. Vamos continuar o diálogo… Partilhe conosco os pensamentos e as mudanças provocadas a partir desta leitura. Abraços.

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