Avaliação PARA a aprendizagem e não DA aprendizagem

O Jornal O Estado de São Paulo (16/05/2016) publicou uma matéria sobre Educação Infantil que mexeu conosco: “Sem boletim, ensino infantil ganha relatório – na falta de provas, escolas investem em avaliar detalhadamente como se dá o desenvolvimento das habilidades cognitivas das crianças”.
A gente se perguntou:
Qual a concepção de infância que permeia essa abordagem de avaliação?
O que se espera do desenvolvimento infantil no âmbito das escolas, numa era marcada pelos estudos das múltiplas inteligências de Howard Gardner?

Reportagem Estado de São Paulo 16-05-1016

Segundo a reportagem do jornal, algumas escolas vêm investindo na elaboração de instrumentos detalhados para avaliar as habilidades e comportamentos das crianças. Questões como reconhecer as letras do próprio nome, contar de 1 a 10, colocar e abotoar o casaco, amarrar os cadarços do sapato e aguardar a vez numa situação social são foco desses relatórios que abordam o desenvolvimento infantil.

A fase da primeira infância, tão pautada pelo contexto familiar e cultural da criança, pela incrível capacidade de pesquisa e pela transversalidade da aprendizagem traz surpresa ao ser tratada de forma unificada, com instrumentos como os citados na reportagem.

Crianças aprendem a partir das conexões estabelecidas com aquilo que já sabem e que, naturalmente, desperta seus interesses. A partir desse ponto, amarrar os cadarços pode acontecer com uma pesquisa sobre as tramas do tecido da juta, por exemplo. Aprender a colocar o casaco pode começar numa brincadeira com bonecas ou no jogo simbólico da casinha. Como fica a avaliação no caso da criança estar construindo esses aprendizados? O que se ganha com esse levantamento?

Aprendizados das crianças

O currículo da Educação Infantil está fundamentado em princípios que estabelecem uma base nacional comum para a ação pedagógica de todo o país. Esse documento considera e reconhece a criança pequena como singular, capaz e agente de suas aprendizagens. O texto provisório da segunda versão da Base Nacional Comum Curricular faz uma interpretação clara dessa questão:

Os bebês e as crianças pequenas constroem e apropriam-se de conhecimentos, a partir de suas ações: trocando olhares, comendo, ouvindo histórias, colocando algo na boca, chorando, caminhando pelo espaço, manipulando objetos, brincando.

O professor, então, planeja sua ação com as crianças com o objetivo de promover aprendizados e desenvolvimento partindo de eixos, trazidos como Campos de Experiências no texto da Base:

  • O eu, o outro e o nós;
  • Corpo, gestos e movimentos;
  • Traços, sons, cores e imagens;
  • Escuta, fala, linguagem e pensamento;
  • Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações.

Porém, ele precisa acolher as sugestões das crianças e integrar situações imprevistas que sejam potencializadoras de aprendizagens. Assim, o trabalho do professor não é “solto”, ele tem um olhar crítico e reflexivo sobre sua prática e os processos de aprendizagem das crianças.

Portugal também elaborou um novo documento orientador para a Educação Infantil, que encontra-se em consulta pública no país. Seu conteúdo tem sintonia com a forma de pensar a Educação Infantil no Brasil e trata da questão da avaliação nessa fase da infância de forma esclarecedora:

Considera-se que a educação pré-escolar não envolve nem classificação da aprendizagem da criança nem o juízo de valor sobre a sua maneira de ser…

A avaliação na educação pré-escolar é reinvestida na ação educativa, sendo uma avaliação para a aprendizagem e não da aprendizagem. (Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar – Rede Portuguesa Educação)

Sugerimos então partir daquilo que cada criança conquista e não do que se espera, como forma de avaliar o desenvolvimento. O professor preparado tem uma pauta e expectativas quanto às faixas etárias para orientar seu trabalho. Contudo, ao preparar uma documentação à respeito do amadurecimento de seus pequenos, deve ressaltar as conquistas, que são mais contextualizadas, individualizadas e não menos interessantes ao “tornar visíveis” as aprendizagens, como preconizado nas escolas de Reggio Emilia.

Segundo a pedagoga Carla Rinaldi, presidente da Reggio Children, a educação vem sendo tratada, mais e mais, como uma mercadoria individual e como metáfora para as mudanças que a escola tem passado, de espaço ou fórum público para um negócio privado, uma atividade que compete no mercado para vender seus produtos – educação e cuidado.

E, como tal, entendemos que criou-se uma necessidade para atestar as “qualidades desse produto” que esquece da dimensão das humanidades. Trabalhar com o cuidado e a educação na primeira infância é garantir uma preparação para a vida, numa jornada singular de etapas e conquistas.

Bibliografia:

Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil

Base Nacional Comum Curricular – 2a versão

Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar – Rede Portuguesa Educação
http://www.dge.mec.pt/sites/default/files/Noticias_Imagens/ocepe_abril2016.pdf ;
http://www.dge.mec.pt/noticias/educacao-de-infancia/orientacoes-curriculares-para-educacao-pre-escolar-consulta-publica

Diálogos com Reggio Emilia: escutar, investigar e aprender. Carla Rinaldi, Editora Paz&Terra, 2012

Inteligências Múltiplas: a teoria na prática. Howard Gardner, Artes Médicas, 2003

Reportagem Sem boletim, ensino infantil ganha relatório. Jornal O Estado de São Paulo, A14 – .edu, de 16 de maio de 2016

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6 Comentários para Avaliação PARA a aprendizagem e não DA aprendizagem

  1. Marge Peixoto diz:

    Ótimas ideias! Adorei!

  2. Silangela diz:

    Boa noite. Gostaria de um auxilio sobre a avaliação dos pequenos de 2 anos

    • Oi, Silangela!

      Você poderia esclarecer um pouco sobre que tipo de auxílio você deseja? Sabemos que são crianças de dois anos… Você trabalha em creche? Como é a rotina? Algumas postagens falam sobre planejamento e registro. São elas: Maria Aparecida fala sobre Educação Infantil
      Por que fazer registro?
      Pauta do Olhar: o que o professor precisa olhar para registrar
      Registrar… não tão fácil, mas poderoso!
      Abraço

  3. Rosi Batista diz:

    Olááá meninas do tempo de creche,

    Amei o texto sobre avaliação. Infelizmente os gestores e outros profissionais não conseguem visualizar a avaliação desta forma ( falando da minha realidade). Agora que entramos neste período começamos a ouvir as lamúrias. Vou repassar. Sou professora de berçário e sempre leio as postagens
    Obrigada pelos ótimos textos.
    Rosi

  4. márcia diz:

    Mesmo que de forma rápida,sempre encontramos nesse blog assuntos relevantes para abordamos com os professores. Com essa breve reflexão é possível pensarmos o quão importante é aprendermos mais sobre Documentação Pedagógica a favor da criança e não como meros instrumentos burocráticos. Parabéns e obrigada!

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