Vivências, experiências e os tempos da criança

Balão-Dúvida-pOs tempos da criança, do professor e da escola são os mesmos?
Existem “tempos diferentes”?

Tempo para a pesquisa da criançaPercebemos diferenças importantes nas dimensões temporais das crianças e suas brincadeiras, nos planejamentos dos professores e nos esquemas de funcionamento das creches e escolas. Conhecer e lidar com as características das diferentes demandas de TEMPO, como nas brincadeiras, na organização das rotinas e nos horários da creche e da escola, são questões que atravessam nosso dia a dia.

 

Balão-Dúvida-pPrimeiramente, o que é TEMPO?

Segundo alguns dicionários, TEMPO é a duração dos fatos, é o que determina os momentos, os períodos, as épocas, as horas, os dias, as semanas, os séculos etc.. É a ideia de presente, passado e futuro e o período no qual os eventos se sucedem.

Mas o TEMPO também pode ter seus significados na filosofia:
Os gregos, antigos pensadores da humanidade, tinham três conceitos para o tempo: cronos, kairós e áeon.

  • Cronos refere-se ao tempo cronológico, ou sequencial, que pode ser medido. Está associado ao relógio e às coisas terrenas, com um princípio e um fim.
  • Kairos refere-se a um momento indeterminado no tempo, em que algo especial acontece, o tempo da oportunidade.
  • Áeon é um tempo sagrado e eterno, sem uma medida precisa, um tempo da criatividade, da inspiração, onde as horas não passam.

Essa visão dos gregos pode explicar nosso dia a dia:

Tempo CRONOS:
O tempo do controle, é medido, vai sendo adequado. São os horários da rotina da creche e da escola: hora de entrada, hora de lanchar, almoçar, jantar e ir para a casa. É a ‘pedra no sapato” do professor que, tenso e perseguido por ele, pode se deixar desumanizar.

Tempo KAIROS:
É o tempo da relação do professor com sua turma, que planeja e organiza as sequências didáticas e projetos para perseguir as experiências e aprendizados das crianças. É o olhar observador que persegue o que de especial acontece com seus pequenos para registrar e refletir sobre as oportunidades de provocar novas pesquisas e aprendizados.

Tempo ÁEON:
Não tem medida, não é do controle, é da criação.
A duração nessa dimensão se dissolve. Essa é a dimensão da criança, que brinca e faz de conta. Não tem tempo definido. Pode levar segundos, minutos ou horas para a criança percorrer seu percurso de brincadeira, criação, pesquisas e descobertas. Você já percebeu isso acontecer?

O professor planeja as vivências e experiências para suas crianças. Ele precisa mediar o tempo áeon dos pequenos e o tempo cronos da instituição.

Balão-Dúvida-pPor que falar sobre esses conceitos?

Porque crianças só aprendem quando mergulham nas suas experiências com curiosidade e desejo de pesquisa. É nesse processo que elaboram e constroem sentidos que podem ser ligados a outros conteúdos. Isso é transformação, é aprendizado.

Tempo para expetiencia de criança

As crianças vivenciam diversas atividades durante a rotina do seu dia, podem brincar com um brinquedo, correr para lá e para cá, fazer roda, mas, se não mergulharem nessas vivências com interesse, inspiração e curiosidade, não acontecerão as transformações das experiências e os aprendizados.

escovação de dentesBalão-na-PráticaLevando essa questão para a prática, é sabido que trabalhamos com as crianças autonomia e identidade a partir dos cuidados de si mesmas.
Como esse trabalho pode realmente construir transformações?
Se as crianças simplesmente vivenciarem, por exemplo, escovar os dentes, lavar as mãos ou arrumar a sala, como algo automático, sem intenção pedagógica e desafios, os aprendizados não se processam. Do contrário, quando as crianças perseguem desafios, exploram as situações e constroem conteúdos significativos, acontece o aprender.

O tempo cronos da rotina é necessário, organizador e estruturante para as crianças. Elas aprendem a temporalidade por meio das marcas do seu dia: chegar à escola, depois ir brincar, tomar o suco e, depois do suco, brincar mais. Almoçar e, depois de comer, descansar. Brincar mais um pouco, comer novamente e ir para casa!

pesquisa de criançaÉ nessa alternância de tempos que a criança se desenvolve. As vivências tem o relógio que marca seus caminhos. Já a criança é poesia, e poesia é criação. Criação acontece no estado da inspiração. Acontece no tempo áeon. O tempo da experiência da criança é esse. O olhar sensível do professor que capta esses momentos é aquele que educa. É nessa dimensão, nesse jogo do biológico com o social e o cultural que a criança persegue experiências que lhe atravessam e provocam aprendizados.

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Balão-Para-Saber-MaisReferências:

  • Gisa Picosque – Palavras-chaves para dar contorno à prática da arte em ambiência hospitalar, 2012
  • Silvana de Oliveira Augusto – A experiência de aprender na Educação Infantil, em Salto para o Futuro, 2013
  • Jorge Larrosa – Notas sobre a experiência e o saber de experiência, em Revista Brasileira de Educação, 2002

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Leia mais sobre Experiências na infância nas postagens:
Arte na infância: a escola como um laboratório de experiências
Experiências de aprendizagem através da criação de cenários investigativos
Campos de experiências todos os dias!

 

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5 Comentários para Vivências, experiências e os tempos da criança

  1. Lucimara dos Santos Silva diz:

    Já passei po isso, o descanso deve ser diminuído com a idade, mas procure oportunizar o momento como um aconchego, colocar uma música de ninar, escurecer um pouco o ambiente, porém seja sincera com as crianças, pois vão descansar para brincar mais depois, p ter mais energia. Comigo deu muito certo!

  2. Raphaela diz:

    Eu tenho uma dúvida quanto o tempo. Percebo que na minha creche as crianças parecem não querer dormir, no entanto não encontro um teórico que fundamente a não necessidade obrigatória de dormir. Todas as crianças acabam sendo obrigadas só tempo de sono, em nenhum momento vcs falaram sobre tempo de sono e sim descanso. Gostaria de dicas de materiais para problematizar e refletir junto com a equipe.

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